Entre a Terra e o Céu · André Luiz · Chico Xavier
Capítulo 14 de 41
Análise mental
1. O relógio terrestre assinalava meia-noite e três quartos, quando tornamos ao singelo domicílio de Antonina.
A casinha dormia, calma.
2 Acocorado a um canto, o velho Leonardo mantinha-se na sala, pensando… pensando… Adensamo-nos, ante a visão dele, e, reconhecendo-nos, ergueu-se e começou a gritar: — Ajudai-me, por amor de Deus! Estou preso! Preso!…
3 Clarêncio, bondoso, convidou-o a acomodar-se na poltrona simples e induziu-o à prece. O velhinho, contudo, alegou total esquecimento das orações que formulara no mundo, crendo que apenas lhe serviriam as palavras decoradas, mas o orientador, elevando a voz, com o intuito evidente de sossegá-lo na confiança íntima, pronunciou comovente súplica à Divina Providência, implorando-lhe proteção e segurança para quem se mostrava tão desarvorado e tão infeliz.
4 Emocionados com aquela petição que nos renovava igualmente as disposições interiores, observamos que o avô de Antonina se aquietara, resignado.
5 Clarêncio, logo após a oração, começou a aplicar-lhe forças magnéticas no campo cerebral. O paciente revelou-se mais intensamente abatido.
A cabeça pendeu-lhe sobre o peito, desgovernada e sonolenta.
6 Fitando-nos de modo significativo, o Ministro ponderou:
— A corrente de força devidamente dinamizada no passe magnético arrancá-lo-á da sombra anestesiante da amnésia. Poderemos, então, sondar-lhe o íntimo com mais segurança. Assistido por nossos recursos, a memória dele regredirá no tempo, informando-nos quanto à causa que o retém junto da neta, aclarando-nos, ainda, sobre prováveis ligações que nos conduzirão à chave do socorro, a benefício dele mesmo.
7 — Mas o retrocesso das recordações poderá verificar-se de improviso? — Indagou Hilário, perplexo.
— Sem dúvida, — respondeu o instrutor, — a memória pode ser comparada a placa sensível que, ao influxo da luz, guarda para sempre as imagens recolhidas pelo Espírito, no curso de seus inumeráveis aprendizados, dentro da vida.
8 Cada existência de nossa alma, em determinada expressão da forma, é uma adição de experiência, conservada em prodigioso arquivo de imagens que, em se superpondo umas às outras, jamais se confundem.
9 Em obras de assistência, qual a que desejamos movimentar, é preciso recorrer aos arquivos mentais, de modo a produzir certos tipos de vibração, não só para atrair a presença de companheiros ligados ao irmão sofredor que nos propomos socorrer, como também para descerrar os escaninhos da mente, nas fibras recônditas em que ela detém as suas aflições e feridas invisíveis.
— Quer dizer então que…
10 A frase de Hilário, porém, se lhe apagou nos lábios, porque o Ministro atalhou, completando-lhe a conceituação:
— A mente, tanto quanto o corpo físico, pode e deve sofrer intervenções para reequilibrar-se. Mais tarde, a ciência humana evolverá em cirurgia psíquica, tanto quanto hoje vai avançando em técnica operatória, com vistas às necessidades do veículo de matéria carnal. No grande futuro, o médico terrestre desentranhará um labirinto mental, com a mesma facilidade com que atualmente extrai um apêndice condenado.
11 Hilário arregalou os olhos, espantado, feliz. E exclamou, em voz quase gritante: — Ah! Freud, como viste a verdade!… Como detinhas a razão!…
12 O orientador fixou-o, paternalmente, e aduziu:
— Freud vislumbrou a verdade, mas toda verdade sem amor é como luz estéril e fria. Não bastará conhecer e interpretar. É indispensável sublimar e servir. O grande cientista observou aspectos de nossa luta espiritual na senda evolutiva e catalogou os problemas da alma, ainda encarcerada nas teias da vida inferior.
13 Assinalou a presença das chagas dolorosas do ser humano, mas não lhes estendeu eficiente bálsamo curativo. Fez muito, mas não o bastante. O médico do porvir, para sanar as desarmonias do espírito, precisará mobilizar o remédio salutar da compreensão e do amor, retirando-o do próprio coração. Sem mão que ajude, a palavra erudita morre no ar.
2. O Ministro, contudo, calou-se, dando-nos a entender que o momento não comportava digressões filosóficas.
2 Acariciou, ainda por alguns instantes, a cabeça do ancião e, em seguida, chamou-o, de manso: — Leonardo, recorda! Volta ao Paraguai, onde adquiriste o remorso que hoje te retalha o coração! A dor, quase sempre, é culpa sepultada dentro de nós… Retrocedamos ao ponto inicial de teu sofrimento!… Recorda! Recorda!…
3 O velhinho, diante de nosso intraduzível assombro, acordou de olhos transtornados. Ergueu a fronte, mas seu rosto alterara-se de maneira sensível. Sustentava, iniludivelmente, os traços fundamentais, mas fizera-se mais jovem.
4 Registando a surpreendente transfiguração, Hilário interferiu, perguntando:
— Oh! Que força mágica será esta?
Nosso orientador fitou-o, sereno, e esclareceu:
— Não nos esqueçamos de que temos diante de nós o veículo espiritual, por excelência vibrátil. O corpo da alma modifica-se, profundamente, segundo o tipo de emoção que lhe flui do âmago.
5 Isso, aliás, não é novidade. Na própria Terra, a máscara física altera-se na alegria ou no sofrimento, na simpatia ou na aversão.
6 Em nosso Plano, semelhantes transformações são mais rápidas e exteriorizam aspectos íntimos do ser, com facilidade e segurança, porque as moléculas do perispírito giram em mais alto padrão vibratório, com movimentos mais intensivos que as moléculas do corpo carnal.
7 A consciência, por fulcro anímico, expressa-se, desse modo, na matéria sutil com poderes plásticos mais avançados.
3. Clarêncio relanceou o olhar pelo recinto e acrescentou: — Entretanto, não nos descuidemos do serviço a fazer.
2 Nesse ínterim, Leonardo soerguera-se.
Parecia animado de estranha energia.
O corpo, não obstante continuar obscuro e pastoso, revelava-se desempenado.
3 Repentinamente refeito, vigoroso e móbil, clamou:
— Lola! Lola! Estás aqui? Sinto-te a presença… Onde te ocultas? Ouve-me! Ouve-me!
4 Com inexprimível espanto, vimos dona Antonina escapar do aposento, no corpo espiritual com que a divisáramos na véspera.
Avançou ao nosso encontro, extremamente surpreendida, e, avistando o avô transfigurado, como se fosse tangida no imo da personalidade por misteriosa influência, estampou súbita alteração facial, renovando-se igualmente aos nossos olhos. As linhas do semblante modificaram-se, de inopino, e vimo-la realmente mais bela, todavia, menos serena e menos espiritualizada.
5 Favorecendo-nos o máximo proveito nas observações, o Ministro falou em voz baixa: — Nossa irmã exige tão somente leve auxílio magnético para lembrar-se. Basta-lhe a emotividade anormal do reencontro para cair na posição vibratória do passado, de vez que ainda não se encontra quitada com a Lei.
6 Aterrada, Antonina rojou-se de joelhos aos pés do ancião que se rejuvenescera ao influxo dos passes de Clarêncio e gritou:
— Leonardo!… Leonardo!…
7 Ele, porém, irradiando no olhar ódio e padecimento intraduzíveis, bradou:
— Enfim!… Enfim!…
E prorrompeu em pranto convulso.
8 Estupefatos, ouvimos Clarêncio que nos informava, generoso:
— Repararam? Antonina é Lola Ibarruri reencarnada. Leonardo está vinculado a ela por laços de imenso amor. Ambos procedem de lutas enormes, na teia infinita do tempo.
9 A mulher irresponsável de ontem, hoje é mãe amorosa e digna, à procura da própria regeneração. Tendo abandonado outrora o marido, foi induzida a desposar um homem animalizado, com quem se encontra igualmente enleada por laços do pretérito e que, em não a entendendo agora, votou-a ao esquecimento. Recebeu, contudo, antigos associados de destino por filhos do coração, que conduz para o bem. Em contraposição às facilidades delituosas do passado, atravessa atualmente aflitivos obstáculos para viver.
10 Simpatia incoercível inclinou-nos para aquela mulher em provas tão ríspidas. O ensinamento que a vida ali nos ofertava era efetivamente sublime. A voz do orientador, no entanto, era clara e segura a recomendar: — Ajudemos. O momento determina auxiliar.
André Luiz