Entre a Terra e o Céu · André Luiz · Chico Xavier
Capítulo 20 de 41
Dor e surpresa
1. — Júlio! Júlio! Comparece, covarde!… — Bramia o enfermeiro, possesso.
2 E percebendo talvez a simpatia que Amaro nos conquistara, à face da serenidade com que suportava a situação, prosseguiu, invocando, revel:
— Comparece para desmascarar o patife que procura comover-nos! Júlio, odeio-te! Mas é necessário apareças! Acusa teu desalmado assassino!…
3 O Ministro procurava contê-lo, bondoso, mas Silva, como potro indomesticado, gesticulava a esmo e continuava, conclamando:
— Júlio!… Júlio!…
4 Sim, Júlio não respondeu à chamada, entretanto, alguém surgiu, surpreendendo-nos a atenção. A irmã Blandina, em pessoa, qual se fora nominalmente intimada, estacou junto de nós. Envolvidos na doce luz que nos banhou, de improviso, aquietamo-nos, perplexos, à exceção de Clarêncio que se mantinha calmo, como se aguardasse semelhante visita.
5 Depois de saudar-nos, Blandina rogou, humilde:
— Irmãos, por amor a Jesus, atendei!… Temos Júlio, sob a nossa guarda. Acha-se doente, aflito… Vossos apelos individuais alteram-lhe o modo de ser… Poderia colocar-se mentalmente ao vosso encontro, contudo, atravessa agora difíceis provas de reajuste… Venho implorar-vos caridade!… Compadecei-vos de quem hoje se esforça por olvidar o que foi ontem para regenerar-se amanhã, com eficiência!…
6 Havia tanta aflição e tanta ternura naquela rogativa que a vibração do ambiente modificou-se, de súbito.
Comecei a entender com mais clareza a trama obscura do romance vivo que abordávamos. Júlio, o menino doente, era o companheiro que voltava na condição de filho do amigo com quem outrora se desaviera…
2. Não pude, porém, alongar divagações, porque Silva, provavelmente revoltado contra a emoção que nos senhoreava o espírito, passou a reclamar, de novo:
2 — Anjo ou mulher, não lutarei contra o sortilégio! Não lutarei! Mas preciso arrojar este bandido ao despenhadeiro que merece por suas deslavadas mentiras!… Que Júlio permaneça no Céu ou no inferno, sob a custódia dos arcanjos ou dos demônios, todavia, exijo que a verdade surja, inteira!…
3 Recorro ao testemunho de Lina! Que Lina compareça! Que ela deponha! Se nos achamos aqui, convocados pelo destino que nos algema uns aos outros, que a pérfida mulher seja ouvida igualmente…
4 Nosso instrutor, assumindo a chefia espiritual do grupo, convidou com energia e brandura: — Lina encontra-se não longe de nós. Entremos.
A determinação foi obedecida.
5 Na penumbra do quarto que já conhecíamos, a segunda esposa de Amaro jazia subjugada pela outra. Enquanto Odila se nos afigurava mais rancorosa e mais dura, Zulmira revelava-se mais abatida.
6 Clarêncio enlaçou Mário, como um pai que recolhe um filho, carinhosamente, e, apontando a enferma, esclareceu, generoso:
— Amigo, acalma-te! Lina Flores, atualmente, padece na forja da luta e do sacrifício, a fim de recuperar-se. Apaga a labareda de ódio que te requeima o coração! Deixa que nova compreensão te beneficie a alma ulcerada!… Não nos cabe prejudicar o caminho de quem procura a regeneração que lhe é necessária!…
7 Ante o olhar de Mário, espantadiço e agoniado, o Ministro considerou:
— Lina, hoje, com imensas dificuldades, tenta alcançar a altura do casamento digno e, superando tremendos obstáculos, constrói os alicerces da missão de maternidade para a qual se encaminha… Ajudemo-la com as nossas vibrações de compreensão e carinho. Quando amamos realmente, antes de tudo é a felicidade da criatura amada que nos interessa…
8 Nosso grupo avançou algo mais. Junto de nós, Blandina mantinha-se em prece. O orientador abeirou-se da doente, com atenção respeitosa, e mostrou-lhe o rosto ossudo e triste ao enfermeiro que, ao reconhecê-la, bradou, aterrado: — Zulmira! Zulmira, então, é Lina que volta?
9 O Ministro acariciou-lhe a cabeça e informou, conciso:
— Sim, regressou em companhia de Armando, em dolorosas reparações. O consórcio para eles não foi o castelo de flores de laranjeira, mas sim uma associação de interesses espirituais para o trabalho regenerativo. Armando, em luta, no Plano da vida real, para reerguer-se, aceitou o compromisso de reconduzi-la à dignidade feminina, amparando-lhe as angústias silenciosas…
3. Estupefato, Silva exclamou, cambaleante:
2 — Quer dizer então que Zulmira me traiu duas vezes?
— Não te refiras à traição, — corrigiu Clarêncio, sem alterar-se, — é imprescindível compreender!
3 Armando, ontem, escutou apelos inferiores, incompatíveis com as responsabilidades de que se via depositário. Hoje, é compelido a responder, embora constrangido, a requisições de natureza edificante, às quais, em verdade, não lhe será lícito fugir.
4 Lina Flores reclama alguém que a recambie ao serviço renovador, a fim de que se habilite a auxiliar Júlio, devidamente. Todos somos devedores uns dos outros. As almas aprimoram-se, grupo a grupo, à maneira de pequenas constelações, gravitando em torno do Sol Magno, Jesus-Cristo!…
5 Como um astro que se distancia do núcleo em que se integra, abandonaste a órbita de velhos companheiros de evolução, caindo, pelas vibrações de afetividade e ódio, no centro de forças em que Leonardo Pires e Lola Ibarruri aguardam-te a precisa cooperação, de modo a se liberarem perante a Lei.
6 Amaro, noutro tempo, separou Zulmira e Júlio, estabelecendo espinheiros dilacerantes entre os dois… Agora, cabe-lhe reuni-los no carinho familiar, para que na posição de mãe e filho se reajustem na afeição santificadora…
7 Antigamente, isolaste Leonardo da afetuosa assistência de Lola, criando embaraços asfixiantes à própria marcha… Prepara-te na fé para congregá-los, de novo, no templo doméstico, igualmente na condição de filho e mãe, de maneira a se redimirem para a bênção do amor puro…
8 Nossas ações são pesadas na Justiça Divina… Não podemos enganar o Supremo Senhor. Nossos débitos, por isso mesmo, devem ser resgatados, ceitil a ceitil…
9 A ligeira preleção trouxera-nos enorme proveito.
Amaro dobrara a cerviz, revelando-se disposto a obedecer aos ditames de natureza superior, fossem como fossem. Silva, no entanto, não parecia desperto para as verdades que Clarêncio pronunciara.
4. Hipnotizado na contemplação da mulher querida, demonstrava-se indiferente.
2 Depois de fitá-la, absorto, entre o carinho e a aversão, quebrou a quietude que envolvera o recinto, rugindo, desesperado:
— Não posso modificar-me, desgraçado de mim!… Odiarei! Odiarei a infame que voltou!… Somente a vingança me convém, não quero perdoar! Não quero perdoar!…
3 Novamente enraivecido e inquieto, como fera solta, erguia os punhos cerrados contra a desditosa mulher que jazia no leito, em lastimável prostração. Seu veículo espiritual rodeava-se agora de um halo cinzento-escuro, que despedia raios desagradáveis e perturbantes.
4 Nosso orientador libertou-o da influência magnética com que lhe tolhia as energias. Tão logo se reconheceu sem o controle que lhe sofreava os movimentos, Silva retrocedeu, exclamando: — Não suporto mais! Não suporto mais!…
E correu para o seio da noite.
5 Clarêncio recomendou-nos seguir-lhe o passo, enquanto prestaria assistência ao ferroviário e à esposa, em colaboração com Blandina. O enfermeiro, decerto, — informou o Ministro prestimoso, — retomaria o corpo denso em aflitivas condições de saúde. Passes anestesiantes deviam favorecê-lo. Não podia lembrar a experiência grave daquela hora. A aventura provocada pela insistência mental dele mesmo era suscetível de perigosas consequências.
6 Num átimo, Hilário e eu achamo-nos ao lado de Silva, que aderia ao envoltório de carne com o automatismo da molécula de ferro, atraída pelo ímã.
Examinamo-lo, atentamente.
O peito arfava-lhe, sibilante.
O coração acusava-se desgovernado, sob o império de insopitável arritmia…
7 De imediato, entramos em ação, sossegando-lhe o campo mental, quanto possível, através de sedativos magnéticos.
Ainda assim, apesar dos passes, pelos quais foi completamente envolvido de energias revigoradoras, o moço acordou agoniado, hesitante e trêmulo, como se estivesse fugindo de medonhas tempestades no mundo íntimo.
8 Semi-inconsciente, despendeu vários minutos para identificar-se.
O pensamento surgia-lhe atormentado, nebuloso…
Tentou locomover-se, mas não conseguiu. Sentia-se chumbado à cama, quase na situação de um cadáver repentinamente desperto.
9 Buscou alinhar recordações, contudo, não pôde.
Sabia tão somente que atravessara grande pesadelo cujas dimensões lhe não cabiam na memória. Suarento, aflito, sentia-se morrer…
10 Instintivamente orou, suplicando a Proteção Divina.
Bastou essa atitude dalma para ligar-se, com mais facilidade, aos fluidos restauradores que lhe administrávamos.
11 Pouco a pouco, readquiriu os movimentos livres e levantou-se, ingerindo uma pílula calmante. Amedrontado, sentou-se no leito e, mergulhando a cabeça nas mãos, falou, sem palavras, de si para consigo: — “Estou evidentemente conturbado. Amanhã, consultarei um psiquiatra. É a minha única solução”.
12 Sim, — concordei comigo mesmo, — o ódio gera a loucura. Quem se debate contra o bem, cai nas garras da perturbação e da morte.
Com semelhante raciocínio, afastei-me.
Clarêncio aguardava-nos.
Era preciso continuar na lição.
André Luiz