Revista Espírita · Allan Kardec
Capítulo 16 de 102
Inspiração de um ex-incrédulo a propósito de O Livro dos Espíritos.
27 de dezembro de 1864.
Tal aquele que um dia, em naufrágio encontrado, Nos destroços do barco em desespero, a nado, Sem força ante a fadiga e a esperança a perder De a seu país chegar e nunca mais rever, Lembra-se então de orar, que a fé sua alma afaga; Quando súbito emerge um clarão sobre a vaga De uma terra ignorada acesso lhe indicando, O náufrago cansado, esforços redobrando, Rapidamente alcança a margem protetora, E agradecido a Deus antes de tudo ele ora, Sentindo, assim, que a fé lhe renasce com ardor, Obedecer-Lhe a lei promete ao Salvador! Isso eu senti um dia, o vosso livro ao ler, Senti no coração coragem renascer. Muito tempo ocupado em buscar os segredos Da vida corporal que contava nos dedos, Mas nada de apanhar-lhe as causas e a razão Que pareciam sempre escapar-me à visão. Vosso livro ao me abrir mais novos horizontes Para os trabalhos meus fez surgir outras fontes. Aí vi que tinha feito errada rota então, E dúvida não mais, só fé no coração. De fato, o homem que sai das mãos do Criador, Não pode ser lançado aqui ao desamor, Pois uma santa lei por Deus mesmo outorgada, A reger o Universo inteiro é destinada! Progresso é o nome seu, para bem a cumprir Os homens, entre si, procurem se reunir. Que cenários de luz, que páginas sinceras Nesse livro que aborda o homem das priscas eras, Que mostra antes de tudo os primeiros humanos, Colhendo o bem-estar sem trabalhos insanos! A guiá-lo da vida a tão belo proscênio, Somente o instinto, sim! E só mais tarde o gênio. Do homem nascerá esse fogo sagrado, E o espírito do bem sempre muito inspirado, Do demônio vencido as cadeias quebrando A partir de então irá mais sendas devassando. Lá, sobre um frágil barco, ousados marinheiros Afrontam vagalhões quais valentes guerreiros A lançarem-se ao mar… E vaga antes temida A desafio tal recua enfim batida. Além, da águia a imitar o voo audacioso, Vê-se o homem a ensaiar assalto aos céus, brioso! Mais longe de um rochedo, em sua audácia incrível, Na imensidão do céu perscruta o indefinível; Do Universo sem-fim ele descobre a lei, E do mundo se faz em breve o único rei! Nem aí se detém seu incrível ardor: Em um tubo reter o impalpável vapor, Que avança então montando esse dragão de fogo; As mais rudes ações não são mais do que um jogo Do gênio em tudo a expor sua marcha devida, Onde reinava a morte ele faz nascer vida. Parecia que aqui o seu voo ele finda; Mas inflexível lei lhe exige mais ainda, E veremos da terra esse senhor então De uma nuvem espessa arrancar o trovão, Em dócil instrumento alterar seu furou, E de um poste fazer humilde servidor! Limites pois não há para o saber humano. Para o cosmo fez Deus do homem um soberano; A ele cabe encontrar por esforços constantes Do corpo e da alma os bens sublimes e brilhantes. E que ele descartando a rota assaz batida, Descortine afinal a luz desconhecida Já por tão longo tempo oculta ao seu olhar. Busquemos do progresso o lábaro elevar; Abordemos e já a trilha e vasta messe Ao nosso esforço aberta… Ante o amor e ante a prece: Que normas divinas em nosso pavilhão! Prossigamos enfim em fraterna união. Se for preciso um dia em luta sucumbirmos, Nós rogamos, Senhor, que ao menos ao cairmos A coragem na fé nossos filhos, assim, Inspires a cumprir a tua lei, enfim.