Parnaso de Além-Túmulo · Autores diversos · Chico Xavier

Capítulo 40 de 58

Júlio Diniz

Poeta português, nascido em 1839 e desencarnado na cidade do Porto, em 1871. Com este pseudônimo, pois que o seu nome é Joaquim Guilherme Gomes Coelho, notabilizou-se mais como romancista, principalmente com As Pupilas do Sr. Reitor. A edição póstuma de Poesias exaltou, di-lo um comentador, as suas qualidades primaciais de prosador, sem embargo de possuírem os seus versos um certo encanto melancólico. O esposo da pobreza

1 Francisco de Assis, um dia, Assim que deixara a orgia No castelo, Entregou-se à Natureza, A uma vida de aspereza Num canto doce e singelo.

2 Abandonara a vaidade, Buscando a paz da humildade, A santa luz da harmonia; E nas horas de repouso, Francisco em estranho gozo A voz de Jesus ouvia:

3 — «Filho meu, faze-te esposo Da pobreza desvalida, Emprega toda a tua vida Na doce faina do bem. Francisco, ouve, ninguém Vai aos Céus sem a bondade, Que é a grande felicidade De todos os corações.

4 Esquece as imperfeições!. Vai, conforta os desgraçados, Sedentos e esfomeados, Flagelados pela dor. Quem alivia e consola, Recebe também a esmola Das luzes do meu amor!»

5 Francisco chorava e ria, E em divinal alegria Via os lírios e os jasmins, Que não fiam, que não tecem, Com roupagens que parecem Vestidos de Serafins; As aves que não trabalham E no entanto se agasalham, Nos celeiros da fartura, Saltando de galho em galho, Buscando a graça do orvalho, Bênção do Céu, doce e pura.

6 Via a terra enverdecida Exaltando a força e a vida, A seiva misteriosa No seio dos vegetais, E a ânsia cariciosa Das almas dos animais.

7 E sobretudo, inda via, A sacrossanta harmonia Do coração sofredor, Que não tendo amor nem luz, Tem tesouros de esplendor No terno amor de Jesus.

8 Francisco de Assis, então, Submerso o coração Em sublimes alegrias, Entregou-se às harmonias Vibrantes da Natureza, Tornou-se o amparo da dor E guiado pelo amor Fez-se o Esposo da Pobreza… Poesia

1 Poesia da Natureza Embalsamada de olores, Ornamentada de flores Que os meus encantos resume; Poema de singeleza Esplendente e delicada, Como raios de alvorada Cheia de luz e perfume!

2 Suavidade e doçura Das rosas, das margaridas, Das lindas sebes floridas Nos dias primaveris: Radiosidade e frescura. Fragrâncias, amenidade, Aromas, alacridade Dos cenários pastoris!

3 As cotovias cantando, As ovelhinhas balindo, As criancinhas sorrindo Na alegria das manhãs; Jovens felizes amando Entre arroubos de ternura, Cariciosa ventura No abril das almas irmãs.

4 Belezas de canto agreste Nas urzes da Terra escura, Tão cheia de desventura; Entretanto, imaginai A Natureza celeste Longe da Terra sombria, Na glória do Eterno Dia Do reino de Nosso Pai.

5 Ó Terra, quanto eu quisera Unir-te toda à poesia, À mesma santa harmonia Que te prende à luz dos Céus, Nessa mesma primavera Dos rutilantes espaços, Em que me sinto nos braços Do amor sagrado de Deus. Aves e anjos

1 Passarinhos… passarinhos… Aconchegados nos ninhos, Lares de amor doce e brando, Pequeninos trovadores Entre as árvores e as flores, Cantando…

Cantando…

2 Crianças, anjos suaves, Mimosas quais bandos de aves Cortando um céu claro e lindo, Açucenas perfumadas, Com as pétalas orvalhadas, Sorrindo…

Sorrindo…

3 Hino terno de esperanças Das aves e das crianças, Vai-se com a luz misturando, Tecendo as horas serenas Das alegrias terrenas, Sorrindo…

Cantando…

Júlio Diniz