Estrelas no chão · Autores diversos · Chico Xavier
Capítulo 22 de 33
Desengano de cantador - Joaquim Serra
1 Cantador que vem da morte, Quando se põe a lembrar, Não sei se sente conforto, Se tem prazer ou pesar, Mas de visita aos amigos Tem muita cousa a contar.
2 No sertão, onde eu morava, Guardava o que mais queria: Plantação de jirimum, De cana e de melancia, Lavoura cercando o engenho E casa na freguesia.
3 Trazia minha mulher Toda enfeitada de fita, De filhos, tinha uma dupla Que nunca vi tão bonita; Em casa, tinha oratório Em honra de Santa Rita.
4 Mantinha dinheiro em cofre, Barra de ouro e dobrão, Meu grande anel com brilhante Não me saía da mão; Tinha caçamba de prata Em meu cavalo alazão.
5 Para mim, todo mendigo Parecia muquirana, Carregava sempre aceso O meu charuto de Havana; Merenda de minha mesa Era feita em porcelana.
6 Do meu alpendre florido, Sentado num canapé, Negava comida aos pobres Mesmo que fosse a coité; Para criança andrajosa Tinha grito e pontapé.
7 Tempo chega, tempo passa, Em certo dia agourento, Chegou a Morte e me disse: — Patrão, não seja birrento, Não me recuse o serviço Que é chegado o seu momento.
8 O choque me derrubou, A cabeça ficou fria, Caí num sono danado No qual nem sonho sentia; Minha prosa terminara, Acabou-se a valentia.
9 Quando acordei, de repente, Estava num catre estreito, Ninguém velava comigo A dor que eu tinha no peito; A idéia é que me acusava Por tudo o que havia feito.
10 Depois de clamar por Deus, Fazendo grande alarido, A registrar um cansaço Que nunca havia sentido, Enfermeiros me trataram Por doente desvalido.
11 Transcorrido muito tempo, De memória aberta em brasa, Lembrando em minha fraqueza Um tico-tico sem asa, Chorei igual a um memnino, Pedindo regresso à casa.
12 Voltei, mas tudo mudara Para meu rude tormento, Minha mulher tinha outros, Fugindo de casamento, Meus filhos me detestavam Por causa de testamento.
13 A casa que eu construíra Era tapera sem trato, Minha lavoura de engenho Sumira, dentro do mato; Meu nome era ponto certo Para surra e desacato.
14 Por fim, chorei sem remédio; Ali não tinha mais vez E afastei-me compreendendo, Com medonha lucidez, Que a gente colhe no mundo É a vida que a gente fez.
15 Conto aqui a minha história A quem possa acreditar; A quem não possa, desejo As bênçãos que Deus mandar, Porque a morte vem a todos Sem distinção de lugar.
16 Adoto nome trocado E assino como convém; Sei que a vaidade da Terra Não tem valor de um vintém, Mas tenho amigos no mundo, Não quero ferir ninguém. Joaquim Serra