Revista Espírita · Allan Kardec
Capítulo 63 de 107
Correspondência.
1. — Bruxelas, 15 de junho de 1858.
Meu caro Senhor Kardec:
Recebo e leio com avidez vossa Revista Espírita e recomendo aos meus amigos não a sua simples leitura, mas o estudo aprofundado do vosso O Livro dos Espíritos. Lamento bastante que minhas preocupações físicas não me deixem tempo para os estudos metafísicos, embora os tenha levado bastante longe para pressentir quanto estais perto da verdade absoluta, sobretudo quando vejo a coincidência perfeita que existe entre as respostas que me foram dadas e as vossas. Mesmo aqueles que vos atribuem pessoalmente a autoria de vossos escritos estão estupefatos pela profundidade e pela lógica que encerram. Repentinamente e de um salto, vós vos elevastes até ao nível de Sócrates e Platão, pela moral e pela filosofia estética; quanto a mim, conhecedor do fenômeno e da vossa lealdade, não duvido da exatidão das explicações que vos são dadas e abjuro todas as ideias que a esse respeito publiquei, enquanto nelas não pensava ver, juntamente com o Sr. Babinet, mais que fenômenos físicos ou charlatanice indigna da atenção dos sábios. Como eu, não desanimeis diante da indiferença de vossos contemporâneos; o que está escrito, está escrito; o que está semeado germinará. A ideia de que a vida é uma afinação das almas, uma prova e uma expiação, é grande, consoladora, progressiva e natural. Os que a ela aderem são felizes em todas as posições; em vez de se queixarem dos sofrimentos físicos e morais que os oprimem, devem regozijar-se ou, pelo menos, suportá-los com resignação cristã. Por ser feliz, foge ao prazer:
É do filósofo a divisa; O esforço feito para o obter Custa bem mais do que ajuíza Mas ele vem cedo ou mais tarde, De forma súbita e imprecisa; Do acaso é jogo sem alarde Que dez mil vezes valer visa.
O tolo nega sempre o que ele não entende; Mesmo o maravilhoso é-lhe pobre vergel; Ele não sabe nada, e nada quer ou aprende; — Do incrédulo esse é, pois, um retrato fiel.