Nosso Lar · André Luiz · Chico Xavier
Capítulo 33 de 52
Vampiro
1. Eram vinte e uma horas. Ainda não havíamos descansado, senão em momentos de palestra rápida, necessária à solução de problemas espirituais. Aqui, um doente pedia alívio; ali, outro necessitava passes de reconforto.
2 Quando fomos atender a dois enfermos, no Pavilhão 11, escutei gritaria próxima. Fiz instintivo movimento de aproximação, mas Narcisa deteve-me, atenciosa:
— Não prossiga, — disse, — localizam-se ali os desequilibrados do sexo. O quadro seria extremamente doloroso para seus olhos. Guarde essa emoção para mais tarde.
3 Não insisti. Entretanto, fervilhavam-me no cérebro mil interrogações. Abrira-se um mundo novo à minha pesquisa intelectual. Era indispensável recordar o conselho da progenitora de Lísias, a cada momento, para não me desviar da obrigação justa.
2. Logo após às vinte e uma horas, chegou alguém dos fundos do parque enorme. Era um homenzinho de semblante singular, evidenciando a condição de trabalhador humilde. Narcisa recebeu-o com gentileza, perguntando:
— Que há, Justino? Qual é a sua mensagem?
2 O operário, que integrava o corpo de sentinelas das Câmaras de Retificação, respondeu, aflito:
— Venho participar que uma infeliz mulher está pedindo socorro, no grande portão que dá para os campos de cultura. Creio tenha passado despercebida aos vigilantes das primeiras linhas… — E por que não a atendeu? — Interrogou a enfermeira.
3 O servidor fez um gesto de escrúpulo e explicou:
— Segundo as ordens que nos regem, não pude faze-lo, porque a pobrezinha está rodeada de pontos negros. — Que me diz? — Revidou Narcisa, assustada.
— Sim, senhora.
— Então, o caso é muito grave.
4 Curioso, segui a enfermeira, através do campo enluarado. A distância não era pequena. Lado a lado, via-se o arvoredo tranquilo do parque muito extenso, agitado pelo vento caricioso. Havíamos percorrido mais d’um quilômetro, quando atingimos a grande cancela a que se referira o trabalhador.
5 Deparou-se-nos, então, a miserável figura da mulher que implorava socorro do outro lado. Nada vi, senão o vulto da infeliz, coberta de andrajos, rosto horrendo e pernas em chaga viva; mas Narcisa parecia divisar outros detalhes, imperceptíveis ao meu olhar, dado o assombro que estampou na fisionomia, ordinariamente calma.
6 — Filhos de Deus! — Bradou a mendiga ao avistar-nos, — dai-me abrigo à alma cansada! Onde está o paraíso dos eleitos, para que eu possa fruir a paz desejada.
7 Aquela voz lamuriosa sensibilizava-me o coração. Narcisa, por sua vez, mostrava-se comovida, mas falou em tom confidencial:
— Não está vendo os pontos negros?
— Não! — Respondi.
— Sua visão espiritual ainda não está suficientemente educada.
8 E, depois de ligeira pausa, continuou:
— Se estivesse em minhas mãos, abriria imediatamente a nossa porta; mas, quando se trata de criaturas nestas condições, nada posso resolver por mim mesma. Preciso recorrer ao Vigilante-Chefe, em serviço.
9 Assim dizendo, aproximou-se da infeliz e informou, em tom fraterno:
— Faça o obséquio de esperar alguns minutos.
Voltamos apressadamente ao interior. Pela primeira vez, entrei em contato com o diretor das sentinelas das Câmaras de Retificação. Narcisa apresentou-me e notificou-lhe a ocorrência. Ele esboçou um gesto significativo e ajuntou: — Fez muito bem, comunicando-me o fato. Vamos até lá.
10 Dirigimo-nos os três para o local indicado.
Chegados à cancela, o Irmão Paulo, orientador dos vigilantes, examinou atentamente a recém-chegada do Umbral, e disse: — Esta mulher, por enquanto, não pode receber nosso socorro. Trata-se de um dos mais fortes vampiros que tenho visto até hoje. É preciso entregá-la à própria sorte.
11 Senti-me escandalizado.
Não seria faltar aos deveres cristãos abandonar aquela sofredora ao azar do caminho? Narcisa, que me pareceu compartilhar da mesma impressão, adiantou-se suplicante:
— Mas, Irmão Paulo, não há um meio de acolhermos essa miserável criatura nas Câmaras? — Permitir essa providência, — esclareceu ele, — seria trair minha função de vigilante.
12 E indicando a mendiga que esperava a decisão, a gritar impaciente, exclamou para a enfermeira:
— Já notou, Narcisa, alguma coisa além dos pontos negros?
Agora, era minha instrutora de serviço que respondia negativamente.
— Pois vejo mais, — respondeu o Vigilante-Chefe.
13 Baixando o tom de voz, recomendou:
— Conte as manchas pretas.
Narcisa fixou o olhar na infeliz e respondeu, após alguns instantes:
— Cinquenta e oito.
O Irmão Paulo, com a generosidade dos que sabem esclarecer com amor, explicou:
14 — Esses pontos escuros representam cinquenta e oito crianças assassinadas ao nascerem. Em cada mancha vejo a imagem mental de uma criancinha aniquilada, umas por golpes esmagadores, outras por asfixia.
15 Essa desventurada criatura foi profissional de ginecologia. A pretexto de aliviar consciências alheias, entregava-se a crimes nefandos, explorando a infelicidade de jovens inexperientes. A situação dela é pior que a dos suicidas e homicidas, que, por vezes, apresentam atenuantes de vulto.
16 Recordei, assombrado, os processos da medicina, em que muitas vezes enxergara, de perto, a necessidade da eliminação de nascituros para salvar o organismo materno, nas ocasiões perigosas; mas, lendo-me o pensamento, o Irmão Paulo acrescentou:
17 — Não falo aqui de providências legítimas, que constituem aspectos das provações redentoras, refiro-me ao crime de assassinar os que começam a trajetória na experiência terrestre, com o direito sublime da vida.
3. Demonstrando a sensibilidade das almas nobres, Narcisa rogou:
— Irmão Paulo, também eu já errei muito no passado. Atendamos a esta desventurada. Se me permite, eu lhe dispensarei cuidados especiais.
2 — Reconheço, minha amiga, — respondeu o diretor da vigilância, impressionando pela sinceridade, — que todos somos Espíritos endividados; entretanto, temos a nosso favor o reconhecimento das próprias fraquezas e a boa vontade de resgatar nossos débitos; mas esta criatura, por agora, nada deseja senão perturbar quem trabalha.
3 Os que trazem os sentimentos calejados na hipocrisia emitem forças destrutivas. Para que nos serve aqui um serviço de vigilância?
E, sorrindo expressivamente, exclamou:
— Busquemos a prova.
4 O Vigilante-Chefe aproximou-se, então, da pedinte e perguntou:
— Que deseja a irmã, do nosso concurso fraterno?
— Socorro! Socorro! Socorro!… — Respondeu lacrimosa.
— Mas, minha amiga, — ponderou acertadamente, — é preciso sabermos aceitar o sofrimento retificador. Por que razão tantas vezes cortou a vida a entezinhos frágeis, que iam à luta com a permissão de Deus?
5 Ouvindo-o, inquieta, ela exibiu terrível carantonha de ódio e bradou:
— Quem me atribui essa infâmia? Minha consciência está tranquila, canalha!… Empreguei a existência auxiliando a maternidade na Terra. Fui caridosa e crente, boa e pura…
6 — Não é isso que se observa na fotografia viva dos seus pensamentos e atos. Creio que a irmã ainda não recebeu, nem mesmo o benefício do remorso. Quando abrir sua alma às bênçãos de Deus, reconhecendo as necessidades próprias, então, volte até aqui.
7 Irada, respondeu a interlocutora:
— Demônio! Feiticeiro! Sequaz de Satã!… Não voltarei jamais!… Estou esperando o céu que me prometeram e que espero encontrar.
8 Assumindo atitude ainda mais firme, falou o Vigilante-Chefe com autoridade:
— Faça, então, o favor de retirar-se. Não temos aqui o céu que deseja. Estamos numa casa de trabalho, onde os doentes reconhecem o seu mal é tentam curar-se, junto de servidores de boa vontade.
9 A mendiga objetou atrevidamente:
— Não lhe pedi remédio, nem serviço. Estou procurando o paraíso que fiz por merecer, praticando boas obras. E, endereçando-nos dardejante olhar de extrema cólera, perdeu o aspecto de enferma ambulante, retirando-se a passo firme, como quem permanece absolutamente senhora de si.
10 Acompanhou-a o Irmão Paulo com o olhar, durante longos minutos, e, voltando-se para nós, acrescentou: — Observaram o Vampiro? Exibe a condição de criminosa e declara-se inocente; é profundamente má e afirma-se boa e pura; sofre desesperadamente e alega tranquilidade; criou um inferno para si própria e assevera que está procurando o céu.
11 Ante o silêncio com que lhe ouvíamos a lição, o Vigilante Chefe rematou:
— É imprescindível tomar cuidado com as boas ou más aparências. Naturalmente, a infeliz será atendida alhures pela Bondade Divina, mas, por princípio de caridade legítima, na posição em que me encontro, não lhe poderia abrir nossas portas. André Luiz