Excursão de paz · Autores diversos · Chico Xavier
Capítulo 15 de 21
Cantoria da Morte - Leandro Gomes de Barros
1 Hoje, preciso enfrentar Problema de grande porte, Há quem me peça este assunto Supondo que eu seja forte, Mas não há quem forte seja, Ante a presença da morte.
2 Não é a morte a megera Dos quadros de antigamente, Uma forma de esqueleto Com foice mirando a gente, A morte em cada pessoa Mostra face diferente.
3 Conheço um homem que, um dia, Foi procurado por ela, Parecia uma enfermeira Que lhe escorava a espinhela; Trazia sono… e o coitado Caiu logo na esparrela.
4 Quando ele quis acordar Do sono que ela trazia, Os pés estavam parados, Na geada que sentia, Quis falar, porém, a boca Estava selada e fria.
5 Enxergava o próprio corpo Que ele mesmo havia usado, Tão quieto que parecia Um velho tronco espinhado, No entanto, não descobria Nenhuma bruxa de lado.
6 Imaginando que a morte Ali pousasse escondida, Ele gritou: “Dona Morte, Não entro nesta partida, Tenho muito que fazer, Não posso perder a vida.
7 “Tenho muitos compromissos, Deveres para tratar, Pedidos de clientela, Obrigações em meu lar, Quero o meu corpo, de novo, Para a vida regular.”
8 A bruxa estava invisível, Nem de leve apareceu, Mas uma voz esquisita Logo, logo, respondeu: “Não me peças o impossível, Que teu corpo já morreu.”
9 O homem apavorado Replicou, na mesma hora: “Eu quero o meu corpo vivo, Não sei andar de demora, Suplico na confiança Em Deus e Nossa Senhora.”
10 Mas a voz falou mais firme: “Largaste o corpo no mundo, Quando a vida se transfere, A mudança é num segundo, A tua prece de agora Parece um cheque sem fundo.
11 “Nada tens a reclamar, O teu pedido não vinga, Viveste como quiseste Catando caso e mandinga, Mesa farta e rede fofa, Fandango e trago de pinga.
12 “Nasceste de boa gente, Mas não vês o tempo gasto, Em que mais te parecias A touro novo no pasto, Se vias qualquer morena, Seguias cheirando o rasto.
13 “Algum bem trazes contigo, Isso, porém, é. dever, Mas quantas horas perdidas Que não podes devolver!… Cala-te e pensa na conta Do que deixaste a fazer…”
14 “Qual será o meu lugar?” Indagou o pobre amigo. A voz pronta esclareceu: “Deus não aprova castigo; Estarás no purgatório Que já carregas contigo.
15 “Muito serviço te espera Para a conquista da paz. Trabalha, não te lastimes, O tempo não volta atrás. Céu, inferno e purgatório Cada um tem os que faz.”
16 Ele, aí, falou à voz: “Serás a morte na essência?” Ela, porém, respondeu Com firmeza e paciência: “A morte é caso passado… Sou a tua consciência.”
17 De repente, despertando, Vi que tudo em mim tremeu, Larguei, correndo, assustado O corpo que fora meu… Então, descobri que o homem Não era outro… Era eu. Leandro Gomes de Barros