Lira imortal · Autores diversos · Chico Xavier

Capítulo 34 de 62

Alma escrava - Augusto dos Anjos

1 “Por que, meu Deus, a carne inda me prende, Por que me arrasto como um triste duende, Em miserabilíssimos despojos?… Era o ser encarnado que falava, Amarguradas queixas da alma escrava, No mais horrendo dos martirológios.

2 “— Como pude descer nos labirintos, Onde os lobos vorazes dos instintos Nos consomem nos dentes de esfaimados, E por que idealizando puros gozos, Busco na carne abismos tenebrosos, Abominando todos os pecados?”

3 “Sou no mundo um fantasma solitário, Só porque, um dia, um espermatozoário Uniu-se, ansioso, ao óvulo fecundo. E emergindo das ânsias e dos partos, Suguei, unindo a boca a uns seios fartos, Substâncias misérrimas do mundo…”

4 “Desde esse dia tormentoso e aflito De intensa dor, envergo o sambenito De matérias iguais aos polipeiros, Entre as disposições hereditárias, Chorando as mesmas dores milenárias Dos que gemeram nestes cativeiros!…”

5 Nada, contudo, lhe respondeu, de perto… A alma, porém, sozinha, no deserto, Viu sobre o mundo um monte de destroços; Sentiu, no Além, a vida verdadeira, Mas contemplando, pela Terra inteira, A carne infame, chocalhando os ossos!… Augusto dos Anjos