Mensagens de Inês de Castro · F. C. Xavier / Caio Ramacciotti. / Inês de Castro · Chico Xavier

Capítulo 14 de 41

Inês, Constança e Pedro - Inês de Castro

Como o leitor provavelmente já observou, eram comuns, nas famílias reais e entre os nobres, a repetição de nomes e os vínculos de parentesco.

Inês, Constança e Pedro, personagens chave do nosso enredo afetivo, por serem descendentes de D. Fernando III, o Santo, rei de Castela, eram primos.

Inês, pelo seu pai, Pedro Fernandes de Castro; Constança, também pelo pai, João Manoel; e Pedro, pela ascendência da mãe, a rainha D. Beatriz de Portugal, e pelo lado paterno, pois era bisneto de Beatriz de Guillen, mãe de D. Dinis. (Ver árvore genealógica, página 301)

Inês de Castro Nasceu na Galiza, ao norte de Portugal, em Monforte de Lemos, província de Lugo, em 1325.

Inicio as referências a Inês com as palavras inspiradas da escritora espanhola:

Inês nasceu em terras galegas, lá onde a névoa confunde os contornos das coisas, o verde transforma os prados em esmeraldas e o rumor contínuo da chuva converte a inquietude em suave melancolia. Do mar ali próximo aproveitou o azul dos olhos, dos morros arredondados, que rodeavam as suas terras, a harmonia da figura e dos cuidados, que auspiciaram o seu nascimento, um certo magnetismo a que não escapava ninguém que a contemplasse. Criada como foi em Castela, dos trigais dourados recebeu a cor da abundante cabeleira e, da desolação da paisagem, uma certa austeridade de maneiras que a tornavam, se assim se pode dizer, ainda mais sedutora… (Maria Pilar Queralt Del Hierro) O que nela mais fascinava era o esplendor suave e sereno da própria gentileza. A formosura de Inês era uma destas formosuras suaves que involuntariamente inspiram amor.

A gentileza de Inês de Castro era como que o reflexo de sua alma cândida; os seus contemporâneos denominaram-na colo de garça, tão airosas eram as ondulações do seu pescoço gentil, sustentando a formosa cabeça moldurada profusamente de tranças loiras. Mas o que tinha principalmente, o que nela mais cativava, era o indefinível encanto, o feitiço etéreo, como que intangível, que os franceses chamam graça, mais bela ainda que a beleza. Alta, esbelta e ágil de movimentos, Inês possuía um frescor especial que não necessitava de artifícios. Conservava os caracóis dourados de seus tempos de criança e evitava os toucados que os pudessem esconder. Perspicaz, costumava vestir-se de tons de azul, sabendo que essa cor fazia ressaltar as profundidades dos olhos esverdeados.

Pobre criança, que viste, aos sete anos, a tua mãe assassinada no chão, num charco de sangue, a cara decomposta e os olhos brancos (…)

Os filhos de Inês de Castro frequentavam a corte de D. Fernando.

Ao casamento do rei com Leonor seguiu-se a cerimônia do beija-mão da rainha.

O infante D. Dinis, segundo filho de Inês, recusou-se a fazê-lo, dizendo que ela, sim, deveria beijar-lhe a mão. Fernando, puxando da adaga, avançou sobre Dinis, sendo contido a tempo. O infante, ante a nova realidade, radicou-se em Castela.

Sua vida foi muito atribulada: buscou retornar mais tarde a Portugal, não sendo bem recebido pelo então soberano, seu meio-irmão, o Mestre de Avis, que, para afastá-lo da Corte, enviou-o à Inglaterra em missão diplomática. Aí detido, conseguiu a fuga para Castela. Casou-se, como o irmão, com uma filha bastarda de Henrique II, de nome Joana.

1 Amado rei e senhor meu, digne-se Nosso Pai de Infinita Bondade abençoar-vos e engrandecer-vos sempre.

2 Tão grande é a similitude das situações desta vossa servidora, que, um dia, desejastes arrancar ao anonimato e à bastardia, para compartilhar a vossa real presença, entre o passado e o presente, que vos peço perdão se recordo a ocasião em que me destacastes em vosso afeto.

3 Desfrutáveis a liberdade para algo dizer-me de vosso amor, entretanto de que modo conseguiria expressar-vos a imensa ternura que me inspiráveis, em minha condição de fraca mulher chamada a servir em vossa real moradia?

4 Sabeis que caí sob o domínio da febre maligna quando me dissestes, pela primeira vez, que eu estava em vossa alma, que me debati entre a vida e a morte, chamando-vos para junto de mim… de tudo isso sabeis.

5 Protegestes a minha convalescença, restituindo-me a saúde, mas, quando voltastes a me falar de vosso amor, no Paço de Lisboa, porque eu chorasse, incapaz de responder, afirmastes magoado: — Já sei. Amais a outro e não a mim.

— Isto nunca aconteceu, respondi entre lágrimas.

— Então, por que a recusa?

6 Ante a vossa indagação, esclareci que era minha intenção professar na Ordem de Santa Clara, que, decerto, bastarda como eu era, não poderia, de minha parte, fazer a felicidade de ninguém.

7 Fixastes-me com imensa tristeza e acrescentastes:

— Compreendo, Inês… Sei que não me quereis diante da minha dificuldade de expressar-me… Creio que não sei falar quanto vos amo… Em família e na Corte, todos me acreditam calado, impenetrável… Certamente, qual ocorre aos outros, tendes medo de mim…

8 — Quem vos disse tamanha inverdade?

Apenas compreendo a distância que nos separa. Deus sabe quanto vos admiro e respeito…

— Só isso? — Acentuastes em tom amargo.

— Inês, eu sofro muito…

9 Incapaz de sopitar os sentimentos que me turbilhonavam no coração, expliquei francamente:

— Eu vos amo com todas as forças de minh’alma, eu vos amo desvairadamente, senhor! Acaso não vedes que as minhas lágrimas falam mais que as palavras?

10 — Então, salvai-me deste sofrimento — dissestes.

— E quem me salvará, senhor? — Repliquei no pranto convulsivo em que me desfiz totalmente.

11 — Eu vos salvarei — respondestes. — Então, no aposento isolado, me tomastes nos braços fortes, como querendo guardar a minha fragilidade na fortaleza de vosso peito leal e magnânimo e me beijastes tão profundamente e tantas vezes, qual se quisésseis marcar-me com o vosso amor para sempre.

12 Desde esse instante, confirmei a mim mesma que eu nascera propriamente vossa. Para mim não importavam mais o sofrimento ou a morte. Sentia-me vossa, sem condições. Qualquer argumento do mundo contra semelhante verdade teria a força de minúsculo galho de arvoredo que se propusesse a sustar a correnteza de um grande rio.

13 Entreguei-vos, amado soberano, o que eu chamava como sendo minha vida, como já vos pertenciam o meu coração com todos os meus pensamentos.

14 Isso acontecia em mim, não porque fôsseis o príncipe e futuro rei, porque, se estivésseis na estamenha de um carvoeiro, seria vossa propriedade sem qualquer condição.

15 Sabeis que a intriga palaciana, a injúria dos conselheiros, a perseguição das autoridades do reino e as tramas dos áulicos sem piedade conseguiram deslocar-me de vossos braços e me fizeram marchar para o exílio. Sabeis quanto nos doeu a separação.

16 Não era a terra florida e acolhedora do vosso País que eu deixava, com o banimento a que me votaram, mas sim deixava a própria vida em vossas mãos.

17 O que foram aqueles tempos de saudade e de dor que somente as vossas letras amenizavam, sabe-o Deus.

18 A morte da Rainha Dona Constança Manoel, que todos lamentamos de coração, logo após o nascimento de vosso filho, o rei Dom Fernando, induziu-nos a renovar as nossas vivências.

19 As emoções de nossa viagem recente me trouxeram à memória as resoluções que adotastes.

20 Chegastes ao Solar dos Albuquerques, em que meu exílio se fixara, e decidistes trazer-me de qualquer modo.

21 Não havia como alterar-vos as decisões e, embora soubesse, com os parentes e amigos, que a minha volta ao vosso País desafiaria a autoridade de vosso amado pai, o amor foi mais forte que o receio, e acompanhei-vos sem titubear.

22 Instalastes-me em vossa companhia no Paço Real da Serra de El-Rei, nas vizinhanças de Peniche, após laboriosa viagem em que tudo fizestes para me evitar as preocupações.

23 Nesse ninho erguido entre o verde e as flores da região, nasceu-nos o primeiro filho, a quem chamastes Dom Afonso, em 1349, e palavras humanas não descreveriam o júbilo e a esperança de que nos sentíamos tomados, ante aquela vida abençoada que desabrochava das nossas.

24 Dom Afonso, porém, pareceu-nos uma flor por demais sensível ao clima espiritual dos conflitos que se multiplicavam em derredor de nós e voltou para os Céus, deixando-nos imensa dor.

25 Perseguidos de novo por intrigas que vos vinham às mãos de vários pontos, estivesse a Corte em Lisboa ou em Évora, em Santarém ou em Coimbra, a vossa real benemerência conduziu-me em nova viagem, para as cercanias de Bragança, de onde poderíamos, a qualquer momento, retomar o caminho para a Galiza… Nossa felicidade nunca se alterou.

26 Nosso segundo filho, Dom João Álvaro, veio ao mundo enlaçar-nos ainda mais… E depois os outros dois, D. Dinis e D. Beatriz.

27 Perdoai-me se vos falo tanto em saudade, mas crede, amado soberano, que sois, hoje como ontem, agora como sempre, a minha própria vida e a minha luz.

28 Deus vos guarde e abençoe com todos os corações que se fizeram estrelas de nosso amor.

Inês de Castro