Diálogo dos vivos · Autores diversos. — F. C. Xavier / J. Herculano Pires · Chico Xavier
Capítulo 5 de 34
Preâmbulo de Francisco C. Xavier/Consulta sobre o amor - Ponto de vista/Cornélio Pires - Amor sem possessão/Irmão Saulo
Francisco Cândido Xavier As páginas de Cornélio Pires, enriquecidas com os seus apontamentos doutrinários, caro Professor, têm motivado interessantes comentários e solicitações. Assim é que, em uma de nossas reuniões públicas, tendo O Livro dos Espíritos nos dado para estudo a questão 296, e depois das explanações a respeito, por uma de nossas irmãs presentes, o nosso amigo Cornélio respondeu à carta de um companheiro que o consultou acerca do amor no Plano Espiritual, resposta que lhe enviamos desejando vê-la divulgada com os seus comentários. NOTA — Questão 296:
Pergunta - As afeições individuais dos Espíritos são suscetíveis de alterações?
Resposta - Não, porque eles não podem enganar-se, pois não mais usam a máscara sob a qual se ocultam os hipócritas. É por isso que suas afeições são inalteráveis quando se trata de Espíritos puros. O amor que os une é para eles a fonte de uma suprema felicidade. PONTO DE VISTA Cornélio Pires
1 Recebi o seu pedido, Prezado amigo Antenor, Você deseja saber O que pensamos do amor.
2 Falarei do amor terrestre, Não daquele que conduz Nossa vida e pensamento Para a união com Jesus.
3 É verdade que não tenho Direito algum que me assista; Por isso, exponho a você Meu simples ponto de vista.
4 Conforme acredito hoje, Nos pobres estudos meus, O amor na totalidade É a natureza de Deus.
5 No entanto, pelo que vejo, Quanto ao que sinto e ao que faço, O amor é Deus em nós todos…
Cada qual tem um pedaço.
6 De tudo, porém, que amamos, Até quanto conhecemos, Quanto menos possessão Maior a porção que temos.
7 O amor, quando chega, alcança Nossa vida rotineira, Parecendo o orvalho à noite, Quando cai na laranjeira.
8 Mas é preciso cuidado Por dentro do coração.
Toda afeição caprichosa Traz grande perturbação.
9 Quando a pessoa faz isso, Lá se vai a luz do bem:
Carinho vira paixão Que não dá paz a ninguém.
10 Olhe a história de Quinota:
Dizia adorar Lineu, Porque o moço quis a prima, A coitada enlouqueceu.
11 Delfim perseguindo Joana Que, de fato, o não queria, Atirou sobre o pai dela E acertou Dona Maria.
12 Joaquim namorava Zélia; A paixão nele era fogo…
Quando viu Zélia doente, Colou-se à Tina Diogo.
13 Antônia clamava sempre Que amava Zeca Vilaça, Mas Zeca perdeu as pernas E Antônia sumiu da praça.
14 Recorde o que sucedeu Com Camilo Felisberto, Desprezado por Joaquina, Matou-se com tiro certo.
15 O amor, na Terra, em verdade, Pode ter grande aconchego, Mas para viver em paz Não deve ter muito apego.
16 O amor, enfim, vem de Deus, Mas se em nós vira paixão, Parece cousa de louco Ou trama de obsessão.
AMOR SEM POSSESSÃO Irmão Saulo O desapego é uma constante nas lições dos grandes mestres espirituais. E mesmo na vida terrena as pessoas sensatas e experientes compreendem os perigos do apego amoroso. Todas as escolas de Psicologia denunciam esses perigos e, desde os gregos até nós, os filósofos ensinam que a felicidade depende da nossa capacidade de libertar-nos do apego às coisas e aos seres. O ciúme é sintoma de apego e leva a desequilíbrios perigosos, podendo gerar doenças graves e acarretar crimes nefandos. Lemos sempre nos jornais a expressão: “Matou por amor”. Mas a verdade é que o amor não mata, pois o amor é vida e não morte. O que mata é o ciúme, o apego amoroso, gerado por sentimentos inferiores de posse exclusivista da pessoa amada. Esses sentimentos são resquícios animais da espécie que racionalmente devemos expulsar de nós, ao invés de racionalmente aumentá-los, como em geral fazemos. Nossa imaginação pode levar os instintos animais a intensidade ameaçadoras, o que jamais ocorre nas espécies animais. Temos de aprender a amar sem apego. Quando Cornélio escreve que “o amor na totalidade é a natureza de Deus”, lembra-nos a afirmação de João, em seu Evangelho: “Deus é amor”. E Cornélio tira deste princípio a explicação do antigo mistério da presença de Deus em nós, afirmando: “O amor é Deus em nós todos, cada qual tem um pedaço”. A seguir, adverte que quanto menos possessão pusermos no amor, mais amor teremos em nosso coração. É impossível dar-se uma lição tão elevada com palavras mais simples e de maneira mais natural. Toda a dinâmica da evolução espiritual se esclarece na simplicidade caipira desses versos. Deus está presente em nós pela nossa capacidade de amar, mas enquanto não superarmos o nosso egoísmo, que tudo quer com exclusividade, o amor permanecerá sufocado pela vaidade, o desejo e a ambição. Poderíamos perguntar: mas se o amor é o próprio Deus, por que ele não vence o nosso apego? A resposta é clara: porque amor é liberdade. O amor é Deus chamando-nos para a liberdade, convocando-nos ao desapego por nossa própria compreensão e decisão. Deus não nos ama com apego, mas com liberdade e por isso não quer impor-nos a compreensão do amor que devemos atingir por nós mesmos. [1] Sugerimos, a propósito, a consulta dos livros anteriores desta série: Chico Xavier Pede Licença, Na Era do Espírito, Astronautas do Além. (Nota da Editora)