Mensagens de Inês de Castro · F. C. Xavier / Caio Ramacciotti. / Inês de Castro · Chico Xavier
Capítulo 16 de 41
O Reinado de D. Pedro: Caio Ramacciotti
O suceder implacável dos fatos históricos volve mais uma etapa, impulsionando o povo português a novas vivências no longo percurso da afirmação de sua nacionalidade, em seu contexto mais amplo, com a sedimentação das conquistas político-administrativas, dos valores culturais e dos costumes. No início de 1357, morre D. Afonso IV aos 66 anos. O velho guerreiro, afeito aos rigores das campanhas, nos últimos meses de sua vida, já mostrava sinais de desalento.
Dividira parte das funções reais com o filho, por meio do acordo definido nas Pazes de Canaveses, entretanto, continuava reinando.
Alquebrado, seus pensamentos se detinham insistentemente no triste 7 de janeiro de 1355, quando determinou a morte de Inês de Castro.
Não pairam dúvidas à nossa visão espírita da existência terrena, interligada intensamente com a vida além da sepultura, que o filho de Isabel de Aragão estava sendo preparado pela mãe para as mudanças interiores que lhe impressionariam os refolhos da alma nos séculos vindouros. Fala-se que chegara a perdoar a Inês, revogando-lhe a sentença de morte, sensibilizado pelos rogos da infeliz mãe, agarrada aos filhinhos, no paroxismo da dor. Os conselheiros o teriam demovido do gesto generoso. Não se sabe…
Seria real a versão ou a imaginação popular acrescentara uma pitada de amor ao coração de D. Afonso, atenuando-lhe no espírito a força das razões de Estado que o levaram ao ato devastador? A dura realidade para D. Afonso é que um hóspede indesejável lhe visitava a alma, espreitando seus pensamentos mais entranhados e turbando suas elucubrações: o remorso.
De fato, por que seria Inês um perigo para o reino, se aceita como futura rainha com o falecimento de D. Constança?
Não o foram sua mãe, Isabel, voltada às conversas com os santos e aos gestos de caridade, socorrendo a população sofrida, nem a esposa, D. Beatriz, de quem temos pouca notícia nos relatos históricos. Inspirada pela Rainha Santa, que, no Plano Espiritual, agia intensamente para a concretização da paz, Beatriz buscou o filho, exortando-o a cessar a brutal revolta contra o pai, conseguindo dele a renúncia aos projetos de ódio. Mais tarde, sim, décadas depois, vamos encontrar em Leonor Teles, como já expus anteriormente, o exemplo de participação da mulher nos escaninhos das decisões políticas.
Urdiu Leonor intensamente com respeito à sucessão do finado rei D. Fernando, denotando simpatia por maior influência do reino de Castela na corte portuguesa.
Inês, mãe extremosa, companheira fiel, estava muito mais próxima do lar e das ideias de amor e caridade da avó de D. Pedro, distante das obscuras confabulações do poder temporal, o que não escapou à percuciência de D. Afonso IV, que levou para o túmulo essas impressões. Antes, já no leito da morte, conhecendo bem o filho, buscou salvar a pele a seus conselheiros, envolvidos na decisão de janeiro de 1355, aconselhando-os a fugir de Portugal, a despeito da proteção que lhes dava o ato jurídico assinado em Canaveses. Pedro assumiu o trono aos 37 anos. Joaquim Ferreira, em sua História de Portugal, observa que:
A experiência da vida e o conhecimento das coisas públicas davam-lhe aptidões particulares para o desempenho do governo.
Os exemplos do pai, somados à longa tradição de sabedoria provinda especialmente de D. Dinis, constituíam uma escola de virtudes cívicas — uma lição eloquentíssima de firmeza na condução do Estado e de lisura nos domínios da justiça. O mais remoto depoimento sobre D. Pedro veio-nos do seu cronista. E quanto nos informa deste reinado esmalta de tons vívidos e severos a índole do rei.
Os súditos choraram-lhe a morte com lágrimas de gratidão. Mereceu bem essa homenagem.
A sua administração foi equilibrada. Valorizou a moeda, multiplicou o bem-estar do povo.