Ideias e ilustrações · Autores diversos · Chico Xavier

Capítulo 12 de 41

DA GENTILEZA: O poder da gentileza/Neio Lúcio - Trovas: Casimiro Cunha/Marcelo Gama - Excerto: André Luiz

Da gentileza O poder da gentileza

1 Eminente professor pobre, interessado em fundar uma escola num bairro singelo, onde centenas de crianças desamparadas cresciam sem o benefício das letras, foi recebido pelo prefeito da cidade que lhe disse imperativamente, depois de ouvir-lhe o plano: — A lei e a bondade nem sempre podem estar juntas. Organize uma casa e autorizaremos a providência.

2 — Mas, doutor, não dispomos de recursos… — Considerou o benfeitor dos meninos desprotegidos. — Que fazer?

— De qualquer modo, cabe-nos amparar os pequenos analfabetos.

3 O prefeito reparou-lhe demoradamente a figura humilde, fez um riso escarninho e acrescentou: — O senhor não pode intervir na administração.

4 O professor, muito triste, retirou-se e passou a tarde e a noite daquele sábado, pensando, pensando… Domingo, muito cedo, saiu a passear, sob as grandes árvores, na direção de antigo mercado. Ia comentando, na oração silenciosa: — Meu Deus, como agir? Não receberemos um pouso para as criancinhas, Senhor?

5 Absorvido na meditação, atingiu o mercado e entrou.

O movimento era enorme.

Muitas compras. Muita gente.

6 Certa senhora, de apresentação distinta, aproximou-se dele e tomando-o por servidor vulgar, de mãos desocupadas e cabeça vazia, exclamou: — Meu velho, venha cá.

O professor acompanhou-a, sem vacilar.

7 À frente dum saco enorme, em que se amontoavam mais de trinta quilos de verdura, a matrona recomendou: — Traga-me esta encomenda.

Colocou ele o fardo às costas e seguiu-a.

8 Caminharam seguramente uns quinhentos metros e penetraram elegante vivenda, onde a senhora voltou a solicitar: — Tenho visitas hoje. Poderá ajudar-me no serviço geral?

— Perfeitamente, — respondeu o interpelado, — dê suas ordens.

Ela indicou pequeno pátio e determinou-lhe a preparação de meio metro de lenha para o fogão.

9 Empunhando o machado, o educador, com esforço, rachou algumas toras. Findo o serviço, foi chamado para retificar a chaminé. Consertou-a com sacrifício da própria roupa. Sujo de pó escuro, da cabeça aos pés, recebeu ordem de buscar um peru assado, a distância de dois quilômetros. Pôs-se a caminho, trazendo o grande prato em pouco tempo. Logo após, atirou-se à limpeza de extenso recinto em que se efetuaria lauto almoço.

10 Nas primeiras horas da tarde, sete pessoas davam entrada no fidalgo domicílio. Entre elas, relacionava-se o prefeito que anotou a presença do visitante da véspera, apresentado ao seu gabinete por autoridade respeitável. Reservadamente, indagou da irmã, que era a dona da casa, quanto ao novo conhecimento, conversando ambos em surdina.

11 Ao fim do dia, a matrona distinta e autoritária, com visível desapontamento, veio ao servo improvisado e pediu o preço dos trabalhos. — Não pense nisto, — respondeu com sinceridade, — tive muito prazer em ser-lhe útil.

12 No dia imediato, contudo, a dama da véspera procurou-o, na casa modesta em que se hospedava e, depois de rogar-lhe desculpas, anunciou-lhe a concessão de amplo edifício, destinado à escola que pretendia estabelecer. As crianças usariam o patrimônio à vontade e o prefeito autorizaria a providência com satisfação.

13 Deixando transparecer nos olhos úmidos a alegria e o reconhecimento que lhe reinavam nalma, o professor agradeceu e beijou-lhe as mãos, respeitoso. A bondade dele vencera os impedimentos legais.

14 O exemplo é mais vigoroso que a argumentação.

15 A gentileza está revestida, em toda parte, de glorioso poder.

Neio Lúcio * Se pretendes o caminho Da vida que aperfeiçoa, Trabalha, incessantemente, Aprende, serve e perdoa.

Casimiro Cunha * A vida se classifica Por esta base singela:

Quanto mais útil, mais rica, Quanto mais simples, mais bela.

Marcelo Gama * Sua generosidade chamará a bondade alheia em seu socorro.

André Luiz [1] Esta mensagem foi publicada originalmente em 1948 pela FEB e é a 15ª lição do livro “Alvorada cristã.”