Momentos de ouro · Autores diversos · Chico Xavier

Capítulo 18 de 33

O salvador inesperado - Maria Dolores

1 Era uma jovem artista, diferente… Contava apenas quinze primaveras, Mas atraía em muita gente Interesse, atenção, bondade, simpatia. Sabia interpretar mensagens de alegria E enriquecer canções Que o público aplaudia Em palmas e ovações.

2 Mas, em casa, essa jovem Tomava outra figura, Parecia uma fera caprichosa!

Trazia exteriormente a beleza da rosa E por dentro de si todo um arsenal de espinhos.

3 O pai, viúvo e só, notava isso E ao ver a filha única, vaidosa, Ele, humilde operário, agarrado ao serviço, Começou a beber, buscando o esquecimento; Lamentava a viuvez, a dor, o desalento…

4 E, ao estragar-se, um dia, Ouviu a filha, em dura rebeldia, A expulsá-lo do lar:

— Vá-se embora daqui — disse a filha a gritar — O senhor já não manda nesta casa, Um pai bêbado é nódoa para mim; A tolerância sempre chega ao fim… O seu vício me arrasa, Saia, saia daqui, seu lugar é na rua!…

5 O pobre pai mal pôde levantar-se, Mas ergue-se, recua, E vai cambaleando na calçada, Enquanto a filha tranca a porta E vai dormir mal-humorada.

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6 Seis anos transcorreram sobre a cena; A menina fizera-se famosa.

No circo de alto luxo, ela domina… Parecia, em trapézio, uma estrela divina Ou borboleta humana, Bailando soberana.

Era a dona dos prêmios e era vista Por beleza sem par e modelo de artista.

7 Veio uma grande noite. Aplausos. Alegria. A plateia delira. E a multidão das palmas, O número da moça é quase que magia. Há espanto nos olhos, êxtase nas almas… O trapézio voava, ela saltava e ria, De corpo seminu, em leve fantasia.

8 Nisso ocorre o imprevisto. Ante a plateia atenta, Surge um curto-circuito e faísca violenta Ateia fogo em cima e arrasam-se estruturas; A jovem trapezista atrapalha-se e agarra Uma viga de amarra Que fica nas alturas…

Ela, a estrela da equipe, a moça bela e forte, Grita e roga socorro, ao conhecer-se Em presença da morte.

9 O incêndio se desata, o circo se esvazia, A jovem grita, grita e ninguém a escuta; A multidão de longe apenas segue Os detalhes cruéis daquela imensa luta.

10 Mas um velho palhaço, um canastrão de arena, Vara o fogo e se eleva, em corda frágil; Eis que o povo lhe exalta a coragem serena… Certa viga, ao cair, espanca-lhe a cabeça, Ele, porém, não para e, ante a fumaça espessa, Alcança a moça aflita e, tomando-a nos braços, Desce, devagarinho, Procurando caminho, Nos bancos chamejantes, em pedaços…

11 Mas, ao depor no chão a moça linda e salva, Ela sorri feliz…

O povo aplaude, prazenteiro.

Entretanto, Cai exausto o truão do picadeiro, Tomba mostrando a boca, em larga flor de sangue; Era uma chaga só aquele corpo exangue. Arfa-lhe o peito enorme, a morte se aproxima. Alguém chega e o reanima; É um velho amigo que reaparecera E que lhe arranca a máscara de cera… O povo se aglomera… Ante a cera que cai. A moça empalidece, Ajoelha-se e grita, como em prece: — Meu Deus, ele é meu pai!…

12 E ele nela fixando o olhar que se despede e brilha, Num resto de calor e de ternura, Tão-somente murmura:

— Deus te guarde e abençoe Filha do coração, meu amor, minha filha!… Maria Dolores