Revista Espírita · Allan Kardec
Capítulo 49 de 118
Meditações sobre o futuro.
Observação. – Embora não tenhamos o hábito de publicar poesias que não sejam produtos mediúnicos já constatados, por certo nossos leitores nos serão agradecidos por fazermos exceção ao seguinte trecho de inspiração, a bem dizer espontânea, de uma pessoa que, até pouco tempo atrás, ainda relegava as crenças espíritas como utópicas. Quando da morte a mão, golpes multiplicando, Outrora, a nossa volta, o luto semeando, Só assim nos consolava a nos ferir o ouvido: “Se no túmulo dorme um ser muito querido “É que a alma da prisão do corpo libertou-se, “Do invólucro pesado a um outro etéreo e doce; “Retornando afinal à origem primitiva, “De Deus desfruta, então, a força e luz bem viva; “Nele reencontrareis, um dia, e com fervor “Ao invés do amor terrestre um imortal amor!” Agora, não é mais tão longínqua esperança Que em nossos males um clarão incerto lança; Futuro já não é aos mortos esquecer: Perto de nós estão, sem vê-los, a nos ver, Sentindo-nos a fé e nossos sofrimentos; Mensageiros trazendo a nós santos alentos, A responderem do Alto ao que aqui cogitamos; Apertam suas mãos as nossas se aspiramos Beijos de sua boca; enquanto de outra esfera Alentam nosso amor ao mistério da espera. Ao evocá-los nós, quais ocultos enxames, Claridade e calor nos sopram em derrames; Eles vêm! E pra nós tudo muda e se colora; De ignotos mundos nós pressentimos a aurora; Nos ilumina a mente um fulgor sideral, E adoramos, então, num silêncio total Todo o poder de Deus por eles revelado. Responde! Ó eternal Saber se nos é dado Ofensas Te fazer! ao romper, santamente, O véu que limitava o olhar da humana gente? Seguidores fiéis, vamos de alma tenaz Do Evangelho rasgar os textos divinais? De homens convictos, não! Corações de valor, Fazemos depois dele o que fez o Senhor: Nós cremos: – Operar milagres nós podemos, Cenáculos de luz dos lares nós faremos, O Espírito a invocar cujas línguas de fogo A serviço de Deus os simples ponham, logo. Lá dos confins do céu soprai, ventos celestes! Para longe de nós tangei trevas agrestes; Espalhai vossa luz, ó candelabros de ouro, E que da arca sagrada aclarai o tesouro! Ó raios do Sinai! Sarça do Horeb ardente! Espíritos do bem, tende o poder na mente, Espírito, qual sopro a que sentiu passar Por sua pele Job, seus pelos a eriçar; Ó vós que, destruindo as almas exaltadas, Martirizando enfim turbas amotinadas, Na Idade Medieval, um atormentador Gerou o sanguinário algoz inquisidor; Vinde! Que há sede em nós de ensinos mais ordeiros; Da infância há tempo já rejeitamos os cueiros; Pois já nos fazem falta os nomes e as verdades Que nos velhos sermões não tinham claridades. De inertes multidões marchamos, hoje, à frente, Se a Verdade a fulgir em luz incandescente Nos devora e de nós quer mártires fazer, Morreremos sorrindo e sem a desdizer. Precedemos o tempo; a expressar como os Magos Homenagens a Deus com orações de afagos. E bem sabemos que de nós assim dirão: “Esses poetas, enfim, sonhando loucos são!” Seja! que assim também com deslustrante imagem Diziam de Jesus, na hora que a criadagem Bordoadas na face e vestes lhe desanca, Lançando-lhe, sublime emblema, a toga branca. Disse Paulo: “É loucura, então, sabedoria!” Coragem sem cessar, busquemos na harmonia; Indaguemos do morto os possantes segredos; Afastemos de nós certos sentidos tredos; Este mundo em que Deus suas regras nos prova, Como às águias nos muda e sempre nos renova! Firmes por seu Direito, e fortes no poder, Abriremos ao mundo as fontes do saber. Virá o dia, – e creio, está bem perto a aurora, - Que a humana multidão, cansada, não mais chora, Por saber aplacar dos corações a sede Com a onda que sacia e o pranto em fogo impede, Virá nos repetir num imenso lamento: “Dai-nos da luz a fé e da esperança o alento; “Dai-nos com vossa mão toda a unção da virtude “Que nos eleva a fronte à terra em lassitude. “Nossos olhos sem luz face à poeira imunda, “Fazei-os enxergar claridade fecunda. “Pronunciai o Epheta misterioso do Cristo! “Transfigurai a carne ao Ser preso em registo! “Vivos, nos colocai, portanto, dentre a coorte “Dos que se vêm mostrar após a ação da morte! “Os sepulcros, ah, não! já túmulos não são, “Porém corações maus, e caiados, então. “Os mortos instruirão a nós como viver “A fim de obter de Deus possamos reviver!” E nós, que no Senhor sentimo-nos aceitos Para habitar na Terra em locais mais perfeitos, Abraçamos o irmão sem qualquer formalismo, Em nome do Evangelho! À luz do Espiritismo! Raoul de Navery.
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[v. Raoul de Navery.]