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Capítulo 3 de 46
O Globo publica hoje uma nova crônica de Humberto de Campos
Um punhado de versos recolhido no arquivo de Chico Xavier — Bilac, Augusto dos Anjos, Cármen Cinira — Uma súplica da cigarra morta — No rumo do impressionante.
PEDRO LEOPOLDO, 23 (Do enviado especial do GLOBO, Clementino de Alencar) — Recolhido ao seu quarto de hotel, logo após ao primeiro encontro com Chico Xavier, na Coletoria, o repórter entrega-se na tranquilidade da tarde à leitura daquele verdadeiro arquivo de mensagens de Além-Túmulo que o médium lhe deixara em mãos. Nossos olhos correm, a um tempo curiosos e ansiosos, sobre aquelas páginas incríveis que o caixeiro bisonho e humilde afirma ter recebido em transe do mundo das sombras invisíveis que ficam para lá dos limites das nossas percepções normais. Prosadores e poetas, com cujo Espírito julgávamos ter perdido definitivamente todo o contato que não fosse o das obras que nos deixaram, ali de novo, e imprevistamente, nos falam numa linguagem que — mesmo sem perder, em muitos, as peculiaridades de estilo inconfundíveis — traz um reflexo de estranhas claridades e um mágico sabor de purificação. São os vates familiares à nossa alma e ao nosso coração que voltam — verdade? ilusão? — ao alcance da nossa sensibilidade para, de novo alvoroçarem, como dantes na fase inesquecida de suas manifestações terrenas o mundo arcano de nossas emoções. Bilac, Emílio, Hermes Fontes, Cruz e Souza, Antônio Nobre, Quental, Carmen Cinira, Augusto dos Anjos e outros, muitos outros, ali novamente cantam e sonham, sofrem e esperam, na expressão daquelas páginas ditas psicografadas depois de sua morte. Devemos crer, nesse parnaso do Além?
Esqueçamos, por ora, as dúvidas. Fique para mais tarde a análise. Agora, deixemos cair, por momentos, sobre essas páginas, o olhar encantado da ilusão.
Jesus ou Barrabás?
Aqui, damos com o nome de Bilac, ao pé de um soneto. O fecho parece-nos um pouco fraco, mas, no conjunto, encontramos ainda o ritmo solene do cantor da “Tarde” - Google Books. “Jesus ou Barrabás?” é o título que encima os versos:
Sobre a fronte da turba há um sussurro abafado.
A multidão inteira, ansiosa, se congrega, Surda à lição do amor, implacável e cega, Para a consumação dos festins do pecado.
— “Crucificai-o!” — exclama… Um lamento lhe chega Da Terra que soluça e do céu desprezado.
— “Jesus ou Barrabás?” — pergunta, inquire o brado Da justiça sem Deus, que trêmula se entrega.
— “Jesus!… Jesus!… Jesus…” — e a resposta perpassa Como um sopro cruel do Aquilão da desgraça, Sem que o Anjo da paz amaldiçoe ou gema…
E debaixo do apodo e ensanguentada a face, Toma da cruz da dor, para que a dor ficasse Como a glória da vida e a vitória suprema.
Olavo Bilac