Mensagens de Inês de Castro · F. C. Xavier / Caio Ramacciotti. / Inês de Castro · Chico Xavier
Capítulo 7 de 41
A Triste Realidade: Caio Ramacciotti
Retornemos aos fatos recentes.
Caçava o príncipe pelas bandas de Penacova, arredores de Coimbra, distante cerca de vinte quilômetros do Paço de Santa Clara. Algo, no entanto, o incomodava interiormente. Na tarde de 7 de janeiro, D. Pedro servia-se da caça com os convidados, quando se ouviu ruidoso tropel.
Um cavaleiro recém-chegado, talvez a pedido de Ana, em desespero, insistiu em falar-lhe, a despeito dos amigos buscarem afastar o exausto desconhecido. Suado, agitado, o homem tanto implorou que o levaram à presença do infante.
— O que quereis? — perguntou Pedro impaciente.
— Senhor, desculpai-me, mas tenho algo muito grave a comunicar-vos.
— Falai, então!
— A Senhora D. Inês foi presa por decisão do rei, arrancada ao leito com muita violência. Parece que querem matá-la…
— Como? O que quereis dizer-me?
O bom homem saíra tão apressado de Coimbra, que possivelmente ainda ignorasse o trágico desfecho.
— Talvez haja tempo de Vossa Alteza salvá-la…
E não conseguiu falar mais nada, pois o príncipe o deixara em direção à montaria, dando ordens desencontradas aos seus imediatos.
Semblante contraído, arremessa-se sobre o cavalo qual bloco de pedra pressionando o lombo do pobre animal. Segura as rédeas com as mãos firmes e cavalga célere rumo de Coimbra. Um turbilhão de lembranças conturba sua mente, e o olhar fixo persegue um ponto ainda distante em que busca alcançar a companheira querida e os filhos. Atormentam-no as recentes preocupações de Inês — às quais não deu crédito — e as sábias admoestações maternas:
— Cuidado, meu filho, as coisas não vão bem, tua companheira corre risco…
— Por que não dei ouvidos às advertências de minha mãe? — verbera, escandindo as palavras, como se desejasse que todo o mundo ouvisse seu arrependimento. Também as ponderações do amigo Álvaro Pereira, na última vez em que se encontraram, insistiam em acompanhá-lo naqueles momentos:
— Pedro, fica atento às decisões que a Corte pode tomar. O rei anda muito preocupado: tuas ligações com Inês o assustam…
Já consumada a decapitação de Inês, eis que vemos Pedro — ainda desconhecendo a extensão do ocorrido — retornar a Coimbra sem os troféus da desafortunada caçada. Envolvido pela avalanche de ideias que não consegue sufocar e extenuado pela longa cavalgada, chega ao palácio real nas primeiras horas da noite.
O desespero incontido o faz gritar por Inês, enquanto percorre as dependências do palácio, caminhando a passos vacilantes.
Ao adentrar na alcova, encontra Ana, a fiel aia de Inês, com os cabelos grisalhos desbaratados e a alma cortada pela dor, e, junto dela, as crianças: Beatriz, a mais nova, no colo, e, agarrados à gentil senhora, João e Dinis — os três muito pequenos ainda para compreenderem o ocorrido. Ana, que tudo fizera para dissuadir Pero Coelho de executar a cruel sentença, quedava-se com os olhos parados a contemplar o futuro rei. Informou-o, sem delongas, em lágrimas, que Inês estava na igreja do convento. Aguarda o infante o corpo já frio de Inês, ataviado pela irmã do Convento de Santa Clara — a mesma religiosa que se tornaria amiga inseparável da jovem nos séculos vindouros. Foi tão comovente o que se passou após Pedro constatar a dimensão da tragédia ocorrida que, a seguir, pela sua aguda sensibilidade, vamos reproduzir, ipsis litteris, o difícil diálogo entre Pedro e Ana, segundo Mário Domingues: — É verdade? — Interrogou ele, num grito de desespero.
Ana limitou-se a confirmar, com um movimento vagaroso e triste da cabeça encanecida. Lançou-se, então, pelos corredores, cujas abóbadas ressoavam em medonhos ecos, a urrar como fera mal ferida: — Vingança!… Vingança!…
E de chofre caiu no lajedo, a contorcer-se horrivelmente, olhos alucinados, mãos crispadas, dentes cerrados e lábios brancos de escuma. A febre apossara-se dele. Durante muitos dias, perdera a noção das coisas deste mundo. Quando despertou, só uma ideia lhe enchia a mente: vingar-se.