Luz acima · Irmão X · Chico Xavier

Capítulo 16 de 51

O candidato apressado

1 Quando Tiago, filho de Zebedeu, seguia o Mestre, a pequena distância, junto às margens do Jordão, eis que se aproxima jovem e piedoso senhor de terras, interessado em aderir ao Reino do Céu.

2 Resoluto, avançou para o apóstolo e indagou:

— Em verdade, o Messias é portador de uma Boa Nova?

3 O seguidor do Nazareno, mostrando imensa alegria no olhar cândido e lúcido, informou, feliz:

— Sim, é o mensageiro da Vida Eterna. Teremos, com Ele, o mundo renovado: nem opressores, nem vítimas e sim irmãos, filhos do mesmo Pai…

4 — A que lema obedece? — Inquiriu o rapaz, dono de extensa propriedade.

— O amor a Deus, acima de tudo, e ao próximo como a nós mesmos — respondeu Tiago, sem titubear.

5 — E a norma de trabalho?

— Bondade para com todos os seres, inclusive os próprios inimigos.

6 — O programa?

— Cooperação com o Pai Supremo, sob todos os aspectos, em favor do mundo regenerado.

7 — O objetivo?

— Felicidade para todas as criaturas.

8 — Que diretrizes estatui para os momentos difíceis?

— Perdão extenso e sincero, esquecimento do mal, auxílio mútuo, fraternidade legítima, oração pelos adversários e perseguidores, serviço desinteressado e ação altruística sem recompensa, com absoluta perseverança no bem, até ao fim da luta.

9 — Espera vencer sem exército e sem armas?

— O Mestre confia no concurso dos homens de boa vontade, na salvação da Terra.

10 — E, mesmo assim, admite a vitória final?

— Sem dúvida. Nossa batalha é a da luz contra a sombra; dispensa a competição sangrenta.

11 — Que pede o condutor do movimento, além das qualidades nobres mais comuns?

— Extrema fidelidade a Deus, num coração valoroso e fraterno, disposto a servir na Terra em nome do Céu.

12 O moço rico exibiu estranho fulgor nos olhos móveis e perguntou, após ligeira pausa:

— Acredita possível meu ingresso no círculo do Profeta?

— Como não? — Exclamou Tiago, doce e ingênuo.

13 E o rapaz passou a monologar, evidenciando sublime idealismo:

— Desde muitos anos, sonho com a renovação. Nossos costumes sofrem decadência. As vozes da Lei parecem mortas nos escritos sagrados. Fenece o povo escolhido, como a erva improdutiva que a Natureza amaldiçoa. O romano orgulhoso domina em toda parte. O mundo é uma fornalha ardente, em que os legionários consomem os escravos.

Enquanto isto, Israel dorme, imprevidente, olvidando a missão que Jeová lhe confiou…

14 Tiago assinalava-lhe os argumentos, deslumbrado.

Nunca vira entusiasmo tão vibrante em homem tão jovem.

— O Messias nazareno, — prosseguiu o rapaz, em tom beatífico, — é o embaixador da verdade. É indispensável segui-lo na santificação. O Templo de Jerusalém é a casa bendita de nossa fé; entretanto, o luxo desbordante do culto externo, regado a sangue de touros e cabritos, obriga-nos a pensar em castigo próximo. Cerremos fileiras com o Restaurador. Nossos antepassados aguardavam-No. Aproximemo-nos dele, a fim de executar-lhe os planos celestiais.

15 Demorando agora o olhar na radiante fisionomia do filho de Zebedeu, acrescentou:

— Não posso viver noutro clima… Procurarei o Messias e trabalharei na edificação da nova Terra!…

16 Desvencilhou-se do cabaz de uvas amadurecidas que sustinha na mão direita e gritou:

— Não perderei mais tempo!…

17 Afastou-se, lépido, sem que o discípulo do Cristo lhe pudesse acompanhar as passadas largas.

Marcos, o evangelista, descreve-nos o episódio, no capítulo dez, encontrando-se a narrativa nos versículos dezessete a vinte e dois.

18 Pôs-se o rapaz a caminho e chegou, correndo, ao lado de Jesus. Arfava, cansado. Pretendia imediata admissão no Reino do Céu e, ajoelhando-se, exclamou para o Cristo: — Bom Mestre, que farei para herdar a Vida Eterna?

O Divino Amigo contemplou-o, sem surpresa, e interrogou:

— Por que me chamas bom? Ninguém é bom, senão um, que é Deus.

19 Diante da insistência do candidato, indagou o Senhor quanto aos propósitos que o moviam, esclarecendo o rapaz que, desde a meninice, guardara os mandamentos da Lei. Jamais adulterara, nunca matara, nunca furtara e honrava pai e mãe em todos os dias da vida.

20 Terminando o ligeiro relatório, o jovem inquiriu, aflito:

— Posso incorporar-me, Senhor, ao Reino de Deus?

22 O Mestre, porém, sorriu, e explicou:

— Uma coisa te falta. Vai, dispõe de tudo o que te prende aos interesses da vida material, dando o que te pertence aos necessitados e aos pobres. Terás, assim, um tesouro no Céu. Feito isto, vem e segue-me.

23 Foi, então, que o admirável idealista exibiu intraduzível mudança. Num momento, esqueceu o domínio romano, a impenitência dos israelitas, o sonho de redenção do Templo, a Boa Nova e o mundo renovado. Extrema palidez cobriu-lhe o rosto, e ele, que chegara correndo, retirou-se, em definitivo, passo a passo, muito triste… Irmão X (Humberto de Campos)