Palco iluminado · Jair Presente · Chico Xavier

Capítulo 18 de 23

Vitória do amor

1 Era um casal invejável, Antônio e Dona Constança. Os seis anos de casados Não lhes haviam trazido A bênção de uma criança.

2 Declaravam-se cansados De procurar medicina; O bebê não vinha ao berço, Nem menino, nem menina.

3 Certo dia, o esposo Antônio Disse a Constança: “Querida Você se lembra de Mena, A nossa ex-empregada, Há dois anos demitida?”

4 — “Recordo…” — afirmou a esposa, — “Pois note”, tornou Antônio, Falando compadecido: — “Ela deu-me hoje notícias Por telefone, a chorar… Diz ter tido uma criança, Sem casa para morar.

5 Resolveu ser mãe solteira, Reside em cantinho à-toa, Dorme em paupérrima esteira Por bondade da patroa…

6 É pobre moça da roça E disse que, se quisermos, A criança será nossa.”

7 Dona Constança, contente, Coração bondoso e amigo, Gritou, jubilosamente: — “Antônio, a filha de Mena Não sofrerá desabrigo.

8 Vendo você satisfeito, Será nossa!… Não vacilo. Irei à maternidade Buscá-la. Fique tranquilo.”

9 Constança trouxe a menina, No máximo de emoção, Enquanto Mena, a mãezinha, Chorava de gratidão.

10 Tudo mudou no casal, Desde aquele belo dia; O lar brilhava de amor Em luminosa alegria…

11 Tudo paz e segurança!… Mas oito dias depois, Dona Aurora, a mãe de Antônio, Viúva rica e orgulhosa Quis ver a neta adotiva, Que parecia uma rosa.

12 E fez terrível carranca… Irritada, disse à nora: — “Foi um mau passo, Constança!… Não aceito essa menina Partilhando a minha herança.

13 Não concordo com vocês, Nosso sangue ela não traz. Deus permita que ela morra, Que morra e nos deixe em paz.”

14 Desde esse dia, a criança Adoeceu de repente; De corpo todo em feridas, Era um farrapo de gente…

15 O pediatra amparou-a, Fazendo esforço tremendo… Receitava, receitava, E a pequenina morrendo.

16 Falou Constança ao marido: — “Vamos noutra direção. Você já terá ouvido, Em comentários a esmo, Quanto vale, em qualquer vida, A força da vibração.

17 “Para mudar minha sogra, Vou mentir!… Direi que a neta, Enferma e triste, a morrer É sua filha direta…

18 Direi que não será justo Deixá-la assim desprezada, Que é sua filha, às ocultas, Com a nossa ex-empregada…”

19 Antônio aprovou a ideia. Espantada, ouvindo a nora, Depois de grande silêncio, Assim falou Dona Aurora:

20 — “Eu logo vi a trama, Essa empregada pamonha Conquistou meu pobre filho, Rapaz de pouca vergonha…

21 Nós duas vamos agir, Sem afronta ou desacato, A menina tem meu sangue, Precisa de muito trato.

22 É isso, Constança, é a vida Que nós sonhamos no bem, A fazer-se desengano, Ninguém preserva ninguém…

23 Você suporte meu filho Sem qualquer choro ou querela… Minha netinha querida!… Eu cuidarei também dela…”

24 A menina, em poucos dias, De manhã para manhã, Estava agora mais linda, Com faces cor de romã.

25 Após alguma semanas, Achando o momento exato, Antônio disse a Constança: — “Sou a você muito grato, Você não mentiu, querida, Essa criança tão bela É minha filha, de fato…”

26 “Disse Constança, sorrindo, Na maior descontração: — “Antônio, se a menininha É sua filha, no lar, Passo então a declarar Que ela será também minha!…

27 O que houve não me humilha, Digo com justa razão… Sua filha é minha filha, Filha do meu coração!…” Jair Presente