Revista Espírita · Allan Kardec
Capítulo 4 de 125
Queríamos versos de Béranger
Depois que me afastei de nossa pátria bela, E outros países vi, ouço alguém me deter: Voltai, voltai, ouvi a quem vos apela, Nós queremos ter mais versos de Béranger. Deixai, pois, repousar esta musa risonha; Ela já habita o céu com seus campos abertos, Para louvar seu Deus com voz que alegre sonha Cada dia ao juntar-se aos celestes concertos. Ela cantara outrora as mais frívolas árias; Por seu bom coração, Deus a si o chamou, Não tendo achado más as suas canções várias. Ele amava, ele orava e nunca a alguém odiou. Se eu pude flagelar a raça capuchinha Com seu bom coração os franceses têm rido. Se a voltar a este mundo o bom Deus me destina, A zombar-lhes ainda eu serei compelido. Béranger.
Nota. – Aqui o Espírito de Béranger, deixando-nos entregue à nossa prece, deu-nos os versos seguintes: O quê! Me assassinais, leviana e humana raça! Versos! Meus versos sempre! O pobre Béranger Bastante os feito tem sobre a terra em que passa E contra eles seu fim devia proteger. Mas não, pois que ele é nada, e se lhe cumpra a sorte! Em morrendo, esperava o bom Deus impedisse-o. Se me quereis punir, ai de mim! Que o suporte O pobre Béranger a que votais suplício. Béranger.
ENSAIO AINDA UMA DE MINHAS CANÇÕES. (Sociedade Espírita do México.) I.
Filho querido de uma terra amada, Lembro-me sempre de você aqui. Sob outros céus, alma regenerada Amor, beleza e mocidade vi Da vida, enfim, no seu topo me inundo, Eterno globo de reencarnações; E eu, pobre Espírito deste outro mundo, Ensaio alguma de minhas canções. II.
Eu vi chegar esta diva criatura Que de emoção envolve o nome seu; Mas em seus olhos não mais que a ternura, Pôde sentir sem medo este olhar meu. E adormeci, e a amiga em tom profundo, Dá-me ao partir enternecidos sons; E eu, pobre Espírito deste outro mundo, Ensaio algumas de minhas canções. III.
Oh, ide em paz! Deitai-vos no jazigo, Mortos felizes, deixai de acordar; Olhos fechados são telas de abrigo Que se abrirão a um sol belo e a brilhar. Sorride, pois, que a morte lá no fundo Quer-vos brindar com messes e orações; E eu, pobre Espírito deste outro mundo, Ensaio alguma de minhas canções. IV.
Ei-los caídos, gigantes da glória; Escravos, reis, todos serão iguais, Que para todos nós maior vitória Só cabe àquele que amar souber mais. Lá vemos esse que amor, gemebundo, Nos pede, ou que deixamos com aflições. E eu, pobre Espírito deste outro mundo, Ensaio alguma de minhas canções. V.
Adeus, amigos. Adentro esse espaço Que à vossa voz possa eu sempre vencer; A imensidade é um eterno enlaço Que brevemente vireis percorrer. Sim, e com voz jovial em tom jucundo, Juntos direis então minhas lições; E eu, pobre Espírito deste outro mundo, Ensaio alguma de minhas canções. Béranger.
Observação. – De passagem por Paris, o presidente da Sociedade Espírita do México houve por bem confiar-nos uma coletânea de comunicações dessa Sociedade, autorizando-nos a escolher o que julgássemos útil. Pensamos que nossos leitores não protestarão por essa primeira escolha que fizemos. Verão, pelas mostras, que belas comunicações são dadas em todos os países. Devemos acrescentar que o médium que obteve os dois fragmentos acima é uma senhora inteiramente estranha à poesia. [1]
[v. Béranger.]