Os mensageiros · André Luiz · Chico Xavier
Capítulo 38 de 52
No santuário doméstico
1. Terminado o culto familiar, um dos companheiros também rendeu graças. — Esperemos que esses celeiros de sentimentos se multipliquem, — disse Aniceto, sensibilizado. — O mundo pode fabricar novas indústrias, novos arranha-céus, erguer estátuas e cidades, mas, sem a bênção do lar, nunca haverá felicidade verdadeira.
2 — Bem-aventurados os que cultivam a paz doméstica! — Exclamou uma senhora simpática, que estivera presente ao nosso lado, durante a reunião.
3 Dois cooperadores de “Nosso Lar” serviram-nos alimentação leve e simples, que não me cabe especificar aqui, por falta de termos analógicos.
4 — Em oficinas como esta, — explicou o instrutor amigo, — é possível preservar a pureza de nossas substâncias alimentícias. Os elementos mais baixos não encontram, neste santuário, o campo imprescindível à proliferação. Temos bastante luz para neutralizar qualquer manifestação da treva.
5 E, enquanto a família humana de Isidoro fazia frugal refeição de chá com torradas, numa saleta próxima, fazíamos nós ligeiro repasto, entremeado de palestra elevada e proveitosa.
6 O ambiente continuou animado, em teor de franca alegria.
Depois de vinte e três horas, a viúva recolheu-se com os filhos, em modesto aposento.
2. Intraduzível a nossa sensação de paz. Aniceto, Vicente e eu, em companhia doutros amigos, fomos ao pequeno jardinzinho que rodeava a habitação. As flores veludosas recendiam. A claridade espiritual ambiente, como que espancava as sombras da noite.
2 Respirando as brisas cariciosas que sopravam da Guanabara, reparei, pela primeira vez, delicado fenômeno, que não havia observado até então. Uma pequena carinhosa, enquanto a mãezinha palestrava com um amigo, despreocupadamente, colheu um cravo perfumoso, num grito de alegria.
3 Vi a menina talar a flor, retirá-la da haste, ao mesmo tempo que a parte material do cravo emurchecia, quase de súbito. A senhora repreendeu, com calor:
— Que é isso, Regina? Não temos o direito de perturbar a ordem das coisas. Não repitas, minha filha! Desgostaste a mamãe!
3. Aniceto, sorrindo bondoso, explicou discretamente:
— Esta é a nossa Irmã Emília, servidora em “Nosso Lar”, que vem ao encontro do esposo ainda encarnado.
2 — E ele virá até aqui? — Interrogou Vicente, curioso.
— Virá pelas portas do sono físico, — acrescentou nosso orientador, sorridente. — Estas ocorrências, no Círculo da Crosta, dão-se aos milhares, todas as noites.
3 Com a maioria de irmãos encarnados, o sono apenas reflete as perturbações fisiológicas ou sentimentais a que se entregam; entretanto, existe grande número de pessoas que, com mais ou menos precisão, estão aptas a desenvolver este intercâmbio espiritual.
4 Estava surpreendido. Aquele trabalho interessante, a que nos trazia Aniceto, com tão vasto campo de serviços gerais, fazia-me intensamente feliz. Em cada canto pressentia atividades novas.
4. Embora as luzes que nos rodeavam, notei que os céus prometiam aguaceiros próximos. As brisas leves transformavam-se, repentinamente, em ventania forte. Não obstante, as sensações de sossego eram agradabilíssimas.
2 — O vento, na Crosta, é sempre uma bênção celeste, — exclamou Aniceto, sentencioso. — Podemos avaliar-lhe o caráter divino, em virtude da nossa condição atual.
3 A pressão atmosférica sobre os Espíritos encarnados é, aproximadamente, de quinze mil quilos.
— Todavia, é interessante notar, — aduziu Vicente, — que não sentimos tamanho peso sobre os ombros.
4 — É a diferença dos veículos de manifestação, — esclareceu Aniceto, atencioso. — Nossos corpos e os de nossos companheiros encarnados apresentam diversidade essencial.
5 Imaginemos o Círculo da Crosta como um oceano de oxigênio. As criaturas terrestres são elementos pesados que se movimentam no fundo, enquanto nós somos as gotas de óleo, que podem voltar à tona, sem maiores dificuldades, pela qualidade do material de que se constituem.
6 A essa altura do esclarecimento, notei que formas sombrias, algumas monstruosas, se arrastavam na rua, à procura de abrigo conveniente. Reparei, com espanto, que muitas tomavam a nossa direção, para, depois de alguns passos, recuarem amedrontadas. Provocavam assombro. Muitas, pareciam verdadeiros animais perambulando na via pública. Confesso que insopitável receio me invadira o coração.
7 Generoso, como sempre, Aniceto nos tranquilizou:
— Não temam, — disse. Sempre que ameaça tempestade, os seres vagabundos da sombra se movimentam procurando asilo.
8 São os ignorantes que vagueiam nas ruas, escravizados às sensações mais fortes dos sentidos físicos. Encontram-se ainda colados às expressões mais baixas da experiência terrestre e os aguaceiros os incomodam tanto quanto ao homem comum, distante do lar.
9 Buscam, de preferência, as casas de diversão noturna, onde a ociosidade encontra válvula às dissipações. Quando isto não se lhes torna acessível, penetram as residências abertas, considerando que, para eles, a matéria do Plano ainda apresenta a mesma densidade característica.
5. E, demonstrando interesse em valorizar a lição do minuto, acrescentou: — Reparem como se inclinam para cá, fugindo, em seguida, espantados e inquietos.
2 Estamos colhendo mais um ensinamento sobre os efeitos da prece. Nunca poderemos enumerar todos os benefícios da oração.
3 Toda vez que se ora num lar, prepara-se a melhoria do ambiente doméstico. Cada prece do coração constitui emissão eletromagnética de relativo poder.
4 Por isso mesmo, o culto familiar do Evangelho não é tão só um curso de iluminação interior, mas também processo avançado de defesa exterior, pelas claridades espirituais que acende em torno.
5 O homem que ora traz consigo inalienável couraça. O lar que cultiva a prece transforma-se em fortaleza, compreenderam?
6 As entidades da sombra experimentam choques de vulto, em contato com as vibrações luminosas deste santuário doméstico, e é por isso que se mantêm a distância, procurando outros rumos…
6. Daí a momentos, penetrávamos, de novo, no salão abençoado da residência modesta.
Como quem estivesse atravessando um país de surpresas, outro fato me despertava profunda admiração.
2 Isidoro e Isabel vieram a nós, de braços entrelaçados, irradiando ventura. Aquela viúva pobre do bairro humilde vestia-se agora lindamente, não obstante a adorável singeleza de sua presença. Sorria contente, ao lado do esposo, via-nos a todos, cumprimentava-nos generosa.
3 — Meus amigos, — disse ela, serena, — meu marido e eu temos uma excursão instrutiva para esta noite. Deixo-lhes as nossas crianças por algumas horas e, desde já, lhes agradeço o cuidado e o carinho.
4 — Vá, minha filha!
— Respondeu uma senhora idosa, — aproveite o repouso corporal. Deixe os meninos conosco. Vá tranquila!
O casal afastou-se com a expressão dum sublime noivado.
5 Nosso orientador inclinou-se para nós e falou:
— Observam vocês como a felicidade divina se manifesta no sono dos justos? Poucas almas encarnadas conheço com a ventura desta mulher generosa, que tem sabido aprender a ciência do sacrifício individual. André Luiz