Preito de amor · Autores diversos · Chico Xavier
Capítulo 17 de 29
Um certo devoto - Maria Dolores
1 Um homem que se entregara à devoção, Havia muito tempo andava em ansiosa espera, Queria ver Jesus.
Por isso, quase sempre, em profunda oração, Vivia em súplica sincera…
Até que, certa noite, Viu, reverente, o Mestre Que o abraçava e prometia, Com palavras de aviso terno e exato, Visitá-lo no dia imediato.
2 O devoto acordou… Amanhecia… Antes que o sol surgisse, inteiramente, Apresentando a Terra em novas cores, O amigo de Jesus, agindo como em festa, Varre a casa modesta; Depois, ei-lo a enfeitá-la, Desde a pequena sala Ao fogão da cozinha limpa e estreita, Com dezenas de flores, Estampando na face a alegria perfeita.
3 Logo pela manhã, Bateu-lhe à porta um pobre em roupa esfarrapada, Mostrando pés e mãos em estranhas feridas. A rogar-lhe uns minutos de pousada, Através de expressões enternecidas, Alegando sofrer tribulações De comprida jornada; Mas o devoto respondeu:
— Amigo, segue adiante, O seu caso é comum, Espero por alguém muito importante Não tenho tempo algum.
O mendigo saiu, cambaleante.
Depois de agradecer.
4 Em seguida apareceu Triste rapaz errante, Demonstrando, no todo, traço a traço, Febre, penúria e dor, indigência e cansaço, Suplicando socorro ao devoto feliz… Ele, porém, lhe diz:
— Põe-te à frente, rapaz, não tenho neste mundo A obrigação de abrir a porta de meu lar A qualquer vagabundo…
5 Logo após, um menino pobre e triste Surgiu descalço e só, Corpo todo a encobrir-se sob o pó Das veredas difíceis que trilhara… Pedia pão e abrigo, Mas falou o devoto em voz segura e clara: — Hoje, espero um amigo, Não posso recolhê-lo , Peça pão ao vizinho E segue o teu caminho…
Aliás, para mim, é simples desmazelo Dos lares sem amor Que deixam a criança, um garoto qualquer, Pedir, pedir, pedir e andar como quiser Para depois fazer-se malfeitor…
6 Mais tarde, ao fim do dia, Um velhinho doente, arrimado a um bordão, Respeitoso, rogava compaixão, Receava dormir exposto à noite fria E sair, ao relento, Aumentando a fadiga e o sofrimento. O devoto, no entanto, informou da janela — Não posso dar-te asilo, Não bata à minha porta e nem te escores nela… Aguardo alguém, contudo, segue em frente, Neste mesmo lugar encontrarás mais gente Que possa agasalhá-lo; Desculpa-me a recusa, É um amigo importante esse alguém de quem falo… Espero que terás leito e pousada Na primeira pensão, à direita da estrada.
7 O dia terminou, e a noite veio escura, O devoto chorou, tomado de amargura, Mas dormiu e sonhou que reencontrava o Cristo; Assombrado, gritou: — Por que, por que Senhor, Não me queres a fé, nem me aceitas o amor? Preparei minha casa com cuidado A fim de demonstrar-te todo o meu carinho, E não quiseste vir ao meu recanto…
8 — Como não? — disse o Mestre em doce explicação. — Hoje, por quatro vezes fui À tua casa, em vão; Por muito que te achasse, eu me via sozinho… Finda uma pausa, o Mestre esclareceu: — Recorda, amigo meu, O mendigo, o rapaz, o menino e o velhinho… Sei que teu coração não percebeu, Mas nos quatro viajores do caminho Estava eu A estender-te clarão renovador E te buscar em meu imenso amor.
9 Nisso, o devoto em pranto Voltou ao corpo e veio a despertar… E relembrando o ensino, trêmulo de espanto, Começou a pensar…
Maria Dolores Essa mensagem foi publicada originalmente em 1988 pela editora GEEM e é a 19ª lição do livro “Assembleia de Luz.”