Quem são · Familiares diversos · Chico Xavier

Capítulo 4 de 12

Ante a bênção divina - Waldemar

1 Querida Amália, queridos filhos, peço a Deus nos abençoe a todos.

2 Não avaliam a surpresa e a emoção com que mobilizo o lápis, com o auxílio do Odilon e de outros amigos da vida nova, para traçar estas notícias.

3 Ainda não sei se escrevo com lágrimas de gratidão a Deus ou com as preces de agradecimento à família abençoada que a Divina Providência me concedeu a felicidade de partilhar, porque a formação de nossa vida doméstica foi sempre tão bela que acredito tenha vindo dos Poderes do Alto.

4 Quero dizer a você, querida Amália, que, antes de tudo, estou aqui a fim de expressar o meu reconhecimento, por tudo de bom que recebi de sua dedicação.

5 Aqui, neste tópico, faço uma pausa para recordar… Lembrar todas as nossas alegrias e dificuldades do princípio, as bênçãos e as lições que nos foi possível entesourar.

6 Agradeço ao seu carinho por todas as suas páginas vivas de sacrifício por nós todos, seus gestos de amor e renúncia que o velho companheiro não conseguirá esquecer, suas noites e dias de trabalho em nosso favor, a sua paciência e a sua compreensão, abraçando os meus filhos — os nossos filhos — com um só coração de mãe, sem estabelecer diferença…

7 Agradeço a você por todas as suas demonstrações de amor e devotamento em auxílio ao João, ao Laius, à Laís, ao Waldir, ao Main, ao Eurípedes, ao Walmir, à Wállia, a todas as nossas filhas noras e genros — filhos, por todos os nossos netos.

8 É difícil para mim manejar a memória com clareza para alinhar todos os nomes. Saibam todos, porém, que se encontram em meu coração.

9 Cada filho me lembra as suas mãos generosas, construindo, amando, servindo, esquecendo-se de tudo para pensar unicamente em nós.

10 E talvez tenha sido eu o seu filho de condução mais difícil, aquele filho-esposo que você já recebeu de espírito consolidado. Perdoe-me pelos obstáculos e conflitos que bem sei lhe haver imposto no curso da vida.

11 Entretanto, querida Amália, sem o coração materno palpitando no corpo do lar, a família deixaria de existir. Em você, temos nós todos a motivação maior para a nossa alegria de viver e aprender com os Instrutores do Bem os ensinamentos da elevação de que todos somos necessitados.

12 Desde muito tempo, venho procurando a oportunidade para endereçar-lhes as minhas notícias e esclarecer que ignoro se haverá no mundo um esposo e um pai tão feliz quanto eu sou.

13 Em verdade, não pude legar aos meus entes amados qualquer patrimônio de ouro e prata, mas tenho o contentamento de reafirmar aos filhos abençoados que lhes deixei um anjo tutelar em sua presença de mãe e todos esses tesouros que recebemos de sua bondade, no dia a dia da existência.

14 O amor e o respeito mútuo, a solidariedade e o entendimento da vida, o trabalho e as noções do dever bem cumprido integram a fortuna que nós, querida Amália, sempre buscamos idear e criar para os descendentes. Louvado seja Deus que nos permitiu tamanha felicidade!

15 Minha libertação do corpo doente e praticamente imprestável, se fez pouco a pouco.

16 Estou grato aos filhos queridos que nos auxiliaram a manutenção do velho pai em casa mesmo, no aposento que ficou marcado para nós como sendo um ponto de encontro com as orações, à procura das bênçãos de Jesus.

17 Aqueles dias e noites de minha incapacidade para falar ou movimentar-me não me retiraram a lucidez, acompanhei o meu processo de libertação do veículo físico, sem perder uma só das minudências.

18 A música dos dias últimos que o nosso Eurípedes inventou para auxiliar-me, exercia sobre mim uma hipnose benéfica, dentro da qual conseguia esquecer o mal-estar que me tomava todo o corpo, em forma de dor indefinível.

19 Ouvia as orações dos amigos, recebia os passes e aquelas melodias que me induziam aguardar com serenidade o alvorecer de um dia novo, faziam o fundo de meus pensamentos de esperança em Deus.

20 A 17 de outubro — bem me recordo —, consegui ver minha mãe, tão perfeitamente como quando em criança e em silêncio, só pedia a Deus me fizesse de novo, criança em seus braços… Ela sorriu e me pediu paciência.

21 À medida que a noite avançava, comecei a sentir que a visão se ampliava… Tive a ideia de que o quarto estava visitado por amigos e companheiros que me antecederam, havia tanto tempo… Reconheci a presença de nosso amigo Dr. Paulo Rosa, que me disse reconhecer-me novamente na condição de um menino doente que ele, com bondade, vinha auxiliar…

22 Entendi que o tempo para mim estava esgotado. Era preciso aceitar e partir, segundo os Desígnios da Vida Superior.

23 As preces de tantos anos, todas elas iluminadas de fé em Deus, estavam funcionando…

24 Amigos da Vida Maior aplicavam-me passes magnéticos através de movimentos que me eram familiares, e adormeci sem dificuldade.

25 Acordando em casa mesmo, notei, embora com muito abatimento, a presença de criaturas queridas que estavam sempre em nosso amor. Minha mãe e meu pai João Lício, meu outro pai Miguel e dona Maria, minha outra mãe, estavam comigo.

26 Nossa estimada Lola auxiliava-me na posição de irmã abnegada e mais experiente que eu mesmo… E outros amigos chegavam ou haviam chegado e eu começava a vê-los com os meus próprios olhos, dentre eles, o Odilon Fernandes, o Carvalho, o Maciel, o Anatólio, o Ricciopo e muitos outros que não posso por agora enumerar.

27 O toque final que me desligava do corpo então imóvel, veio de nosso devotado Eurípedes Barsanulfo, a quem recorria em meus minutos de silêncio forçado no leito…

28 Passei a percepções mais amplas, recebendo abraços de amigos do tempo em que trabalhava com o Dr. João Waack e outros companheiros. O nosso Edmundo, que se encontra aqui conosco, abraçando a nossa querida irmã Vitória, me prestou valioso concurso.

29 Querida Amália, quem conseguirá contar tantas ocorrências, rememorando um dia como aquele de saudade e esperança, paz e despedida?

30 Antes da remoção da vestimenta imprestável que eu deixava, médicos amigos me aplicaram recursos de sedação que me asserenaram e, quando despertei, me achava na Vida Diferente, em que me vejo agora…

31 Saudades são hoje orações comigo, entretanto, tenho a alegria de informar que já posso prosseguir trabalhando… Muito pouco é o que consigo fazer, mas esse pouco já me reconforta e me indica novas realizações do futuro.

32 Agradeço a toda a nossa querida família, que me auxiliou tanto na preparação. Tudo foi mais fácil para mim, de vez que, pouco a pouco o meu remédio, absolutamente indispensável, foi a paciência com que me suportaram. Deus recompense a todos.

33 Se pudesse, seguiria escrevendo, escrevendo…

34 Mamãe está em minha companhia e agradece por mim igualmente, quanto fizeram em minha proteção.

35 Não posso dizer que estou plenamente feliz, porque ausência dos familiares inesquecíveis não dá para fazer a alegria total de ninguém, mas posso dizer que já me esforço para comprar a felicidade com o valor do trabalho, da seara do bem que Jesus me auxiliará a desenvolver.

36 Abraço a todos os filhos, com o carinho de todos os dias, e peço a todos considerarem comigo que o meu tempo de permanência no corpo físico havia realmente terminado e que se me demorasse por mais semanas ou meses, teria o meu processo de esclerose muito agravado. Deus nos proporciona sempre o melhor.

37 Rogo a Deus abençoe a todos eles, junto das noras que se fazem representar nesta noite por nossa Zélia e por nossa Dílcia. Estimo que o nosso Paulinho continue em plena restauração. Não faço uma relação de nomes por não desejar praticar esquecimento.

38 Querida Amália, nossa prezada Lola, que não está presente na noite de hoje, nos reafirma guardar você no coração por irmã e mãe para quem ela roga as bênçãos de Jesus.

39 E ao terminar esta carta, quero rematar com a minha antiga trova, em diferente expressão.

40 Deixando o mundo de abrolhos, Guardo, ante a Bênção Divina, A menina de meus olhos Nos olhos desta menina.

Oh! que olhos de menina, Oh! que menina de olhos Esses seus olhos, menina, São as meninas de meus olhos.

43 Amália sempre querida Na bênção do nosso lar, Sei que você compreende O que anseio registrar:

44 Do que conservo do mundo, O que tenho na visão, É a menina dos meus olhos Que trago no coração.