Jardim da infância · João de Deus · Chico Xavier
Capítulo 19 de 26
Simão, o mendigo
1 Doente, pobre, velhinho, O desditoso Simão, Arrimado a seu bordão, Andava devagarinho…
2 Pés e mãos em chaga aberta, Lá ia o velho, coitado! Enfermo, desamparado E humilde na estrada incerta.
3 Cabelo todo branquinho, Rugosa a face morena, O pobre metia pena A vagar pelo caminho…
4 De onde viera? Ora, quem Buscava saber ao certo? Vinha de longe ou de perto? Ninguém sabia, ninguém.
5 Só lhe sabiam do nome, E que, em miséria, sem nada, Ele esmolava na estrada, A fim de matar a fome.
6 Estendendo seu chapéu, Pedia, cheio de dor: — Uma esmola, meu senhor, Por amor ao Pai do Céu!…
7 Mas, oh! Deus, que desalento Neste mundo de aflição! Ninguém ouvia Simão Nas horas do sofrimento.
8 — Passai de largo! é leproso!… Diziam homens cruéis — — Oh! não vos aproximeis Deste ancião perigoso!…
9 — Ah! que graça! Põe-te à brisa! — Exclamava outro passante — Nada de esmola ao tratante, Que este velho não precisa!…
10 O mendigo, nos seus ais, Dizia: — Viva a saúde! Trabalhei enquanto pude, Agora, não posso mais…
11 Toda a gente lhe fugia, Ninguém lhe dava uma sopa, Nem um trapinho de roupa Para a noite da agonia.
12 Muito tempo era passado, E o desditoso velhinho Sentia-se mais sozinho, Mais doente, mais cansado…
13 Chegou, enfim, um momento Em que o velho sofredor Caiu de frio e de dor Na estrada do sofrimento.
14 Caiu e sonhou, contente, Embora a sede e o cansaço, Que Jesus vinha do Espaço Dizendo-lhe, docemente:
15 “— Escuta, meu bom Simão, Não temas, querido amigo! Sê forte! Eu estou contigo. Chegaste à ressurreição.
16 “Não chores. Estou aqui!… Terminou tua aflição, Estás em meu coração! Pensavas que te esqueci?
17 “Enquanto o mundo enganado Atormentava-te ao peso De zombaria e desprezo, Eu sempre estive ao teu lado.
18 “Teus prantos e tuas dores São, hoje, a luz que te veste No campo do amor celeste, Repleto de eternas flores.”
19 E Jesus, em voz mais terna, Concluía: — “Vem, Simão, À doce consolação Do mundo de luz eterna!…”
20 E Simão, chorando e rindo, A seguir, ditoso, o Mestre, Esqueceu a dor terrestre, No céu venturoso e lindo.
21 O caminho era de estrelas De tão sublime matiz Que o pobre ria, feliz, Sem saber como entendê-las.
22 No outro dia, ao reconforto Do sol de coroa erguida, Acharam Simão sem vida… O mendigo estava morto. João de Deus Essa é a 44ª lição do livro “Antologia Mediúnica do Natal”, editado pela FEB em 1966.