Nosso Lar · André Luiz · Chico Xavier
Capítulo 30 de 52
Em serviço
1. Encerrada a prece coletiva, ao crepúsculo, Tobias ligou o receptor, a fim de ouvir os Samaritanos em atividade no Umbral.
2 Justamente curioso, vim a saber que as turmas de operações dessa natureza se comunicavam com as retaguardas de tarefa, em horas convencionais.
3 Sentia-me algo cansado pelos intensos esforços despendidos, mas o coração entoava hinos de alegria interior. Recebera a ventura do trabalho, afinal. E o espírito de serviço fornece tônicos de misterioso vigor.
4 Estabelecido o contato elétrico, o pequenino aparelho, sob meus olhos, começou a transmitir o recado, depois de alguns minutos de espera:
— Samaritanos ao Ministério da Regeneração!… Samaritanos ao Ministério da Regeneração!… Muito trabalho nos abismos da sombra. Foi possível deslocar grande multidão de infelizes, sequestrando às trevas espirituais vinte e nove irmãos. Vinte e dois em desequilíbrio mental e sete em completa inanição psíquica. Nossas turmas estão organizando o transporte… Chegaremos alguns minutos depois da meia-noite… Pedimos providenciar..
5 Notando que Narcisa e Tobias se entreolhavam fundamente admirados, tão logo silenciou a estranha voz, não pude conter a pergunta que me desbordava dos lábios: — Como assim? Por que esse transporte em massa? Não são todos Espíritos?
6 Tobias sorriu e explicou:
— O irmão esquece que não chegou ao Ministério do Auxílio de outro modo. Conheço o episódio de sua vinda. É preciso recordar, sempre, que a natureza não dá saltos e que, na Terra, ou nos Círculos do Umbral, estamos revestidos de fluidos pesadíssimos.
7 São aves e têm asas, tanto o avestruz como a andorinha; entretanto, a primeira apenas subirá às alturas, se transportado, enquanto a segunda corta, célere, as vastas regiões do céu.
8 E deixando perceber que o momento não comportava divagações, dirigiu-se a Narcisa, ponderando: — É muito grande a leva desta noite. Precisamos tomar providências imediatas. — Serão necessários muitos leitos! — Murmurou a serva algo pesarosa. — Não se aflija, — respondeu Tobias resoluto, — alojaremos os perturbados no Pavilhão 7 e os enfraquecidos na Câmara 33.
9 Em seguida, levou a destra à fronte, como a ponderar algo muito sério, e exclamou: — Resolveremos facilmente a questão da hospitalidade; o mesmo, porém, não se dará no concernente à assistência.
10 Nossos auxiliares mais fortes foram requisitados para garantir os serviços da Comunicação nas Esferas da Crosta, em vista das nuvens de treva que ora envolvem o mundo dos encarnados. Precisamos de pessoal de serviço noturno, porquanto os operários em função com os Samaritanos chegarão extremamente fatigados.
11 — Ofereço-me, com prazer, para o que possa aproveitar! — Exclamei espontaneamente. Tobias endereçou-me um olhar de profunda simpatia, mesclada de gratidão, fazendo-me experimentar cariciosa alegria íntima.
12 — Mas está resolvido a permanecer nas Câmaras, durante a noite? — Perguntou, admirado. — Outros não fazem o mesmo? — Indaguei por minha vez, — sinto-me disposto e forte, preciso recuperar o tempo perdido.
13 Abraçou-me o generoso amigo, acrescentando:
— Pois bem, aceito confiante a colaboração. Narcisa e os demais companheiros ficarão também de guarda. Além do mais, mandarei Venâncio e Salústio, dois irmãos de minha confiança.
14 Não posso permanecer aqui, de plantão noturno, em vista de compromissos anteriores; no entanto, caso necessário, você ou algum dos nossos me comunicará qualquer ocorrência de maior gravidade. Traçarei o plano dos trabalhos, facilitando quanto possível a execução.
15 E descortinou-se campo enorme de providências. Enquanto cinco servidores operavam em companhia de Narcisa, preparando roupa adequada e apetrechos de enfermagem, eu e Tobias movíamos pesado material no Pavilhão 7 e na Câmara 33.
16 Não poderia explicar o que se passava comigo. Apesar da fadiga dos braços, experimentava júbilo inexcedível no coração.
Na oficina, onde a maioria procura o trabalho, entendendo-lhe o sublime valor, servir constitui alegria suprema.
17 Não pensava, francamente, na compensação dos bônus-hora, nas recompensas imediatas que me pudessem advir do esforço; contudo, minha satisfação era profunda, reconhecendo que poderia comparecer feliz e honrado, perante minha mãe e os benfeitores que havia encontrado no Ministério do Auxílio.
18 Ao despedir-se, Tobias voltou a abraçar-me e falou:
— Desejo a vocês muita paz de Jesus, boa noite e serviço útil. Amanhã, às oito horas, você poderá descansar. O máximo de trabalho, cada dia, é de doze horas, mas estamos em circunstâncias especiais. Respondi que as determinações me enchiam de sincero contentamento.
2. A sós com o grande número de enfermeiros, passei a me interessar pelos doentes, com mais carinho. Dentre as figuras de auxiliares presentes, impressionou-me a bondade espontânea de Narcisa, que atendia a todos, maternalmente.
2 Atraído pela sua generosidade, busquei aproximar-me com interesse. Não foi difícil alcançar o prazer de sua conversação carinhosa e simples. A velhinha amável semelhava-se a um livro sublime de bondade e sabedoria.
3 — Mas, a irmã aqui trabalha há muito? — Perguntei, a certa altura da palestra amistosa. — Sim, permaneço nas Câmaras de Retificação, em serviço ativo, há seis anos e alguns meses; entretanto, ainda me faltam mais de três anos para realizar meus desejos.
4 Ante a silenciosa indagação do meu olhar, falou Narcisa generosamente:
— Preciso um endosso muito sério.
— Que quer dizer com isso? — Perguntei interessado.
5 — Preciso encontrar alguns Espíritos amados, na Terra, para serviços de elevação em conjunto. Por muito tempo, em razão de meus desvios passados, roguei, em vão, a possibilidade necessária aos meus fins. Vivia perturbada, aflita.
6 Aconselharam-me, porém, recorrer à Ministra Veneranda, e nossa benfeitora da Regeneração prometeu que endossaria meus propósitos no Ministério do Auxílio, mas exigiu dez anos consecutivos de trabalho aqui, para que eu possa corrigir certos desequilíbrios de sentimento.
7 No primeiro instante, quis recusar, considerando demasiada a exigência; depois, reconheci que ela estava com a razão. Afinal, o conselho não visava a interesses dela e sim ao meu próprio benefício. E ganhei muito, aceitando-lhe o parecer. Sinto-me mais equilibrada e mais humana e, creio, viverei com dignidade espiritual minha futura experiência na Terra.
8 Ia manifestar profunda admiração, mas um dos enfermos próximos gritou:
— Narcisa! Narcisa!
Não me cabia reter, por mera curiosidade pessoal, aquela irmã generosa, transformada em mãe espiritual dos sofredores. André Luiz [1] [Vide: Algumas referências ao uso de itens materiais no Mundo Invisível do Plano Espiritual, como edificações providas dos mais diversos objetos, aparelhos, veículos de transporte, etc.]