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Capítulo 25 de 46

Homens de ciência e curiosos em grande romaria a Pedro Leopoldo!

PEDRO LEOPOLDO, 22 — (Especial para O GLOBO, por Clementino de Alencar) — Inegavelmente, as sessões espíritas realizadas pelos irmãos Xavier se estão tornando verdadeiros acontecimentos cuja repercussão atrai já até gente do Rio. E, a manter-se na mesma proporção até agora observada, o aumento de assistentes para cada nova reunião, é evidente que, em breve, não poderá mais a casinha da rua Dr. Neiva conter, de forma alguma, a afluência dos que, locais ou vindos de fora, procuram assistir ao sensacional transe semanal do médium de Pedro Leopoldo. Hoje, por exemplo, as anotações que tomamos, antes de se iniciar a sessão, acusam, no que se refere à presença de pessoas vindas do Rio, entre as quais o Sr. Aredio de Souza, conhecido negociante, homem viajado e de cultura geral; vindas de Belo Horizonte, entre várias outras, o Dr. Melo Teixeira, professor de psiquiatria da Faculdade de Medicina da capital mineira; os Srs. Francisco e Carlos Goulart, engenheiros, André Aguiral, procurador de partes; Costa Carvalho Filho, advogado; Raul Henriot e Ovídio Corrêa; e de Pedro Leopoldo, os Srs. Amando Belizário, negociante e proprietário; Henrique Guatimozin, Manoel Melo Viana, escrivão municipal; Srs. Christiano Ottoni, Mauricio Azevedo, Jorge Frederico Laun, Ernesto Carneiro Santiago Júnior, Irineu Araújo, Fausto Joviano, os quatro últimos da Fazenda Experimental do Ministério da Agricultura, além de numerosas outras pessoas. Na sua maioria, não são, os presentes, espíritas declarados; apenas estudiosos ou amigos do médium, ou simples descrentes e curiosos da estirpe de Thomé — o santo. Perguntas…

Já ao cair da noite, sentado na varanda do Hotel Diniz, o repórter medita. E, na expectativa da reunião próxima, daquele novo momento de contato rápido e impressionante com o mistério — vulgaridade para um dia futuro? — ele insiste, presunçoso!, em abstrair de si mesmo, para que, pela viseira de seus olhos, fique apenas a espiar, despersonalizado, o observador frio. Essa mesma presunção, entretanto, trai a pobre argila que palpita sob a rede de nervos estendidos do recinto arcano do Espírito até a porta aberta dos sentidos. E, insidiosamente, vem também postar-se, sob a viseira aberta, a alma curiosa… Sim, dizemos “alma”, porque, francamente, no panorama da nossa vida orgânica, não percebíamos uma só exigência que nos convidasse àquela cisma absorvente, serena e sem o limite de uma referência palpável — como a noite que vinha caindo.

Acaso seriam as preocupações da nossa vida vegetativa que — no esquecimento momentâneo do ambiente onde há um ruído de talheres e um aroma de tangerinas — chamavam assim, à tona dos nossos pensamentos, a dúvida de Hamlet e as inquietações de Manfredo?

A verdade é que o ruído dos talheres não interessa, nem nos seduz o convite daquele aroma de tangerinas doces.

A paisagem se apaga, ao longe, com o fim do crepúsculo. E ao primeiro “passe” da grande feiticeira que já se vai adornando de lâmpadas e estrelas, a cisma cerra sobre nossos olhos as pálpebras inúteis. Mas, My slumbers — if I slumber — are not sleep, But a continuance of enduring thought, Which then I can resist not: in my heart There is a vigil, …

[Meu sono — se eu cochilo — não é sono, Mas uma continuação do pensamento duradouro, Que então eu não posso resistir: em meu coração Há uma vigília,… ]