Revista Espírita · Allan Kardec

Capítulo 47 de 125

Os dois Voltaires

Sou eu mesmo, mas não aquele Espírito zombador e cáustico de outrora; o reizinho do século dezoito, que dominava pelo pensamento e pelo gênio a tantos soberanos, hoje já não tem nos lábios aquele sorriso mordaz que fazia tremer os inimigos e os próprios amigos! Meu cinismo desapareceu ante a revelação das grandes coisas que eu queria tocar e que não conheci senão no além-túmulo!

Pobres cérebros demasiado estreitos para conterem tantas maravilhas! Humanos, calai-vos, humilhai-vos diante do poder supremo; admirai e contemplai: é o que podeis fazer. Como quereis aprofundar Deus e o seu grande trabalho? Malgrado todos os seus recursos, a vossa razão não se aniquila ante o átomo e o grão de areia, que ela não pode definir?

Empreguei minha vida a procurar conhecer a Deus e seu princípio; minha razão se debilitou e cheguei a negar não a Deus, mas a sua glória, o seu poder e a sua grandeza. Eu o explicava desenvolvendo-se no tempo. Celeste intuição me dizia que rejeitasse tal erro, mas eu não escutava e me fiz apóstolo de uma doutrina enganadora… Sabeis por quê? Porque, no tumulto e na confusão de meus pensamentos, que se entrechocavam incessantemente, eu só via uma coisa: meu nome gravado no frontão do templo de memória das nações! Só via a glória que me prometia essa juventude universal que me cercava e parecia saborear com suavidade e delícia a quintessência da doutrina que eu lhe ensinava.

Entretanto, impelido não sei por que remorso de minha consciência quis parar, mas era muito tarde. Como toda utopia, todo sistema que abraçamos nos arrasta; a princípio segue a torrente, depois nos arrasta e nos quebra, tão rápida e violenta é por vezes a sua queda.

Crede-me, vós que aqui estais em busca da verdade: encontrá-la-eis quando tiverdes expulsado do coração o amor aos ouropéis, que um tolo amor-próprio e um orgulho ridículo fazem brilhar aos vossos olhos. Não temais, na nova via por onde marchais, combater o erro e o abater, quando se erguer à vossa frente. Não é uma monstruosidade exaltar uma mentira contra a qual ninguém ousa defender-se, porque fizemos discípulos que ultrapassaram nossas crenças?

Como vedes, meus amigos, o Voltaire de hoje não é mais aquele do século dezoito. Sou mais cristão, porque aqui venho fazer-vos esquecer minha glória e vos lembrar o que fui na juventude e o que amava na infância. Oh! como eu gostava de me perder no mundo do pensamento! Minha imaginação ardente e viva percorria os vales da Ásia atrás daquele que chamais Redentor… Eu gostava de percorrer os caminhos que ele tinha percorrido. E como me parecia grande e sublime esse Cristo em meio à multidão! Julgava ouvir a sua voz poderosa, instruindo os povos da Galileia, das margens do lago de Tiberíades e da Judeia!… Mais tarde, nas minhas noites de insônia, quantas vezes me ergui para abrir uma velha Bíblia e reler suas santas páginas! Então minha fronte se inclinava diante da cruz, esse sinal eterno da redenção, que une a Terra ao Céu, a criatura ao Criador!… Quantas vezes admirei esse poder de Deus, por assim dizer se subdividindo, e cuja centelha se encarna para fazer-se tão pequena, vindo render a alma no Calvário em expiação!… Vítima augusta cuja divindade eu negava e que, no entanto, me fez dizer: Teu Deus que tu traíste, teu Deus que tu blasfemas, Para ti, para o Universo, morreu nestes lugares!