Os mensageiros · André Luiz · Chico Xavier
Capítulo 28 de 52
O Caluniador
1. Enquanto o administrador se entregava a conversações educativas com os numerosos subordinados, Aniceto chamou-nos a pequena construção isolada e falou:
— Vejamos outro ensinamento.
2 Avançamos na direção de algumas câmaras separadas.
Nosso instrutor abriu uma porta e vimos um louco, que parecia fundamente irritado. Fixou em nós o olhar inexpressivo e gritou estentoricamente. Aniceto, porém, adiantou-se e cumprimentou-o, atencioso: — Como vai, Paulo?
3 As palavras, ao que senti, emitiram certo fluxo magnético e o enfermo revelou profunda modificação. Aquietou-se de súbito. Sentou-se mais calmo, embora trêmulo e espantadiço. — Tem sentido melhoras, Paulo? — Perguntou nosso orientador, bondosamente, tocando-o no ombro.
4 Ao contato pessoal de Aniceto, o doente mostrou algum raciocínio e respondeu:
— Vou melhorando, graças…
5 À vista da expressão reticenciosa, o instrutor falou em tom firme, como se desejasse auxiliar-lhe a vontade enfraquecida:
— Termine!
O doente fez enorme esforço e concluiu:
— G…r…a…ç…a…s a D…e…u…s.
6 Anotando-lhe o sofrimento e a indecisão, lembrei dos enfermos das Câmaras, aos quais prestava Narcisa ampla colaboração afetuosa. Percebendo-me as íntimas considerações, disse o mentor esclarecido:
7 — Veem a diferença entre os que dormem, os que estão loucos e os que sofrem? Em “Nosso Lar”, não temos dos primeiros, e os que se encontram desequilibrados, nos serviços da Regeneração, sentem, na maioria, angústias cruéis.
8 É necessário reconheçamos que os que gemem e sofrem, em qualquer parte, estão melhorando. Toda lágrima sincera é bendito sintoma de renovação.
9 Os escarnecedores, os ironistas e os perturbados que não registam a dor são mais dignos de piedade, por permanecerem embotados em estranha rigidez de entendimento.
10 E, designando o enfermo sob nossos olhos, afirmou:
— Paulo é um doente a caminho de melhora positiva. Ainda não possui a consciência exata da situação, mas já chora, já padece com as recordações do passado triste.
11 Recebi o esclarecimento com atenção. Lembrei-me que, de fato, os doentes conduzidos pelos Samaritanos a “Nosso Lar”, em serviço diário, eram grandes sofredores. Os que não acusavam padecimentos atrozes, revelavam estranho pavor das sombras. A única entidade que ali observara, com absoluta inconsciência da própria miséria, fora a de pobre vampiro que não encontrara guarida nas Câmaras de Retificação.
2. Nosso instrutor, sem qualquer preocupação de transformar o doente em cobaia, recomendou, afetuoso:
— Concentrem no Paulo a capacidade de visão!
2 Estimulado pela experiência anterior, fixei nele todo o meu potencial de observação. Aos poucos, caracterizou-se a meus olhos a sua tela mental, parecendo formada em compacta sombra noturna. Com surpresa, divisei formas diversas que se movimentavam.
3 Vários vultos de mulher ali surgiam, despertando-me enorme admiração. Entre eles, reparei o de Ismália como que doente, enfraquecida, ansiosa.
4 Alguns homens passavam, igualmente, mostrando desesperação, e notei, nessas imagens, o próprio Alfredo a evidenciar cansaço e extrema velhice prematura.
5 Vozes misteriosas se faziam ouvir. Sobre Paulo choviam maldições e blasfêmias. As mulheres pareciam acusá-lo, clamorosamente; os homens davam ideia de perseguidores ferozes, ocultos no mundo interior daquele enfermo estranho.
6 Observando, porém, que os vultos de Ismália e Alfredo se movimentavam naquele painel escuro, não pude sofrear a curiosidade e interrompi o minucioso exame, voltando a conversar com o nosso orientador, perguntando: — Como explicar o fenômeno? Estou assombrado!
7 Antes, porém, que pudesse expressar maiormente o espanto que me dominara, Aniceto ajuntou: — Já sei. Admira-se da presença de Ismália e do seu marido nas reminiscências do enfermo.
8 E, ante a minha perplexidade, continuou:
— Lembram-se da história de Alfredo? Temos diante de nós o falso amigo que lhe arruinou o lar.
9 Paulo, contudo, não somente cometeu a ingratidão, como envenenou o espírito doutras senhoras, traiu outros amigos e destruiu a alegria e a paz doutros santuários domésticos.
10 Observando Ismália aflita e Alfredo desesperado, nas recordações dele, vemos as imagens criadas pelo caluniador, para seus próprios olhos.
11 Nossos amigos deste Posto evolutiram, transpuseram a fronteira da mágoa, escaparam aos monstros do ódio, vestem-se hoje de luz; no entanto, Paulo os vê como imagina, para escarmento de suas culpas.
12 O criminoso nunca consegue fugir da verdadeira justiça universal, porque carrega o crime cometido, em qualquer parte.
13 Tanto nos Círculos carnais, como aqui, a paisagem real do Espírito é a do campo interior. Viveremos, de fato, com as criações mais íntimas de nossa alma.
14 Reparando-me a dificuldade para compreender de pronto, Aniceto prosseguiu, depois de pequeno intervalo: — Para melhor elucidação, recordemos a crucificação do Mestre Divino.
15 Sabemos que Jesus penetrou na glória sublime logo após a suprema dor do Calvário; entretanto, estamos ainda a vê-Lo frequentemente pendurado na cruz, martirizado pelos nossos erros, flagelado pelos nossos açoites, porque a visão interior a isso nos compele.
16 A condenação do Mestre foi um crime coletivo e esse crime estará conosco até ao dia em que nos vestirmos na divina luz da redenção.
17 O esclarecimento não poderia ser mais lúcido. Sentia-me diante de nobre revelação. — O dever possui as bênçãos da confiança, mas a dívida tem os fantasmas da cobrança, — tornou o generoso mentor, com grave acento.
3. Readquirindo a serenidade, interroguei:
— Mas Paulo veio ter casualmente a este Posto?
— Não, — respondeu Aniceto, atencioso; — foi trazido pelo próprio Alfredo, que se sentiu necessitado de disciplinar o coração.
2 Nosso amigo, que hoje dirige esta casa de amor, desprendeu-se do mundo, sob intensa vibração de ódio e desesperação. Sofreu muitíssimo nos primeiros tempos, embora nunca fosse abandonado pela dedicação da abnegada companheira.
3 Alfredo, todavia, não pôde ver Ismália enquanto não se desvencilhou das baixas manifestações do rancor. Socorrido em “Campo da Paz”, compreendeu as próprias necessidades.
4 Tão logo adquiriu algum mérito, intercedeu pelo amigo infiel, buscou-o em recanto abismal, e tão nobremente se dedicou ao aperfeiçoamento de si mesmo, que conquistou a posição de administrador de um Posto de Socorro.
5 Trouxe o tutelado em sua companhia e trata-o como irmão, atualmente.
6 Não julguem que o marido de Ismália conseguisse essa vitória espiritual tão somente pelo fato de desejá-la. Ele desejou-a, procurou-a, alimentou-a, e, agora, permanece na realização.
7 Há muitos anos conversa com Paulo, diariamente. Nos primeiros tempos, aproximava-se do enfermo, como necessitado de reconciliação; depois, como pessoa caridosa; mais tarde adquiriu entendimento, comparando situações; em seguida, sentiu piedade; logo após, experimentou simpatia e, presentemente, conquistou a verdadeira fraternidade, o amor sublime de irmão pelo ex-inimigo.
8 Fazendo pequena pausa, voltou a dizer, espirituosamente:
— Como veem, o ensinamento de Jesus, quanto ao “batei e abrir-se-vos-á”, é muito extenso.
9 No Plano da carne, insistimos à porta das coisas exteriores, procurando facilidades e vantagens; mas, aqui, temos de bater à porta de nós mesmos, para encontrar a virtude e a verdadeira iluminação.
10 Vicente, que se conservara calado, até então, indagou: — Paulo, todavia, permanecerá aqui, indefinidamente?
11 Nosso instrutor fez um gesto significativo e concluiu:
— Voltará breve à Terra. Ismália tem feito por êle generosas intercessões e não deseja que ele, ao retomar a razão plena, se sinta humilhado, com o benefício das próprias vítimas.
12 Uma das irmãs, por ele caluniadas no mundo, já voltou ao Círculo carnal, e a abnegada esposa de Alfredo pediu-lhe que recebesse Paulo como filho, tão logo seja oportuno.
André Luiz