Parnaso de Além-Túmulo · Autores diversos · Chico Xavier
Capítulo 20 de 58
Belmiro Braga
Nasceu a 7 de janeiro de 1870, em Juiz de Fora, Minas, e aí desencarnou em 1937. Iniciou-se na vida comercial e foi, depois, notário público. Poeta, comediógrafo e jornalista nato. Popularizou-se, sobretudo, pela singeleza e espontaneidade da sua musa. Era membro de realce da Academia Mineira de Letras, da qual foi um dos fundadores. Chamaram-lhe — “Rouxinol Mineiro”. Rimas de outro mundo I
1 Cheguei feliz ao meu porto, Estou mais moço e mais forte, Encontrei paz e conforto Na vida, depois da morte. Eis as rimas de outro norte, Que escreve o poeta morto. II
2 Com a ignorância proterva, Que a morte é o fim, o homem pensa, Julgando no talo de erva A paisagem linda e imensa. Ah! feliz o que conserva As luzes doces da crença. III
3 Quanta gente corre, corre, Ansiosa atrás do prazer, Sonha e chora, luta e morre Sem jamais o conhecer. Não há ninguém que se forre, Sobre a Terra, ao padecer. IV
4 Fecha a bolsa da ambição, Não corras atrás da sorte, Venera a mão que te exorte Nos dias de provação. Tem coragem, meu irmão, Ninguém se acaba com a morte. V
5 No mundo vale quem tem Um cifrão de prata ou de ouro; Mas, da morte ao sorvedouro, Jamais escapa ninguém! No Céu só vale o tesouro Daquele que fez o bem. VI
6 Que tua alma em preces arda No fogo da devoção. Deus é Pai que nunca tarda No caminho da aflição. Nas mágoas do mundo guarda A fé do teu coração. VII
7 Entre a fé e o fanatismo, Muito espírito se engana: A primeira ampara e irmana, O segundo é o dogmatismo, Goela aberta de um abismo Na estrada da vida humana. VIII
8 A Terra, para quem sente, Inda é torre de Babel, Onde a prática desmente As ilusões do papel: Muita boca sorridente Corações de lodo e fel. IX
9 Suporta a dor que te cobre Na estrada espinhosa e má, Quem é rico, quem é nobre, A essa estrada voltará. É uma ventura ser pobre, Com a bênção que Deus nos dá. X
10 Na vida sempre supus, Sem muita filosofia, Que, em prol do Reino da Luz, Basta, na Terra sombria, Que o homem siga a Jesus, Que a mulher siga a Maria. Bilhetes
1 Se tens o leve agasalho Do santo calor da crença, Exemplifica o trabalho Sem cuidar da recompensa.
2 Não peças aprovação Do mundo pobre e enganado, Recorda que o mundo vão É grande necessitado.
3 Vais procurar a ventura? Toma cuidado: os caminhos São crivados de amargura, Atapetados de espinhos.
4 Acalma-te na aflição, Modera-te na alegria, Não prendas o coração Nos laços da fantasia.
5 No curso de aquisições, Não vivas correndo a esmo; Esquece as inquietações, Toma posse de ti mesmo.
6 Recorda que tua vida É sempre uma grande escola; Muita fronte encanecida É fronte de criançola.
7 Não perguntes ao passado Pela sombra, pela dor, O Caminho é ilimitado, Eterna a fonte do amor.
8 Olha o monte luminoso, Que símbolo sacrossanto!… Quem desce é riso enganoso. Quem sobe é suor e pranto.
9 Não te aflijas. A bonança É flor de sabedoria, Não te esqueças que a esperança É a bênção de cada dia.
10 No impulso que te conduz, Age sempre com bondade, Todo esforço com Jesus É vida na eternidade. Quadras
1 Ai de quem busca o deserto De torturas da descrença: Morrer é sentir de perto A vida profunda e imensa.
2 Depois da miséria humana Sobre a Terra transitória, Lastimo quanto se engana O ouro da falsa glória.
3 Dinheiro do mundo vão, Mentiras da vaidade, Não trazem ao coração A luz da felicidade.
4 Bem pobre é a cabeça tonta Dos perversos e usurários, Que morrem fazendo conta Nas cruzes de seus rosários.
5 É ditosa no caminho, Alegre como ninguém, A mão terna do carinho Que vive espalhando o bem.
6 Angústias, derrotas, danos, Tudo isso tenho visto. Só não vejo desenganos Na estrada de Jesus-Cristo. Belmiro Braga