Tintino… O espetáculo continua · F. C. Xavier — Francisca Clotilde · Chico Xavier

Capítulo 1 de 1

Tintino… O espetáculo continua

Leitor amigo.

Quando Francisca Clotilde, o educadora, acabou de contar a história de Tintino, num de nossos serões espirituais, o enternecimento nos tomara, de todo. — Escreva, Francisca, escreva algumas notas sobre o nosso herói de vida simples — solicitou uma de nossas companheiras — transmita alguma notícia dele aos nossos irmãos do mundo físico. Esse é um episódio em que se reconhecerá o salário dos Céus aos que distribuem na Terra coragem e esperança, paz e alegria. No dia imediato, estávamos a postos, em companhia do instrutora, junto do médium que nos acolhia. A nobre amiga, depois da nossa prece, passou o escrever, mediunicamente, a história-poema que te colocamos nas mãos, agradecendo a Bondade de Deus. Quando terminou o narrativa, reconstituindo a saga autêntica de um palhaço sensível e afetuoso, a autora mostrava os olhos iluminados de profunda alegria, relembrando a figura de Tintino que os arquivos da memória lhe colocavam à frente do coração. Quanto a nós, acompanhando-lhe as páginas simples e belas, tínhamos a alma dominada, de novo, pela emoção, sem conseguir articular palavra. Meimei Uberaba, 2 de setembro de 1976. TINTINO… O ESPETÁCULO CONTINUA

1 Segue Tintino doente, Segue sempre, rua em rua. Nem ele sabe onde mora, Só sabe que continua…

2 Continua caminhando Com vontade de chegar… Chegar aonde?!… Sozinho, Não tem a porta de um lar…

3 Escora-se unicamente No cajado a que se aferra. Guarda noventa janeiros No corpo inclinado à terra.

4 Todo o rosto encarquilhado Parece em rugas de cera. Fora somente palhaço, Em muitos circos vivera…

5 Nesse dia, estava aflito, Sentia dores sem conta. Tinha mais frio, mais febre, Trazia a cabeça tonta.

6 Ah! se tivesse — anotava Tristemente a refletir Uma esteira e um cobertor Num quarto para dormir!…

7 Lembrava a infância risonha No rancho humilde e bem posto O pai cultivando a roça, A mãe a beijar lhe o rosto!…

8 De manhã, café à mesa, Pão com manteiga em sacola; Depois, as rixas alegres Entre os colegas da escola…

9 Após a morte dos pais, Levados por Deus ao Céu, Fez-se menino de circo, Seguindo de déu em déu.

10 Criou-se nele um palhaço… Brincava de cena em cena. Agora rememorava As piruetas de arena…

11 Deram-lhe um nome: Tintino… Isso talvez porque usasse, Toda vez que se exibia, Diversas tintas na face.

12 Recordava as grandes noites, A música alvoroçada, As palmas, chapéus em flores E os gritos da petizada…

13 Quando mais ampla era a festa, Quanto aplauso, quanta gente!… Depois… Enfermo e cansado, Era Tintino somente.

14 Começara a chuva leve… Sob indomável temor, Decidiu se a procurar Quem lhe desse um cobertor.

15 Vinha a noite… Sob a ponte, Em que, há muito, residia, Enfrentaria, decerto, Geada com ventania.

16 Foi ao próximo armazém, Pediu, recebendo um “não”. E o dono inda acentuou: Saia daqui, beberrão!…

17 — Cachaça? Nunca bebi… Disse o pobre amargamente. Mas o chefe replicou: — Caia fora, siga em frente!…

18 Um homem que observava Acrescentou do balcão: — Este velho é conhecido, Era palhaço e ladrão.

19 Não se ouviu qualquer resposta Do infortunado pedinte… Foi-se Tintino, em silêncio, Bater à casa seguinte.

20 Respeitoso, pôs-se à porta De Dona Estela, a viúva; Pediu, em nome de Deus, Mostrou receio da chuva…

21 Dona Estela resmungou: — Vá-se, patife indecente; Você viveu na folia, Sem folia que se aguente!…

22 O pobre mudou de rumo, Foi ao bar de João da Lua; Mas João disse aos empregados: — Joguem Tintino na rua!…

23 Um moço de corpo enorme, O lutador Marturino, Tomou de grande vassoura E avançou sobre Tintino…

24 Tintino arrastou-se a custo, Pôs-se, ao longe, na calçada; Recebera nas costelas Vigorosa vassourada.

25 Caíra a noite chuvosa, Quantos carros em vai-vem!… Tintino queria amparo, Mas não surgia ninguém.

26 Meia-noite… Trevas densas… Sobre a pedra, fraco e mudo, O pobre não mais se erguera; O vento gelava tudo.

27 Se pudesse, gritaria, Em vão, tentava falar!… Quem lhe traria remédio À dor do peito sem ar?

28 Por fim, dormiu e sonhou Que estava como queria. Renovado e bem disposto Numa noite de alegria.

29 Escutou alguém cantando… Que linda voz!… De quem era? Viu-se em noite enluarada Com cheiro de primavera.

30 A roupa nova, que usava, De tão bela parecia Toda tecida de prata, Mais clara que a luz do dia.

31 Seguia estrada entre flores, Admirado por vê-las… E, andando, achou-se ante um circo Todo enfeitado de estrelas.

32 Pediu entrada e ouviu logo As palmas de muito povo; Crianças vinham em bando Para abraçá-lo de novo.

33 Onde estaria? — indagava — Em que formoso país? E, embora seguindo a esmo, O pobre ria feliz.

34 Ouviu-se música em festa… Quis trabalhar, prazenteiro; Entretanto, a criançada Vibrava no picadeiro.

35 Um moço surgiu à frente E falou, dando-lhe a mão: — Tintino, você chegou À grande libertação.

36 Você construiu no circo, Servindo de bom humor, A senda que o trouxe agora Ao reino de paz e amor.

37 — Que vejo? — gritava ele… E o brando amigo explicava: — São as crianças da Terra A quem você consolava.

38 Mais além, é a multidão, Que trabalhava e sofria, Para a qual você levava O pão de luz da alegria.

39 O Céu vela sobre todos, Não há serviço infecundo; Eu sei que você chorava Embora alegrando o mundo…

40 Há quem reclame dos outros Recreações sem medidas, Sem ver que os outros caminham Por lágrimas escondidas.

41 O circo pagou a graça Que você distribuiu. Mas Deus lhe premia agora As dores que ninguém viu.

42 Tintino em pranto indagou Ao moço vestido em luz: — Diga senhor…. quem me fala?… Ele disse: — Eu sou Jesus!…

43 Tintino abraçou-se a ele E ele abraçou-se a Tintino… No alto fez-se uma estrada Aberta em fulgor divino.

44 Amparado por Jesus, Ia-se o terno palhaço, Crendo fitar nas estrelas Trapézios soltos no espaço…

45 Vozes cantavam, de manso, No caminho em brilho e flor: — Deus engrandeça na vida A fonte eterna do amor!…

46 No outro dia, uma senhora Viu Tintino olhando o alto. Mas verifica: — o mendigo Morrera à beira do asfalto.

47 No rosto imóvel pairava Uma expressão de criança Que tivesse adormecido, Numa festa de esperança. Francisca Clotilde [1] O livro impresso está inteiramente ilustrado com imagens representativas do seu conteúdo.