Revista Espírita · Allan Kardec

Capítulo 38 de 107

Mehemet-Ali, antigo paxá do Egito.

1. O que vos impeliu a atender ao nosso apelo?

Resposta. – Para vos instruir.

2. Estais contrariado por vir até nós e responder às perguntas que vos desejamos fazer?

Resposta. – Não; as que tiverem por fim vossa instrução, eu o consinto.

3. Que prova podemos ter de vossa identidade e como poderemos saber se não é um outro Espírito que toma vosso nome? Resposta. – Para que serviria isso?

4. Sabemos, por experiência, que os Espíritos inferiores muitas vezes se utilizam de nomes supostos; é por isso que vos fizemos essa pergunta. Resposta. – Eles utilizam também as provas; mas o Espírito que toma uma máscara também se revela por suas próprias palavras.

5. Sob que forma e em que lugar estais entre nós?

Resposta. – Sob a que leva o nome de Mehemet-Ali; perto de Ermance.

6. Gostaríeis que vos déssemos um lugar especial?

Resposta. – A cadeira vazia.

Observação. – Perto dali havia uma cadeira vazia, à qual não se tinha prestado atenção.

7. Tendes uma lembrança precisa de vossa última existência corporal?

Resposta. – Não a tenho ainda precisa; a morte me deixou sua perturbação.

8. Sois feliz?

Resposta. – Não; infeliz.

9. Estais errante ou reencarnado?

Resposta. – Errante.

10. Recordais o que fostes antes de vossa última existência?

Resposta. – Eu era pobre na Terra; invejei as grandezas terrestres: subi para sofrer.

11. Se pudésseis renascer na Terra, que condição escolheríeis de preferência?

Resposta. – Obscura; os deveres são muito grandes.

12. Que pensais agora da posição que ocupastes por último na Terra?

Resposta. – Vaidade do nada! Quis conduzir os homens; sabia conduzir-me a mim mesmo?

13. Dizia-se que já há algum tempo a vossa razão estava alterada; isso é verdade?

Resposta. – Não.

14. A opinião pública aprecia o que fizestes pela civilização egípcia, e vos coloca entre os maiores príncipes. Experimentais satisfação com isso? Resposta. – Que me importa! A opinião dos homens é o vento do deserto que levanta a poeira.

15. Vedes com prazer vossos descendentes trilhando o mesmo caminho? Interessai-vos por seus esforços? Resposta. – Sim, já que têm por objetivo o bem comum.

16. Entretanto, sois acusado de atos de grande crueldade: envergonhai-vos deles, agora?

Resposta. – Eu os expio.

17. Vedes os que mandastes massacrar?

Resposta. – Sim.

18. Que sentimento experimentam por vós?

Resposta. – O do ódio e o da piedade.

19. Depois que deixastes esta vida revistes o sultão Mahamud?

Resposta. – Sim: em vão fugimos um do outro.

20. Que sentimento experimentais agora um pelo outro?

Resposta. – O da aversão.

21. Qual a vossa opinião atual sobre as penas e recompensas que nos esperam após a morte? Resposta. – A expiação é justa.

22. Qual o maior obstáculo que tivestes de vencer para a realização de vossos objetivos progressistas? Resposta. – Eu reinava sobre escravos.

23. Pensais que se o povo que governastes fosse cristão, teria sido menos rebelde à civilização? Resposta. – Sim; a religião cristã eleva a alma; a maometana não fala senão à matéria.

24. Quando vivo, vossa fé na religião muçulmana era absoluta?

Resposta. – Não; eu acreditava num Deus maior.

25. Que pensais disso agora?

Resposta. – Ela não faz homens.

26. Na vossa opinião, Maomé tinha uma missão divina?

Resposta. – Sim, mas que ele corrompeu.

27. Em que a corrompeu?

Resposta. – Ele quis reinar.

28. O que pensais de Jesus?

Resposta. – Esse vinha de Deus.

29. Na vossa opinião, qual dos dois, Jesus ou Maomé, fez mais pela felicidade da Humanidade? Resposta. – Por que o perguntais? Que povo Maomé regenerou? A religião cristã saiu pura da mão de Deus; a maometana é obra do homem.

30. Acreditais que uma dessas duas religiões esteja destinada a desaparecer da face da Terra? Resposta. – O homem progride sempre; a melhor permanecerá.

31. Que pensais da poligamia consagrada pela religião muçulmana?

Resposta. – É um dos laços que retêm na barbárie os povos que a professam.

32. Acreditais que a submissão da mulher esteja conforme os desígnios de Deus?

Resposta. – Não; a mulher é igual ao homem, pois que o Espírito não tem sexo.

33. Diz-se que o povo árabe não pode ser conduzido senão pelo rigor; não pensais que os maus-tratos, em vez de o submeterem, mais o embrutecem? Resposta. – Sim, é o destino do homem; ele se avilta quando é escravo.

34. Poderíeis reportar-vos aos tempos da Antiguidade, quando o Egito era florescente, e dizer-nos quais foram as causas de sua decadência moral? Resposta. – A corrupção dos costumes.

35. Parece que fazíeis pouco caso dos monumentos históricos que cobrem o solo do Egito. Não podemos compreender essa indiferença da parte de um príncipe amigo do progresso. Resposta. – Que importa o passado! O presente não o substituiria.

36. Poderíeis explicar-vos mais claramente?

Resposta. – Sim. Não era necessário lembrar ao egípcio envilecido um passado muito brilhante: não o teria compreendido. Menosprezei aquilo que me pareceu inútil; não poderia ter-me enganado?

37. Os sacerdotes do antigo Egito tinham conhecimento da Doutrina Espírita?

Resposta. – Era a deles.

38. Recebiam manifestações?

Resposta. – Sim.

39. As manifestações obtidas pelos sacerdotes egípcios provinham da mesma fonte que as recebidas por Moisés? Resposta. – Sim, ele foi iniciado por elas.

40. Por que as manifestações de Moisés eram mais poderosas que as recebidas pelos sacerdotes egípcios? Resposta. – Moisés queria revelar; os sacerdotes egípcios, apenas ocultar.

41. Acreditais que a doutrina dos sacerdotes egípcios tivesse alguma relação com a dos indianos? Resposta. – Sim; todas as religiões primitivas estão ligadas entre si por laços quase imperceptíveis; procedem de uma mesma fonte.

42. Dentre essas duas religiões, a dos egípcios e a dos indianos, qual delas é a mãe da outra? Resposta. – São irmãs.

43. Como se explica que em vida éreis tão pouco esclarecido sobre essas questões, e agora podeis respondê-las com tanta profundidade? Resposta. – Outras existências mo ensinaram.

44. No estado errante em que estais agora, tendes, pois, pleno conhecimento de vossas existências anteriores? Resposta. – Sim, exceto da última.

45. Haveis, pois, vivido no tempo dos Faraós?

Resposta. – Sim; três vezes vivi no solo egípcio: como sacerdote, como mendigo e como príncipe.

46. Sob que reinado fostes sacerdote?

Resposta. – Já faz tanto tempo! O príncipe era vosso Sesóstris.

47. Conforme isso, parece que não progredistes, uma vez que expiais, agora, os erros da vossa última existência. Resposta. – Sim, progredi lentamente; acaso era eu perfeito por ter sido sacerdote?

48. Porque fostes sacerdote àquela época é que pudestes falar com conhecimento de causa da antiga religião dos egípcios? Resposta. – Sim; mas não sou bastante perfeito para tudo saber; outros leem no passado como num livro aberto.

49. Poderíeis dar-nos uma explicação sobre o motivo da construção das pirâmides?

Resposta. – É muito tarde.

(Nota: Eram quase onze horas da noite.)

50. Só vos faremos mais uma pergunta; dignai-vos ter a bondade de respondê-la?

Resposta. – Não, é muito tarde; essa pergunta suscitaria outras.

51. Poderíeis respondê-la em outra ocasião?

Resposta. – Não me comprometo com isso.

52. Mesmo assim, agradecemos a benevolência com que respondestes às nossas perguntas.

Resposta. – Bem! Eu voltarei.

[Revista de novembro de 1858.]

MEHEMET-ALI.

(Segunda palestra.)

1. Em nome de Deus Todo-Poderoso, rogo ao Espírito Mehmet-Ali que consinta em comunicar-se conosco. Resposta. – Sim; sei o motivo.

2. Prometestes vir até nós, a fim de instruir-nos; teríeis a bondade de nos ouvir e de nos responder? Resposta. – Não prometo, desde que não me comprometi.

3. Seja; em lugar de prometestes, coloquemos que nos fizestes esperar.

Resposta. – Isto é, para satisfazer a vossa curiosidade; não importa! Prestar-me-ei um pouco a isso.

4. Pois que vivestes ao tempo dos faraós, poderíeis dizer-nos com que finalidade foram as pirâmides construídas? Resposta. – São sepulcros; sepulcros e templos: ali ocorriam grandes manifestações.

5. Tinham também um fim científico?

Resposta. – Não; o interesse religioso absorvia tudo.

6. Seria preciso que os egípcios fossem, desde aquela época, muito adiantados nas artes mecânicas para realizarem trabalhos que exigiam forças tão consideráveis. Poderíeis dar-nos uma ideia dos meios que empregaram? Resposta. – Massas humanas gemeram sob o peso de pedras que atravessaram os séculos: o homem era a máquina.

7. Que classe de homens se ocupava desses grandes trabalhos?

Resposta. – A que chamais de povo.

8. Estava o povo em estado de escravidão ou recebia um salário?

Resposta. – À força.

9. Donde veio aos egípcios o gosto das coisas colossais, em vez do das coisas graciosas que distinguia os gregos, embora tivessem a mesma origem? Resposta. – O egípcio era tocado pela grandeza de Deus; a Ele procurava igualar-se, superando as próprias forças. Sempre o homem!

10. Considerando-se que éreis sacerdote àquela época, poderíeis dizer-nos alguma coisa acerca da religião dos antigos egípcios? Qual era a crença do povo em relação à Divindade? Resposta. – Corrompidos, acreditavam em seus sacerdotes; eram deuses para eles, a quem se curvavam.

11. Que pensavam da alma após a morte?

Resposta. – Acreditavam no que lhes diziam os sacerdotes.

12. Sob o duplo ponto de vista de Deus e da alma, tinham os sacerdotes ideias mais sadias que o povo? Resposta. – Sim, tinham a luz nas mãos; ocultando-as dos outros, ainda assim a percebiam.

13. Os grandes do Estado partilhavam da crença do povo ou da dos sacerdotes?

Resposta. – Estavam entre as duas.

14. Qual a origem do culto prestado aos animais?

Resposta. – Queriam desviar de Deus o homem e mantê-lo sob seu domínio, dando-lhe como deuses seres inferiores.

15. Até certo ponto concebe-se o culto dos animais domésticos, mas não se compreende o dos animais imundos e prejudiciais, tais como as serpentes, crocodilos, etc.! Resposta. – O homem adora aquilo que teme. Era um jugo para o povo. Podiam os sacerdotes acreditar em deuses saídos de suas mãos?

16. Não seria um paradoxo adorarem o crocodilo e os répteis e, ao mesmo tempo, o icnêumon e o íbis, que os destruíam? Resposta. – Aberração do Espírito; o homem procura deuses por toda parte para se ocultar do que é.

17. — Por que Osíris era representado com uma cabeça de gavião e Anúbis com a de um cão? Resposta. – O egípcio gostava de personificar sob a forma de emblemas claros: Anúbis era bom; o gavião que estraçalha representava o cruel Osíris.

18. Como conciliar o respeito dos egípcios pelos mortos, com o desprezo e o horror por aqueles que os enterravam e mumificavam? Resposta. – O cadáver era um instrumento de manifestações: segundo eles o Espírito retornava ao corpo que havia animado. Como um dos instrumentos de culto, o cadáver era sagrado e o desprezo perseguia aquele que ousava violar a santidade da morte.

19. A conservação dos corpos dava lugar a manifestações mais numerosas?

Resposta. – Mais longas, isto é, o Espírito voltava por mais tempo, desde que o instrumento fosse dócil.

20. A conservação dos corpos visava também à salubridade, em razão das inundações do Nilo? Resposta. – Sim, para os do povo.

21. A iniciação nos mistérios fazia-se no Egito com práticas tão rigorosas quanto na Grécia? Resposta. – Mais rigorosas.

22. Com que fim eram impostas aos iniciados condições tão difíceis de preencher?

Resposta. – Para não haver senão almas superiores; estas sabiam compreender e calar.

23. O ensino dado nos mistérios tinha por finalidade única a revelação das coisas extra-humanas, ou ali eram ensinados também os preceitos da moral e do amor ao próximo? Resposta. – Tudo isso era bem corrompido. O objetivo dos sacerdotes era dominar e não instruir. [1] [v.

Mehemet-Ali.]

Dinastia de Méhémet Ali.

[2] Icnêumon: O sacarrabos, icneumôme, rato-de-faraó, manguço ou escalavardo (Herpestes ichneumon) é um mangusto da Europa, Ásia e África, estimado pelos antigos egípcios por ser considerado um grande devorador de ovos de crocodilos. — Os íbis são aves pernaltas com pescoço longo e bico comprido e encurvado para baixo. No Egito Antigo, o íbis era objeto de veneração religiosa e associado ao deus Thoth.