Palco iluminado · Jair Presente · Chico Xavier

Capítulo 11 de 23

Espanto

1 Juca Monteiro, no sítio, Estava octogenário, Sempre alegre e acolhedor, Muito embora solitário.

2 Preso à cadeira de rodas Depois de grave acidente, Não lastimava a velhice Nem se dizia doente.

3 Cedo ficara viúvo E as duas filhas casadas Residiam longe dele, Amigas e dedicadas.

4 Mantinha, porém, consigo Os seus próprios defensores: Quatro cães policiais E um casal de servidores.

5 No dia em que fomos vê-lo Em serviço de assistência Mostrava-se qual criança… Chegara um dos netos dele, O jovem Paulinho França.

6 Monteiro muito contente Conversava em voz segura, Admirava no moço A gentileza e a cultura.

7 Em certo instante, Paulinho Comunicou ao doente Que cedo viajaria, A fim de seguir à frente…

8 E acentuou constrangido: — “Rogo ao senhor me releve Vou ver contas de meu pai, Mas voltarei muito em breve.”

9 O avô disse concordar E explicou que ele sabia Que o genro necessitava De pôr as contas em dia.

10 O neto voltou à carga, Consultando, apreensivo: — “A pedido da mamãe, Preciso eu de levar As fotos do mano Altivo.

11 Rogo ao senhor emprestar-me A chave do quarto dela, É aquele muito abafado Pela falta de janela…”

12 O avô atendeu, de pronto. Retirou a dita chave De um molho com laço forte E disse-lhe: “Achar retratos Com tanta pressa, meu filho, Seria ter muita sorte.

13 Procure entrar no aposento, Entretanto, acenda velas, Pois o quarto é muito escuro… Caminhe lá com cuidado, Aqui, há sempre monturo…”

14 O rapaz, incontinente, Toma a chave e eis que se apruma; Vai ao quarto, a pé ligeiro, Mas sem levar luz alguma.

15 Fechando-se lá por dentro, Tateia caixas em pilha Retira logo a terceira Por saber que ela guardava Os brilhantes da família.

16 Mergulha as mãos entre as pedras, A ambição lhe surge e cresce, Levaria do tesouro Os brilhantes que pudesse…

17 Agitando as pedras todas O moço geme e se estaca, Sem tirar pedra nenhuma, Tocado de dor aguda, Caiu no piso, gritando, Mordido de jararaca. Jair Presente