Chico Xavier: O Primeiro Livro · Autores diversos · Chico Xavier
Capítulo 86 de 100
A um padre/Guerra Junqueiro
(Versos a um agressor do Espiritismo)
1 Ó padre lutador, procurai santamente Apregoar ao mundo herético e descrente Os dogmas ancestrais da vossa velha Igreja!
2 A árvore do progresso, esplêndida, viceja. A Ciência caminha a passos de gigante Para se unir à Fé, operosa e triunfante. É preciso instalar a Inquisição de novo, Contendo a aspiração indômita do povo, De saber a verdade acerca do Destino.
3 Proclamai, proclamai o dogma divino! Fazei bulas, torcei as leis, trazei Loiolas, Ensinai catecismo em todas as escolas; Ponde sobre a esperança o inferno que flameja, Cheio de excomunhões e de mastins da Igreja! Ensinai que Deus é o bramânico sátrapa Que enviou para o mundo os bergantins do papa, Afirmai que um sacrista é um ministro do Eterno. Comei Jesus no pão refogado em falerno; Formai sob a batina as gerações vindoiras, Tomai em vossas mãos das crísticas tesoiras, Cortai a asa de luz de toda liberdade, Afogai na descrença a pobre Humanidade, Multiplicai no mundo as vossas benzeduras, Multiplicai na Igreja os ritos e as tonsuras!
4 Teologicamente, anatematizai Todo aquele que em Deus sentir o amor de um Pai, Ponde em cada recanto um novo Torquemada, E um trapo de batina ao pé de cada estrada; Fazei autos-de-fé, pregai probabilismos Dentro das ilações e dos anacronismos, Endeusai sobre o trono a fortuna dos Cresos, Esquecei sobre a lama os pobres indefesos.
5 Transformai todo templo em balcão de bentinhos, Com representações em todos os caminhos; Interpretai Jesus no prisma do interesse, Traficai com o altar, vendei o ensino e a prece, Anatematizai todas as heresias; Aprovai, aplaudi as grandes simonias, Porque, em verdade, são como crimes sagrados E a estola de um sacrista é isenta de pecados.
6 Incensai Harpagões, absolvei magnatas, Entre encomendações, discursos, sermonatas; Lembrai a Inquisição e a história do papado, Retende na memória os erros do passado.
7 Lede com desassombro o intrépido Barônio, Sem o medo pueril do inferno e do demônio, E vinde proclamar ao mundo fariseu Que somente na Igreja há sendas para o Céu; Só a Igreja possui a santa autoridade, Dentro das presunções da infalibilidade.
8 Sobre o luxo gritai no púlpito florido, Gritai que o mundo está perverso e corrompido. Escrevei com furor contra as guerras tigrinas, A abençoar fuzis, metralhas, carabinas, A discórdia infundi! Nutri regionalismos. Incentivai com ardor os rubros fanatismos.
9 Se puderdes, irmão, armai nova fogueira A quem asseverar que o Papado é uma feira Onde Deus é um cifrão e onde se negocia A bênção de Jesus, e a bênção de Maria; Onde a verdade está sob as cavilações Dos círculos hostis de torpes convenções! Praticai e afirmai ainda mais do que isto. Tendes a autoridade e a mansidão do Cristo…
10 Mas, ouvi minha voz impávida e serena!… Fazendo-vos ouvir, tomando a vossa pena, Jamais vos esqueçais de que a verdade é de ouro. Afastarmo-nos dela é andar no sorvedouro Da calúnia que fere o coração mais rude, Da mentira que, enfim, não alcança a virtude, Que traz, porém, consigo o vírus que envenena!…
11 Quem perpetra a inverdade a si mesmo condena.
12 A luta da verdade, a luta das ideias, É feita nos clarões das grandes epopeias, Abrindo o coração ao nobre sacrifício; Cada gesto leal é sublime interstício Por onde a luz penetra em jorros cristalinos, Clareando o porvir ignoto dos destinos.
13 Criar uma ficção e excomungar de oitiva, É próprio das paixões e próprio da inventiva. Nunca vos entregueis a tanto despautério, Jamais enxovalheis o vosso ministério.
14 Acostumai-vos, pois, ao sol que tudo aclara; Deixai a insensatez dos clérigos, da tiara, Abandonai a treva e vinde para a luz! Aprendei muito mais do exemplo de Jesus.
15 Olvidai convenções, congregações, papado, Que a Verdade jamais se vende no mercado. Guerra Junqueiro Recebida em 16-03-1934.
Essa mensagem foi também publicada pela FEB e é o 5ª poema do 30º capítulo do livro “Parnaso de Além-Túmulo”