O Evangelho por Emmanuel · Volume V · Chico Xavier
Capítulo 50 de 100
Prisão e libertação de Paulo e Silas em Filipos
19 Vendo os senhores dela que se acabou a esperança de trabalho deles, tomando a Paulo e a Silas, os arrastaram para a praça, perante as autoridades 20 e, conduzindo-os aos pretores, disseram: estes homens, sendo judeus, perturbam a nossa cidade, 21 anunciando costumes que não nos é lícito receber nem praticar, por sermos romanos.
22 Levantou-se a turba contra eles, e os pretores, rasgando as vestes deles, mandaram açoitá-los com varas.
23 Tendo imposto sobre eles muitos golpes, os lançaram na prisão, ordenando ao carcereiro guardá-los com segurança.
24 Ele, recebendo tal ordem, lançou-os na prisão [mais] interna, e prendeu os pés deles no tronco.
25 Por [volta da] meia-noite, Paulo e Silas estavam orando e entoando [hinos/salmos], e os prisioneiros escutavam a eles.
26 De repente, ocorreu um grande terremoto, a ponto de serem sacudidos os alicerces do cárcere; abriram-se imediatamente todas as portas, e todas as amarras foram soltas.
27 Despertando, e vendo as portas da prisão abertas, o carcereiro, puxando a espada, estava prestes a eliminar a si mesmo, supondo terem fugido os prisioneiros.
28 Paulo, porém, bradou em alta voz, dizendo: não te faças nenhum mal, pois todos estamos aqui.
29 Depois de pedir luzes, correu para dentro; ficando trêmulo, prosternou-se [diante de] Paulo e Silas.
30 E conduzindo-os para fora, disse: senhores, que é necessário fazer para que [eu] seja salvo?
31 Eles disseram: crê no Senhor Jesus e serás salvo, tu e a tua casa.
32 E falaram a palavra do Senhor com todos os que [estavam] na sua casa.
33 Tomando eles consigo, naquela [mesma] hora da noite, lavou-lhes as feridas e, imediatamente, ele foi batizado, [como] também todos os seus.
34 Após conduzi-los para a [própria] casa, preparou a mesa; e exultou-se com toda a sua casa, por terem crido em Deus.
35 Ao amanhecer, os pretores enviaram os lictores, dizendo: Soltai aqueles homens.
36 O carcereiro anunciou a Paulo [essas] palavras: os pretores [nos] enviaram para que sejais soltos. Agora, portanto, saí e ide em paz.
37 Paulo, porém, disse para eles: depois de nos açoitar publicamente, sendo [nós] cidadãos romanos, nos lançaram na prisão, e agora nos expulsam secretamente? Nada disso, que venham eles mesmos e nos conduzam para fora.
38 Relataram essas palavras aos pretores e lictores; ao ouvirem que [eles] eram romanos, ficaram com medo.
39 Vindo [eles], rogaram a eles; e, conduzindo-os para fora, pediram que partissem da cidade.
40 Tendo saído da prisão, dirigiram-se para a [casa] de Lídia; vendo os irmãos, os confortaram, e partiram. — (Atos 16:19-40)
29 O incidente, entretanto, teria mais vastas repercussões, além daquelas que os Apóstolos do Mestre poderiam esperar. A pitonisa não mais recebeu a visita da entidade que distribuía palpites de toda sorte. Em vão, os consulentes viciados lhe bateram à porta. Vendo-se privados da renda fácil, os prejudicados fomentaram largo movimento de revolta contra os missionários. Espalhava-se o boato de que Filipes, em virtude da audácia do pregador revolucionário, fora privada da assistência dos Espíritos de Deus. Os fanáticos exaltaram-se. Daí a três dias, Paulo e Silas foram surpreendidos, em plena praça, com um ataque do povo e foram presos a troncos pesadíssimos e flagelados, sem compaixão. Sob os apupos da massa ignorante, submeteram-se, com humildade, ao suplício.
30 Quando sangravam sob as varas impiedosas, houve a intervenção das autoridades e foram então conduzidos ao cárcere, abatidos e cambaleantes. Dentro da noite escura e dolorosa, incapacitados de dormir, pelas dores crudelíssimas, os discípulos de Jesus vigiaram em preces ungidas de luminoso fervor. Lá fora, rugia a tempestade em trovões terríveis e ventos sibilantes. Filipes inteira parecia abalada em seus alicerces pela tormenta fragorosa. Passava da meia-noite e os dois Apóstolos oravam em voz alta. Os prisioneiros vizinhos, vendo-os em oração, pareciam acompanhá-los, pela expressão do rosto. Paulo contemplou-os, através das grades, e, aproximando-se, a custo, começou a pregar o Reino de Deus.
31 Ao comentar a tempestade imprevista que se abatera sobre o ânimo dos discípulos, enquanto Jesus dormia na barca, um fato maravilhoso feriu os olhos dos encarcerados. As portas pesadas das numerosas celas se abriram sem ruído. Silas ficou lívido. Paulo compreendeu e saiu ao encontro dos companheiros. Continuou pregando as verdades eternas do Senhor, com entonação impressionante; e vendo umas dezenas de homens de peito hirsuto, barbas longas, fisionomias taciturnas, como se estivessem plenamente esquecidos do mundo, o Apóstolo dos gentios falou, com mais entusiasmo, da missão do Cristo e pediu que ninguém tentasse fugir. Os que se reconhecessem culpados agradecessem ao Pai os benefícios da corrigenda; os que se julgassem inocentes dessem expansão ao regozijo, porque só os martírios do justo podiam salvar o mundo. Esses argumentos de Paulo contiveram toda a estranha e reduzida assembleia. Ninguém procurou alcançar a porta de saída, senão que, reunindo-se em torno daquele desconhecido, que tão bem sabia falar aos desgraçados, muitos se ajoelharam em pranto, convertendo-se ao Salvador que ele anunciava com bondade e energia.
32 Ao alvorecer, amainada a tormenta, levanta-se o carcereiro, perturbado pelo vozerio singular. Vendo as portas abertas e temendo a sua responsabilidade, tenta matar-se, instintivamente. Mas Paulo avança e impossibilita-lhe o gesto extremo, explicando-lhe a ocorrência. Todos os encarcerados regressaram humildes ao seu cubículo. Lucano, o carcereiro, converte-se à nova doutrina. Antes que a claridade diurna invadisse a paisagem, ei-lo que traz aos Apóstolos os socorros de emergência, pensando-lhes as feridas, sensibilizado como nunca. Residindo ali mesmo, conduz os discípulos ao interior doméstico, manda servir-lhes alimento e vinho reconfortante. Logo nas primeiras horas, os juízes filipenses são informados dos fatos. Cheios de temor, mandam libertar os pregadores; mas, Paulo, desejando oferecer garantias ao serviço cristão que se iniciava na igreja fundada em casa de Lídia, alega sua condição de cidadão romano, a fim de infundir mais respeito aos magistrados de Filipes pelas ideias do profeta nazareno. Recusa a ordem de soltura para exigir a presença dos juízes, que comparecem receosos. O Apóstolo anuncia-lhes o Reino de Deus e, exibindo seus títulos, obriga-os a escutar suas dissertações relativamente a Jesus. Fê-los sabedores dos trabalhos evangélicos que alvoreciam na cidade, com a cooperação de Lídia e comentou o direito dos cristãos em toda parte. Os magistrados apresentaram-lhe desculpas, garantiram a manutenção da paz para a igreja nascente, e, alegando a extensão de suas responsabilidades perante o povo, rogaram a Paulo e Silas que deixassem a cidade, para evitar novos tumultos.
33 O ex-rabino sentiu-se satisfeito e, voltando a residência da generosa purpureira, em companhia de Silas que lhe reconhecia a fortaleza, sem dissimular o grande espanto, ali demorou alguns dias traçando o programa dos trabalhos da nova sementeira de Jesus. […]
Emmanuel (Paulo e Estêvão, FEB Editora. Segunda parte. Capítulo 6, pp. 365 e 366. Indicadores 29 a 33)