Maria Dolores · A própria · Chico Xavier
Capítulo 8 de 41
Para melhor servir
1 Diz a lenda que, um dia, Abandonada sob a terra fria, A semente cansada Perguntou ao Senhor:
— “Por que me vejo a sós, morrendo sufocada, Como quem deve estar sob lodo e pancada, Afinal, que fiz eu?!…”
2 Entretanto, o Senhor não respondeu…
3 Mas, depois de algum tempo, Ao solo que se enfresta, Maravilhosamente transformada Em ramo, aroma, flor e fruto, Orgulhou-se de ter Por privilégio e por dever O encargo de ser pão na mesa em festa. E tocada de vida superior, Agradeceu a Deus em preces de louvor.
4 Conta-nos outra lenda Que uma ovelha esquecida em remota fazenda Gritou ao Céu, na hora da tosquia: — “Por que me expõe à ventania, Nesta nudez tamanha?…
Olha a rude tesoura que me apanha… Afinal, que fiz eu?!…”
5 O Céu, no entanto, nada respondeu…
6 Mas, depois de alguns dias, Encontrou a criança Que lhe vestia a lã, sorrindo de esperança, Alegrou-se anotando o seu próprio trabalho, Sustentando o calor e doando agasalho Em auxílio de alguém!…
E agradeceu à vida A elevada missão de que fora incumbida Pela fonte do Bem!…
7 Assim também, alma querida e boa, Quando a dor te transforme o coração em chama De sofrimento a requeimar-te o peito, Não reclames, perdoa, E nem perguntes, ama!…
De todo golpe humildemente aceito Deus fará, nascedouro alto e fecundo De paz, felicidade, ensino e elevação Que se façam degraus de perfeição Pelos quais o Céu desça e felicite o mundo!…
8 Aprendamos a dar o teto, a escola, O prato, a veste e a luz que asserena e consola Onde a penúria geme e onde a sombra se avulta, De vez que só retemos o que damos, Entretanto, jamais nos esqueçamos Daquela caridade doce e oculta, Quanta vez desprezada e incompreendida, Que trabalha e se esquece A fim de sustentar as construções da vida!… Porque somente o amor incontroverso, A sofrer e a calar para melhor servir, É o centro de equilíbrio do Universo, O apoio do presente e a força do porvir. Maria Dolores