Os mensageiros · André Luiz · Chico Xavier
Capítulo 22 de 52
Espíritos dementados
1. Inúmeros servidores acompanhavam-nos ao serviço. Movimentavam-se carregadores sem conta.
2 Conduziam grandes botijas d’água, caldeirões de sopa, vasos de substância medicamentosa, em galeotas diversas.
3 Mais alguns passos e notei que centenas de entidades se reuniam em vastos albergues, olhos vagueantes e rostos sombrios, parecendo uma assembleia de loucos em manicômio de amplas proporções.
4 Alfredo aconselhou umas tantas providências de serviço à maioria dos técnicos do sopro curativo, os quais se desviaram de nós, rumo às edificações situadas em zona diferente.
5 Gentilmente explicava-nos que os benfeitores de “Campo da Paz” localizavam, ali, grande número de Espíritos enfermos, mais desequilibrados que propriamente perversos.
6 Os doentes que tínhamos sob os olhos permaneciam em melhores condições. Já se locomoviam e muitos deles já conversavam, embora o desequilíbrio que lhes assinalava as palavras e pensamentos.
2. Esclarecia-nos sobre as múltiplas obrigações do trabalho de rotina, quando algumas entidades nos abordaram, respeitosas:
2 — Senhor Alfredo, — disse um velho de barbas muito alvas, — estou aguardando o resultado da minha petição. Em que ficamos, quanto às minhas terras e os escravos? Paguei bom preço ao Carmo Garcia.
3 Sabe o senhor que venho sendo perseguido durante muitos anos, e não posso perder mais tempo. Quando volto para casa? Creio esteja o senhor ciente da necessidade de eu voltar ao seio dos meus. Esperam-me a mulher e os filhos.
4 Como excelente médico da alma, Alfredo prestou a maior atenção e respondeu, como se estivesse tratando com pessoa de bom senso:
— Sim, Malaquias, você reclama com razão, mas sua saúde não permite o regresso apressado. Você sabe que sua esposa, Dona Sinhá, pediu para que você fosse aqui tratado convenientemente. Creio que ela deve estar muito tranquila a seu respeito.
5 Suas ideias, porém, meu amigo, não estão ainda bem coordenadas. Temos alguma coisa mais a fazer. Porque preocupar-se tanto assim, com as terras e os escravos? Primeiramente a saúde, Malaquias; não esqueça a saúde!
6 O velho sorriu, como o doente apoiado na firmeza e no otimismo do médico.
— Reconheço que as vossas observações são justas, mas meus filhos não se movem sem mim, são preguiçosos e necessitam da minha presença.
7 Mas, doutrinando sutilmente o pobre velhinho, o administrador objetou:
— Entretanto, donde vieram os filhos para os seus braços paternos? Não vieram das mãos de Deus? — Sim, sim… — Afirmava o ancião, trêmulo e satisfeito.
8 — Pois é isso, Malaquias, chegam instantes na vida, em que precisamos devolver a Deus o que a Ele pertence. Além do mais, seus filhos são também responsáveis, e, se forem ociosos, responderão pelos males que criarem em torno de si mesmos. Por agora, é indispensável que você se refaça, aclare as ideias e sossegue o coração.
3. O velho sorriu, confortado, mas, antes que pudesse falar de novo, um cavalheiro, denotando nobre aprumo, adiantou-se, exclamando: — E a solução do meu processo, senhor Alfredo?
2 Sinto-me prejudicado pelos parentes de má fé. Minha parte na herança dos avós é cobiçada pelos primos. Segundo já lhe fiz ver, meu quinhão é superior aos demais.
3 Soube, todavia, que o Visconde de Cairu interpôs toda a sua influência contra mim. Ninguém ignora tratar-se de um grande velhaco. Que não poderá ele fazer com as artimanhas políticas? Está mal informado a meu respeito.
4 O senhor enviou meu pedido ao Imperador?
— Já expedi a mensagem, — esclareceu Alfredo com carinho fraternal, — o Imperador certamente levará em conta a solicitação.
— Entretanto, a demora é muito grande!… — Falou o cavalheiro, impaciente, como se estivesse diante de um subordinado vulgar.
5 — Mas, meu caro Aristarco, — respondeu o administrador, muito calmo, — acredito que você está sendo experimentado para conhecer a grandeza da herança divina. Que valem os patrimônios terrestres, ante os patrimônios imperecíveis?
6 Não pense no que tem perdido; medite nos bens sublimes que poderá alcançar, diante da Vida Eterna. Esqueça os primos ambiciosos e o Visconde que não o compreendeu. Terão eles de deixar quanto possuem, no campo transitório, a fim de prestarem contas à Divindade. Nunca pensou nisto?
7 Aristarco pareceu perder, por momentos, a inquietação, sorriu francamente e respondeu: — É verdade! Os tratantes morrerão…
4. Uma senhora, mostrando-se aflita, pôs-se à nossa frente e interpelou, altiva:
— Senhor Alfredo, peço-lhe não me retenha aqui.
2 Meu marido é nosso próprio adversário. Prometeu perseguir as filhas, tão logo me ausentasse de casa. Aqui permanecendo, estou certa de que ele nos dissipará os bens, desmoralizar-nos-á o nome. Por favor, autorize o meu regresso.
3 O coração me diz que as filhinhas estão desesperadas. Convenço-me, cada vez mais, de que a minha moléstia teve origem neste estado de coisas…
4 — Já sei, minha irmã, — respondeu o nosso amigo com a mesma solicitude; — no entanto, que adiantaria regressar, tão fortemente atormentada? Não será melhor curar-se, tranquilizar o espírito para ajudar as filhinhas com eficiência?
5 — Mas, nem sequer sei onde estou, — reclamou a pobre senhora, torcendo as mãos, — creio me tenham trazido ao fim do mundo, para tratamento de uma simples perda de sentidos!
6 — Todavia, ninguém a maltrata, — disse o interlocutor, bondosamente, — e seu caso não é tão simples como parece. Tenha calma. Os laços consanguíneos são edificantes, mas, acima deles, vibra a família universal.
7 Há criaturas suportando fardos muito mais pesados que o seu. Aprenda, quanto esteja em suas possibilidades, a desfazer-se de aquisições passageiras, para ganhar os eternos bens.
8 A infeliz não sorriu como os outros. Fechando-se em sombria catadura, afastou-se pesadamente, olhos fulgurantes de cólera, como se a mente estivesse cravada muito longe, incapaz de qualquer compreensão.
9 Adiantaram-se outros enfermos, mas o administrador falou em voz alta:
— Não posso atender a todos no momento. Depois de amanhã, serão recebidos para explicações.
5. E, voltando-se para nós, esclareceu a sorrir:
— No Círculo carnal, seriam todos absolutamente normais; no entanto, aqui, são verdadeiros loucos.
2 São desencarnados que por muito tempo se agarraram aos problemas inferiores. Reclamam providências, sem falar no ensejo de iluminação que menosprezaram, acusam os outros, sem relacionarem os próprios erros.
3 Procurei ouvi-los por lhes dar uma ideia do nosso trabalho, no setor dos que se desequilibram mentalmente por excesso de centralização em propósitos inferiores.
4 Não é crime interessar-se alguém pelas atividades rurais, pela recepção de uma herança, pelo bem-estar da família; mas, no fundo, o velhinho que reclama terras e escravos nunca pensou senão em tirania no campo; o cavalheiro, que aguarda a herança, deseja lesar os primos; e a senhora, que se revelou tão interessada pelo ambiente doméstico, desencarnou quando pretendia envenenar o marido, às ocultas.
5 Conheço-lhes os processos, um a um. Acordaram de longo sono, na inconsciência, e julgam-se ainda encarnados, supondo igualmente que podem dissimular as pretensões criminosas.
6 Eu estava assombrado. Expressando minha profunda admiração, perguntei:
— Esses doentes demoram-se aqui? Como alcançaram o Posto?
7 Gentil, como sempre, Alfredo respondeu:
— Foram recolhidos em pior estado. Já estiveram em pesado sono durante muito tempo e vão readquirindo a memória, gradativamente, até que possam ser encaminhados aos Institutos Magnéticos de “Campo da Paz”, a fim de receberem maiores auxílios e necessários esclarecimentos. André Luiz