Revista Espírita · Allan Kardec
Capítulo 80 de 94
Os convulsionários de Saint-Médard.
1. — Notícia — François Pâris, famoso diácono de Paris, morto em 1727, aos 37 anos de idade, era o filho mais velho de um conselheiro do Parlamento, a quem naturalmente devia suceder no cargo. Preferiu, no entanto, abraçar a carreira eclesiástica. Após a morte do pai deixou os bens para o irmão e, durante algum tempo, ensinou catecismo na paróquia de São Cosme, encarregando-se da direção dos clérigos e fazendo-lhes conferências. O Cardeal de Noailles, a cuja causa estava ligado, quis nomeá-lo cura dessa paróquia, mas sobreveio um obstáculo imprevisto. O abade Pâris consagrou-se inteiramente ao retiro. Depois de ter experimentado diversos eremitérios, confinou-se numa casa do subúrbio de São Marcelo. Lá se entregou sem reserva à prece, às práticas mais rigorosas da penitência e ao trabalho manual. Fazia meias para os pobres, que considerava como seus irmãos; morreu nesse asilo. O abade Pâris havia aderido ao apelo da bula Unigenitus, interposta pelos quatro bispos; tinha renovado seu apelo em 1720. Assim, devia ter sido descrito diversamente pelos partidos opostos. Antes de fazer meias produziu livros muito medíocres. Dele possuímos explicações sobre as epístolas de São Paulo aos Romanos e aos Gálatas, e uma análise da epístola aos Hebreus, que pouca gente lê.
Tendo seu irmão mandado erigir-lhe um túmulo no pequeno cemitério de Saint-Médard, os pobres socorridos pelo piedoso diácono, alguns ricos que ele havia edificado e algumas mulheres que tinha instruído para lá se dirigiam, a fim de fazer preces. Houve curas que pareceram maravilhosas e convulsões que foram consideradas perigosas e ridículas. A autoridade viu-se enfim obrigada a fazer cessar esse espetáculo, determinando o fechamento do cemitério no dia 27 de janeiro de 1732. Então os mesmos entusiastas foram provocar suas convulsões em casas particulares. Na opinião de muita gente, o túmulo do diácono Pâris foi o túmulo do jansenismo. Mas algumas pessoas julgaram ver o dedo de Deus, tornando-se mais ligadas a uma seita capaz de produzir tais maravilhas. Há diferentes histórias desse diácono, do qual talvez jamais teriam falado se não o houvessem querido transformar num taumaturgo. Entre os fenômenos estranhos apresentados pelos Convulsionários de Saint-Médard citam-se:
A faculdade de resistir a golpes tão terríveis que os corpos deveriam ficar triturados; A de falar línguas ignoradas ou esquecidas; Um desdobramento extraordinário da inteligência: os mais ignorantes entre eles improvisavam discursos sobre a graça, os males da igreja, o fim do mundo, etc.; A faculdade de ler o pensamento; Postos em contato com os doentes, apresentavam dores no mesmo local daqueles que os consultavam; nada mais frequente do que ouvi-los predizer diversos fenômenos anormais que deveriam sobrevir no curso de suas moléstias.