Parnaso de Além-Túmulo · Autores diversos · Chico Xavier

Capítulo 47 de 58

Marta

(Relação das poesias)

Nunca te isoles Unidade No Templo da Morte Jesus Lembra-te do Céu Ao pé do altar Mãe das mães Este Espírito não pôde ou não quis identificar-se. Aqui o incluímos, porém, de justiça, atenta a magnitude do seu estro. Nunca te isoles

1 Nunca te isoles entre os mananciais da vida; A vida é o eterno bem que nos foi dado, Para que o multiplicássemos indefinidamente… E a alma que se abandona, Ao sofrimento ou ao bem-estar, É um deserto sem oásis, Onde outras almas sentem fome e sede.

2 Multiplicar a vida É amar sem restrições A flor, a ave, os corações, Tudo o que nos rodeia.

Atenuar a dor alheia, Sorrir aos infelizes, Bendizer o caminho que nos leva Da treva para luz; Agradecer a Deus, que é Pai bondoso, O firmamento, o luar, as alvoradas.

3 Ler a sua epopeia feita de astros, Ter a bondade ingênua das crianças, Tecer o fio eterno da esperança Por onde se sobe ao Céu; Dar sorrisos, dar luzes, dar carícias, Dar tudo quanto temos, Tudo isto é amar multiplicando a vida. Que se estende infinita no Infinito.

4 Dar a lição de paciência se sofremos, Dar um pouco de gozo se gozamos. É guardarmos a semente Da Vida Em leivas verdejantes, E a qual há-de nos dar Sombras amigas para descansarmos. Indumentos de flores perfumosas E frutos aos milhares, Para nutrir as nossas alegrias Nos jardins estelares…

Unidade

1 Todos nós somos irmãos, Porque os nossos Espíritos São unos na essência…

2 Todos nós somos fragmentos Da mesma luz gloriosa e eterna Da sabedoria inescrutável Do Criador, Cujas mãos magnânimas e misericordiosas Espalharam com abundância Nas vastidões imensuráveis do éter, Infinitas e esplendorosas,

3 Terras e almas, As quais no divino equilíbrio do Amor Buscam a perfeição indefinida. Todos nós somos irmãos, Porque nutrimos indistintamente A mesma aspiração do Belo e do Perfeito, O mesmo sonho, A mesma dor na luta A prol da redenção.

4 Espiritualmente, Somos filhos de um só Pai.

Somos as frondes que se interpenetram De uma só árvore genealógica, Cuja raiz insondável Está no coração augusto de Deus, O qual, por uma disposição inexplicável, Encerra em si Todos os mundos, Todas as almas, Todos os seres da Criação!

5 Fazei, pois, da Terra O caminho comum da vossa salvação, Porquanto, mais além Das fronteiras planetárias, Vivereis dentro de sagrados coletivismos, Sem egoísmos, Na suprema unidade De aspiração para a felicidade. No Templo da Morte

1 O templo da morte tem portas incontáveis, Como incontáveis são as almas humanas, E infinitos seus estados de consciência.

2 Pela porta escura do remorso, Um dia penetrou os seus umbrais Uma alma que regressava da Terra. Lá dentro, Em nome do Senhor de todos os latifúndios do Universo, Pontificava o Anjo da Justiça.

3 «Anjo Bom! — Disse-lhe a alma súplice, — Eu tenho a minhalma coberta de feridas cancerosas! Cura-me as chagas purulentas do remorso… Tenho os meus olhos vendados E uma treva incomensurável na consciência! Apaga os meus atrozes padeceres!…»

4 «Filha, — respondeu compassivo, — Para sanar tão estranhas feridas, Tão amargos pesares, Só há um recurso:

Volta à Terra!

Lá existe o Regato das Lágrimas,

5 Banha-te nas suas águas cristalinas; Elas serão o teu bálsamo consolador E curarão a tua cegueira…

Estás na escuridão absoluta Pela ausência da luz, do bem na tua alma! Mas o Anjo da Dor irá contigo; Ele há-de te guiar através das sirtes do mar encapelado dos sofrimentos, E te conduzirá ao lugar bendito onde existem as lágrimas salvadoras!…» E a pobre regressou…

Conduzida pela Dor, Banhou-se na água lustral dos tormentos, Submergiu-se no regato encantado, de cuja fonte límpida promana a Salvação.

6 E depois de haver percorrido Tão tortuosos caminhos, Inçados de perigos E de dores amargas, Reconheceu o luminoso Anjo da Dor… E nos seus braços magnânimos e compassivos, Penetrou no templo misterioso da morte Pela porta maravilhosa da Redenção. Jesus

1 Jesus foi na Terra A mais perfeita encarnação do Amor Divino. E ainda hoje, Nos dias amargurados que transcorrem, É para a Humanidade A promessa da Paz, O manto protetor Que abriga os aflitos e os infelizes, O pão que sacia os esfomeados das verdades eternas, A fonte que desaltera todos os sofredores.

2 Apegai-vos a Ele, cheios de confiança!

3 Ele é a misericórdia personificada, O Jardineiro Bendito Que jorra no coração Dos transviados do caminho do Bem, As sementes do arrependimento Que hão-de florir na Regeneração E frutificar na perfeita felicidade espiritual. Ouvi a sua voz No silêncio da consciência que vos fala Do cumprimento austero De todos os deveres cristãos! E um dia Descansareis reunidos, Ligados pelos liames inquebrantáveis Da fraternidade além da morte, À sombra da árvore luminosa Das boas ações que praticastes, Longe das lágrimas Do orbe obscuro, Dos prantos e das provações remissoras!… Lembra-te do Céu

1 És uma estrela caída Sobre os pauis da Terra…

Acima de todas as coisas transitórias, Que se desfazem como as neblinas aos beijos leves do Sol,

2 És alma em ascensão para Deus.

3 A tua inteligência e o teu sentimento São fulcros de luz imperecível, Que constituem os atributos maravilhosos da tua imortalidade. Porque te abates e desanimas sob os aguilhões da carne perecível? Contempla o Alto, Se a fraqueza te envolve em seus tentáculos. E sentirás uma carícia branda, Misteriosa, doce, suave, Que promana Do empíreo constelado Para todas as almas que oram, Que sonham e choram, Buscando Deus, — A bússola das suas mais caras esperanças!

4 Quando sofreres, Busca aspirar esse aroma divino E tua alma sofredora Sentir-se-á envolta na beleza, No eflúvio peregrino Que mana fartamente Dos espaços imensos!…

Na amargura e na dor, Lembra esse dia que te espera Na indefinível primavera Gloriosa de amor.

Ao pé do altar

1 Eu vivia no Claustro, Na sombra silenciosa dos mosteiros.

2 Mas um dia, Quando as penitências mortificavam O meu corpo alquebrado e dolorido E a oração Era o conforto do meu coração, Disse-me alguém:

3 «Minha filha, Juraste fidelidade só a Deus, Mas se entrevês os Céus E as suas maravilhas, Se tens a Fé mais pura, A Esperança mais linda, Não te esqueças que a Caridade, O anjo que nos abre as portas da Ventura, Não permanece No recanto das sombras, do repouso; Se ama a prece e a pureza, Não faz longas e inúteis orações: Ela é a serva de Deus E as suas preces fervorosas São feitas com as suas mãos carinhosas, Que pensam no coração da Humanidade Todas as chagas abertas Pelo egoísmo…

Está sempre em meio às tentações Para vencê-las, Esmagá-las com o Bem, Destruí-las com Amor.

A solidão da cela é um crime; Não te retires, pois, do mundo. Darás a Deus, sem reserva, a tua alma Amando o próximo, Que contigo é seu filho dileto. Será um hino constante subindo aos Céus; Sê a mãe desvelada, A irmã consoladora, A companheira terna De todos aqueles que te rodeiam Na estrada longa dos destinos comuns; Sê a abnegação e a bondade serena, E a tua Fé Será um hino constante subindo aos Céus; A tua esperança em Deus Será dilatada, Para que vislumbres as felicidades celestes Que esperam os justos na Mansão da Alegria…

4 Meu corpo não resistiu Aos cilícios que o martirizavam E minhalma tomada de emoção Abandonou-o, brandamente, Atraída pela Verdade, Desprezando o repouso e a soledade, Sonhando com a luz do trabalho Em outras vidas benfazejas; Porque a verdadeira paz de espírito É conquistada No seio das lutas mais acerbas, Dos mais rudes pesares.

E só a dor que nos crucia Ou a dor que consolamos, — Somente a Dor em sua essência pura Nos desvia da amarga desventura, Purificando os nossos corações Na conquista das altas perfeições. Mãe das mães

1 Maria É a Mãe piedosa De todas as mães resignadas e sofredoras. É a consolação Que se derrama puríssima Sobre os prantos maternos, Vertidos na corola imensa das dores;

2 É o manto resplandecente Que agasalha os corações das mães piedosas, Amarguradas e infelizes, Que orvalham com lágrimas benditas As flores do seu amor desvelado, Espezinhadas pelo sofrimento, Fustigadas pelo furacão da desgraça, atropeladas pelo mal, Perseguidas pelo infortúnio No sombrio orbe das lágrimas e das provações.

3 Todas as preces maternas Ascendem aos Espaços Como um doloroso brado de angústia a Maria; E a rosa sublime de Nazaré Escuta-as piedosamente, Estendendo os seus braços tutelares Às mães carinhosas e desprotegidas; E bastam os eflúvios do seu amor sacrossanto Para que as consolações se derramem Cicatrizando as feridas, Balsamizando os pesares, Lenindo os padeceres Das mães desoladas, que encontram nela O símbolo maravilhoso de todas as virtudes!…

4 Ao seu olhar compassivo, Pulverizam-se os rochedos do mal Do oceano da vida de desterro e de exílio, Para que o Brigue da Esperança, Com as suas velas alvas e pandas, Veleje tranquilamente, Buscando o porto esperado com ânsia, Da salvação das almas que sofreram Nos torvelinhos do mundo, Como náufragos de uma tormenta gigantesca. Que não se perderam no abismo das águas tenebrosas Do mar da iniquidade, Porque se apegaram À âncora da Fé.

5 Maria é o anjo, pois, Que nos ampara e guia em nossa cruz; Levando-nos ao Céu, cheia de piedade e comiseração Pelas nossas fraquezas.

Ela é a personificação do amor divino No vale das sombras e das amarguras, E sendo o arrimo de todas as criaturas. É, sobretudo, A Virgem da Pureza — Mãe das mães.

Marta (?)

[As mensagens: Jesus; Lembra-te do céu; Nunca te isoles e Unidade foram publicadas também em 2010 pela editora VL na 3ª Parte do livro “Chico Xavier: O Primeiro Livro” e encontram-se devidamente relacionadas no Anexo A.]