E a vida continua… · André Luiz · Chico Xavier
Capítulo 13 de 28
Julgamento e amor
1. Transcorridas algumas semanas, Ernesto e Evelina achavam-se menos bisonhos no ambiente.
2 Conquanto as afeições que prosseguiam entesourando, sentiam-se cada vez mais vinculados um ao outro.
3 Sensivelmente melhorados, demoravam-se ainda no hospital, mas domiciliados em pavilhões de convalescentes, cada qual no departamento próprio, de vez que as referidas construções abrigavam homens e mulheres, em vasta agremiação de lares-apartamentos para uso individual.
4 Desfrutavam a devida permissão para se movimentarem na cidade, como quisessem, apenas com a observação de que somente lhes seria lícito visitar os arredores, onde se acomodavam milhares de Espíritos infelizes, com assistência adequada.
5 Efetivamente os dois começavam a experimentar necessidade de serviço disciplinado e regular, mas, se pediam trabalho ou qualquer atividade no antigo lar terrestre que ainda não haviam logrado rever, as respostas da autoridade competente eram ainda invariáveis. Que aguardassem mais tempo, que seria justo atender à imprescindível preparação.
6 A vista disso, frequentavam bibliotecas, jardins, instituições e entretenimentos diversos, figurando-se-lhes a vida, ali, uma fase longa de repouso mental em tranquila colônia de férias.
7 Chegara, porém, o dia em que Evelina realizaria um dos seus maiores anelos naquele ninho de bênçãos. Fantini prometera conduzi-la, com o preciso consentimento dos benfeitores, a um templo religioso para assistirem ao oficio da noite que se constituiria de uma pregação sob o título “Julgamento e Amor”, previamente anunciada.
8 Ambos ardiam em curiosidade, porquanto ansiavam conhecer de perto como se processavam as criações religiosas, naquele mundo para eles extremamente belo e novo.
9 À noitinha, puseram-se em marcha.
A senhora Serpa recordava em caminho as visitas de outro tempo ao santuário de sua fé e albergava no coração as mais doces reminiscências…
10 Sensibilizada, monologava intimamente: “Como perdera o convívio dos entes mais caros e porque se apoiava, ali, no braço de um homem que vira na Terra tão somente uma vez?”
11 Em torno, o vento brando carreava o perfume de jardins e praças em flor.
A Lua, a erguer-se do horizonte, era o mesmo espetáculo de majestade e beleza a que se acostumara no mundo…
12 De quando em quando, permutava com Fantini uma que outra frase, observando que outros ranchos simpáticos caminhavam na mesma direção.
2. Transcorridos alguns minutos de alegre peregrinar, ei-los diante do templo que primava pela simplicidade, figurando-se enorme pombal edificado com franjas de neve translúcida, defendido, aqui e ali, por densas faixas de arvoredo.
2 No interior, tudo espontaneidade e harmonia.
A fila extensa de bancos deixava ver o púlpito à frente, que assumia a feição de enorme liliácea, esculpida em mármore alvíssimo.
3 Na parede muito branca, diante da assistência, sob as legendas “Templo da Nova Revelação”, “Casa consagrada ao Culto de Nosso Senhor Jesus-Cristo”, ao invés de quaisquer símbolos ou esculturas, jazia apenas uma tela, recordando o semblante presumível do Divino Mestre, cujos olhos na excelsa pintura pareciam falar de vida e onipresença.
3. Sentada com Fantini, lado a lado, a senhora Serpa fitou os rostos, serenos uns e ansiosos outros, que os cercavam em profundo silêncio, e mergulhou o coração em prece muda.
2 Em dado instante, qual se materializasse inesperadamente na tribuna ou até ali fosse ter, através de porta oculta à observação do auditório, um homem, envergando túnica lirial, surgiu e saudou a assembleia, reverente.
3 Logo após, ergueu-se para o Alto e, em oração comovedora, rogou as bênçãos de Jesus para os ouvintes expectantes.
4 De seguida, aproximou-se de grande exemplar do Novo Testamento, aberto sobre delicado porta-livros e leu os versículos números 1 a 4, do capítulo sete do Evangelho do Apóstolo Mateus:
“Não julgueis para não serdes julgados, pois, com o critério com que julgardes, sereis julgados; e, com a medida com que tiverdes medido, vos medirão também.
“Porque vês tu o argueiro no olho de teu irmão, sem notares, porém, a trave que está no teu próprio? Ou, como dirás a teu irmão: “deixa-me tirar o argueiro do teu olho, quando tens a trave no teu?”