No mundo de Chico Xavier · Entrevistas. — F. C. Xavier/Elias Barbosa · Chico Xavier

Capítulo 5 de 19

Literatos que voltaram

Informados de que Chico Xavier teve algumas vezes contatos espirituais com literatos que lhe prometeram mensagens para depois da desencarnação, e conhecendo a importância do assunto para os estudiosos do Espiritismo, animamo-nos a endereçar-lhe algumas indagações para documentar as nossas observações nesse sentido. Para isso, enfileiramos algumas perguntas às quais, através da palestra natural, algumas outras apareceram, oportunas e espontâneas. E, dessa forma, surgiu a presente entrevista, de que saltam as informações do médium, com a naturalidade que lhe conhecemos na palavra sincera e que oferecemos aos nossos leitores dentro da fidelidade de que somos capazes, atentos ao nosso interesse comum na pesquisa das realidades que nos aguardam, além da morte.

1 — Chico, recorda-se de escritores e poetas que hajam prometido pessoalmente a você regressarem do Além, a fim de algo escreverem por suas mãos? R — Lembro-me de alguns.

2 — Pode citar alguns prosadores de sua lista?

R — Maria Lacerda de Moura e Romeu do Amaral Camargo, por exemplo.

3 — Será possível a nós outros saber como se deram as promessas de volta e a volta em si mesma?

R — Conheci pessoalmente Dona Maria Lacerda de Moura em 1937. Nesse tempo, ela estudava com imenso interesse os fenômenos mediúnicos, num grupo consagrado a diversos orientadores desencarnados do mundo indiano. As reuniões obedeciam às instruções deles e apresentavam resultados admiráveis do ponto de vista medianímico. Ela convidou-nos, ao Dr. Rômulo Joviano, que era então meu chefe no serviço, e a mim, para assistirmos a algumas reuniões. Com a permissão de Emmanuel, compareci, por algumas vezes, às tarefas do grupo mencionado, e pude ver, através da clarividência, as entidades que operavam, todas elas dignas do maior respeito, pelo sentido altamente religioso que davam às próprias manifestações. Dona Maria Lacerda de Moura, com quem troquei impressões sobre o intercâmbio em andamento, declarou-me estar convencida, quanto à sobrevivência da alma, depois da morte. E, por várias vezes, me disse que se partisse para o Mundo Espiritual, antes de mim, viria, se pudesse, ao meu encontro para escrever o que lhe fosse possível. Desencarnada em 1945, voltou a ver-me em Espírito e grafou, por minhas mãos, a mensagem que consta do livro “Falando à Terra”. n

4 — Teria ela conversado com você, em torno de assuntos que não estejam na mensagem citada?

R — Sim.

5 — Ser-nos-á licito saber de que tratou, se não for indiscrição?

R — Dona Maria que teve uma fase de livros combativos, em sua existência de escritora e mentora da mocidade, me disse que o azedume não constrói e que eu pedisse à Providência Divina para que inteligências desencarnadas com a vocação da censura violenta não viessem escrever por meu intermédio, criando problemas na seara de amor que o Espiritismo Cristão a todos nos oferece. Nesse sentido, falou comigo que eu desse graças a Deus por me achar sob as orientações do Espírito de Emmanuel que se impusera a si próprio rígidas disciplinas, a fim de servir ao Evangelho de Jesus.

6 — Depois disso, ela tornou a falar com você?

R — Muito raramente.

7 — Já que ela se referiu, de maneira assim confortadora, ao Espírito de Emmanuel, estaria, no Além, na condição de colaboradora desse nosso benfeitor espiritual? R — Não. Dona Maria informou-me que prosseguia, no Mundo Espiritual, ao lado de vários amigos indus, estudando mentalismo, com vistas aos planos de trabalho espiritual que formulara para o futuro.

8 — Contou de que modo realizava ela esses estudos?

R — Não me deu detalhes, mas deduzi, pelo que ela me disse, que se trata de tarefas muito importantes sobre renovação espiritual.

9 — E quanto ao nosso caro escritor espírita Romeu do Amaral Camargo? Podemos saber algo?

R — Nosso amigo escrevia-me, às vezes, e numa das cartas últimas que me dirigiu para Pedro Leopoldo, afirmava com bondade e otimismo que, se lhe fosse possível, escreveria, por mim, na hipótese de anteceder-me na desencarnação. Pouco tempo depois de deixar-nos, cumpriu a promessa e deu-nos as páginas que se encontram igualmente no livro “Falando à Terra”, já mencionado. n

10 — Disse ele, algo mais, além da conhecida mensagem?

R — Afirmou-me que prosseguia trabalhando ativamente em organizações espíritas-cristãs do Plano Superior e que, nós, os espíritas, carregamos enormes responsabilidades nos ombros, porque recebemos o conhecimento libertador de que as leis de Deus funcionam na consciência de cada um. Acrescentou que somos tão beneficiados no Plano físico pelos princípios espíritas evangélicos e por isso mesmo tão agraciados pela Misericórdia de Deus que, até à época em que conversara comigo, pela primeira vez, não havia visto, dentre os companheiros já desencarnados com os quais convivia, um só que não se queixasse de condições deficitárias para com a Doutrina Espírita. Tão grandes eram as bênçãos recolhidas, que todos admitiam terem saído da experiência física reconhecendo-se endividados para com o Espiritismo Cristão, pelo qual, segundo a opinião deles mesmos, deviam ter trabalhado mais.

11 — Nosso amigo Romeu do Amaral Camargo ainda vem conversar, em Espírito, com você?

R — Algumas vezes.

12 — Chico, acerca dos poetas amigos que teriam regressado da Vida Espiritual, depois de entendimento com você, lembra-se de alguns? R — De imediato, recordo-me de quatro amigos muito queridos, Honório Armond, Cornélio Pires, Maria Dolores e Jésus Gonçalves.

13 — Você conheceu Honório Armond? Era ele espírita?

R — Ao que sei, não era ele espírita, mas um grande poeta e um grande homem, pela cultura e pela bondade. Encontrei-me com ele, algumas vezes, em grande cidade mineira, para onde me deslocava, a serviço de exposições pecuárias. Fui apresentado a ele pelo Dr. Durval Nascimento, grande professor barbacenense e, logo depois das primeiras palavras, disse-me haver lido o “Parnaso de Além-Túmulo”, comentando com respeito e simpatia os poemas psicografados. Desde então, quando nos víamos declarava-me, mais por bom humor do que por outra cousa, que se desencarnasse antes de mim, voltaria a escrever por meus dedos. E voltou mesmo. Ao lado daquilo que compõe, por nosso intermédio, costuma dizer-me que vem se adaptando à Vida Maior e que não dispõe de palavras para escrever o que sente agora, perante o Universo. Das páginas que Xavier psicografou de Honório Armond, destacamos este soneto que fala significativamente de suas novas inspirações no Plano Espiritual. ALCOÓLATRAS Quadro pungente

1 Alcoólatra vampiro alça a boca debalde, Ébrio desencarnado, a hedionda sede aguça.

Híspidos lábios lambe e escancara a dentuça Tateia o vidro, em vão, do frasco verde e jalde.

2 Rápido, caça alguém no remoto arrabalde.

Alcoólatra encarnado encontra e lhe refuça A goela que se inflama, enrubesce e empapuça, Como a sacar de si mais sede que a rescalde.

3 Agarra-se o vampiro ao bêbado por entre As vértebras do peito e as vísceras do ventre, Toma-lhe o braço e o corpo… Estala a língua bronca!

4 A dupla bebe, bebe… E, às tontas na calçada Cai de borco no chão, estira-se largada, Delira, geme, dorme, espolinha-se e ronca…

Honório Armond Tristeza oculta no peito Tem a mania do cupim Que, quando surge na casa, O telhado está no fim.

Ciúme (Deus me perdoe)

Parece em qualquer feição, Com jararaca enroscada Por dentro do coração.

Orgulho lembra o coqueiro Que mais alto põe o cacho, Um dia, o raio aparece E o coqueiro vem abaixo.

Vaidade recorda a rã Que não vê a própria face, E pensa que o mundo inteiro É a lagoa onde ela nasce.

Mentira é igual ao macaco Que come no pé de amora, Corpo escondido na rama, Deitando a cauda de fora.

Melindre parece a larva Que cresce sem reboliço E acaba matando a rosa, Sem que a rosa dê por isso.

Maledicência relembra Um papagaio invulgar, Que vive tanto mais preso Quanto mais sabe falar.

Apego desenfreado É igual à hera em ação Que, aos poucos, abraça o muro E atira o muro no chão.

Cobiça, se bem comparo, É assim como poço fundo Que cabe, de ponta a ponta, Toda a miséria do mundo.

Maria Dolores Irmãos, cheguei contente ao Novo Dia E ainda em pleno assombro de estrangeiro, Jubiloso, saltei de meu veleiro No porto da Verdade e da Harmonia.

Bendizei, com Jesus, a dor sombria, Na romagem de pranto e cativeiro, Nele achareis o Doce Companheiro Para as rudes tormentas da agonia…

Não desdenheis a chaga que depura, Nossas horas de amarga desventura São dádivas da Lei que nos governa!…

As escuras feridas torturantes São adornos nas vestes deslumbrantes Que envergamos ao sol da Vida Eterna!

II Ave, maravilhosa madrugada Que desdobras a luz no céu aberto Além das trevas, longe do deserto Onde a esperança geme incontentada!

Salve, resplandecente e excelsa estrada Sobre o mundo brumoso, estranho e incerto, Que acolhe, em paz, o espírito liberto Na vastidão da abóbada estrelada!

Oh! meu Jesus, que fiz na noite densa, Por merecer tamanha recompensa Se confundido e fraco me demoro?!

Recebe, ante a visão do Espaço Eleito, A alegria que vasa de meu peito Nas venturosas lágrimas que choro…

Jésus Gonçalves Quando a pequena reunião terminou, a emoção não me permitiu a leitura. Dr. Raul Soares, vivamente sensibilizado, leu os versos e, no dia seguinte, seguiu com o Sr. Paula Cardoso, levando a mensagem para a cidade de Pirapitingui, de onde me escreveu, imediatamente, comunicando que Jésus havia desencarnado, alguns dias antes de nossas preces. Notei que Chico se comovera demasiado ao rememorar a sessão descrita e, como já registrara notas suficientes para refletir nos escritores que haviam regressado da Vida Maior, conforme eles próprios haviam anunciado, encerrei a nossa conversação. Elias Barbosa [2] “Falando à Terra”, edição da FEB.

[3] “Falando à Terra”, 1ª edição, págs. 76-87.

[4] Dentre as páginas de Cornélio Pires, recebidas na noite referida, salientamos as trovas aqui transcritas que o médium conservou em seu arquivo, de vez que as demais mensagens se destinaram a amigos do poeta de Tietê. [5] “Flores de Outono”, edição LAKE 1948, páginas 82 e 83.