Revista Espírita · Allan Kardec
Capítulo 75 de 107
Obsediados e subjugados.
1. — Muito se tem falado dos perigos do Espiritismo. Entretanto, é de notar-se que aqueles que mais gritaram são precisamente os que só o conhecem de nome. Já refutamos os principais argumentos que lhe opuseram, de tal forma que a eles não mais retornaremos; acrescentaremos somente que, se quiséssemos proscrever da sociedade tudo quanto possa oferecer perigo e dar margem a abuso, não saberíamos ao certo o que haveria de restar, mesmo em relação às coisas de primeira necessidade, a começar pelo fogo, causa de tantas desgraças; as estradas de ferro, em seguida, etc., etc. Se admitirmos que as vantagens compensam os inconvenientes, o mesmo raciocínio se aplica a tudo o mais: assim o indica a experiência, à medida que tomamos certas precauções para nos subtrairmos aos perigos que não podemos evitar. Realmente, o Espiritismo representa um perigo real; de modo algum, porém, aquele que se supõe: é preciso que se seja iniciado nos princípios da ciência para bem compreendê-lo. Não nos dirigimos absolutamente àqueles que lhe são estranhos, mas aos próprios adeptos, aos que o praticam, visto ser para eles que o perigo existe. Importa que o conheçam, a fim de se porem em guarda: perigo previsto, já se sabe, é perigo pela metade. Diremos mais: para quem quer que esteja instruído na ciência, não há perigo; só existe para os que julgam saber e nada sabem, isto é, para os que não possuem a necessária experiência, como sói acontecer em todas as coisas. Um desejo muito natural em todos aqueles que começam a se ocupar do Espiritismo é ser médium, principalmente médium de psicografia. Sem dúvida é o gênero que oferece mais atração, em virtude da facilidade das comunicações, e por ser o que melhor se desenvolve pelo exercício. Compreende-se a satisfação que deve experimentar aquele que, pela primeira vez, vê a própria mão formar letras, depois palavras, depois frases que respondem aos seus pensamentos. Essas respostas, que traça maquinalmente, sem saber o que faz e que, no mais das vezes, estão fora de toda ideia pessoal, não lhe podem deixar nenhuma dúvida quanto à intervenção de uma inteligência oculta. Assim, grande é a sua alegria de poder se entreter com os seres de além-túmulo, com esses seres misteriosos e invisíveis que povoam os espaços; seus parentes e amigos já não se acham ausentes; se não os vê com os olhos, nem por isso deixam de ali estar; conversam com ele, e ele os vê pelo pensamento; pode saber se são felizes, o que fazem, o que desejam e com eles trocar boas palavras; compreende que entre eles a separação não é eterna e acelera, com seus votos, o instante em que poderão reunir-se num mundo melhor. Isso não é tudo: quanto não vai saber por meio dos Espíritos que se comunicam com ele! Não irão levantar o véu de todas as coisas? Desde então, nada mais de mistérios; não tem senão que interrogar, para tudo ficar sabendo. À sua frente, já vê a Antiguidade sacudir a poeira dos tempos, revolver as ruínas, interpretar as escrituras simbólicas e fazer reviver aos seus olhos os séculos que se foram. Outro, mais prosaico, e menos preocupado em sondar o infinito onde seu pensamento se perde, simplesmente sonha em explorar os Espíritos para fazer fortuna. Os Espíritos, que devem ver tudo e tudo saber, não podem recusar fazer-lhe descobrir algum tesouro oculto ou algo secreto e maravilhoso.
2. — Quem quer que se dê ao trabalho de estudar a ciência espírita não se deixará jamais seduzir por esses belos sonhos; sabe a que se ater sobre o poder dos Espíritos, sua natureza e o objetivo das relações que com eles pode o homem estabelecer. Recordemos, primeiro, em poucas palavras, os pontos principais, que jamais devem ser perdidos de vista, porque são como que a pedra angular do edifício.
1º Os Espíritos não são iguais nem em poder, nem em conhecimento, nem em sabedoria. Nada mais sendo que as almas dos homens, desembaraçadas de seu invólucro corporal, apresentam variedade ainda maior do que as encontradas entre os homens na Terra, visto procederem de todos os mundos e porque entre os mundos o nosso planeta não é o mais atrasado, nem o mais avançado. Há, pois, Espíritos muito superiores, e outros bastante inferiores; muito bons e muito maus, muito sábios e muito ignorantes; há os levianos, malévolos, mentirosos, astuciosos, hipócritas, engraçados, espirituosos, zombeteiros, etc. 2º Estamos incessantemente cercados por uma multidão de Espíritos que, por serem invisíveis aos nossos olhos materiais, nem por isso deixam de estar no espaço, ao redor de nós, ao nosso lado, espiando nossas ações, lendo os nossos pensamentos, uns para nos fazerem o bem, outros para nos induzirem ao mal, conforme sejam bons ou maus.
3º Pela inferioridade física e moral de nosso globo na hierarquia dos mundos, os Espíritos inferiores são aqui mais numerosos que os superiores.
4º Entre os Espíritos que nos rodeiam, há os que se vinculam a nós, que agem mais particularmente sobre o nosso pensamento, aconselham-nos, e cujo impulso seguimos sem o saber. Felizes se escutarmos somente a voz dos bons.
5º Os Espíritos inferiores não se ligam senão aos que os ouvem, junto aos quais têm acesso e aos quais se prendem. Caso consigam estabelecer domínio sobre alguém, identificam-se com o seu próprio Espírito, fascinam-no, obsidiam-no, subjugam-no e o conduzem como se fosse uma verdadeira criança.
6º A obsessão jamais se dá senão pelos Espíritos inferiores. Os Espíritos bons não causam nenhum constrangimento; aconselham, combatem a influência dos maus e, se não são ouvidos, afastam-se.
7º O grau de constrangimento e a natureza dos efeitos que produz marcam a diferença entre a obsessão, a subjugação e a fascinação.
A obsessão é a ação quase permanente de um Espírito estranho, que faz com que a vítima seja induzida, por uma necessidade incessante, a agir nesse ou naquele sentido, a fazer tal ou qual coisa.
A subjugação é uma opressão moral que paralisa a vontade daquele que a sofre, impelindo-o às mais despropositadas ações e, frequentemente, àquelas que mais contrariam os seus interesses.
A fascinação é uma espécie de ilusão, ora produzida pela ação direta de um Espírito estranho, ora por seus raciocínios capciosos, ilusão que altera o senso moral, falseia o julgamento e faz tomar o mal pelo bem.