Revista Espírita · Allan Kardec

Capítulo 87 de 102

Um fenômeno.

Por uma noite assim dessas primaveris, Em que brilham nos céus as estrelas gentis, E que bons burgueses da cidade Falavam, caminhando e com tranquilidade, Por espaçosas avenidas.

Cada qual a seu turno as vistas estendidas Do solo aos campos celestiais, Sem dúvida pensais Que os assuntos de seus discursos Eram sobre o poder eternal, sem magia, E que os corpos submetem às leis sãs harmonia? Não: eles davam outros cursos Aos pensamentos seus; da bolsa à cotação, Das colheitas ao preço, eram toda a atenção Em que se nutria sua alma, Quando um deles disse, sem calma, Qual sob ação de súbito estupor: “Que vejo? Pode ser? uma estrela em fulgor? Ora se eleva… ora descendo!”

E esfregando os olhos: “Que digo, Uma estrela… Pois creio, em minha fé, comigo, Salvo que seja um sonho e nele esteja crendo; Uma, duas ou três, quatro estrelas nos céus Movem-se e dançam em silêncio; Mistério estranho, a noite vence-o Com prazer ocultando-o nos seus véus!” E dos burgueses a alma atônita acompanha Suas fases fenomenais, Que em vão, para o explicar, se afadiga demais; Aí só do acaso a artimanha.

Marcham, e entre os cordéis que lhes tocam na fronte A sustentar pelo ar a cada papagaio Quando de uma luz de ensaio Ao sopro de uma brisa insonte; E da criançada, autora enfim desse esplendor, Perto dela riam com amor.

Que disseram depois dessa dupla surpresa, Logo após seus desencantos?

Que pelos céus tais fogos tantos Mero artifício são, obra se singeleza, Para tolos levar a tão grandes espantos. O horizonte também em púrpura se inflama, E envolve a noite então de luz misteriosa; Qual se de um meteoro a chama Na escuridão dos céus resplandece radiosa; Que uma estrela cadente em seus vivos anéis Queira os campos do éter rasgar, Estes burgueses bons, de olhos e braços no ar, Vão tentar achar seus cordéis. Se a verdade tem sempre alguma imitação, Cabe-nos distinguir, e por comparação, Toda a verdade da intrujice.

O ceticismo vão leva à charlatanice Ante fatos que são da lei eterna até. E para julgar bem qualquer causa ou efeito. Possa um cético ser aceito:

Se com modéstia, – e boa-fé.

C. Dombre, de Marmande.