Diálogo dos vivos · Autores diversos. — F. C. Xavier / J. Herculano Pires · Chico Xavier

Capítulo 21 de 34

Preâmbulo de Francisco C. Xavier/A missão do Cristo - Confidência de Natal/Maria Dolores - O Cristo moderno/Irmão Saulo

Francisco Cândido Xavier Em nossa reunião pública os estudos foram orientados pelo item 4 do capítulo I de O Evangelho Segundo o Espiritismo, sobre a missão do Cristo. A mensageira espiritual Maria Dolores trouxe-nos o poema Confidência de Natal. Muitos de nossos companheiros, que nos auxiliavam nas tarefas, solicitaram que a página poética de nossa irmã fosse enviada para a sua cobertura doutrinária, a fim de obtermos mais ampla complementação para os nossos estudos sobre o tema. Faço isso com satisfação, agradecendo-lhe desde já a atenção que puder dispensar ao nosso pedido.

CONFIDÊNCIA DE NATAL Maria Dolores

1 Senhor Jesus!

Vi o homem moderno Em teu Natal, Recordando viajor a deter-se em caminho Junto de construção descomunal.

2 — Agradeço, Senhor, dizia ele, O rio de progresso em que me inundo De alegria esfuziante, As maravilhas que enviaste ao mundo Pelos canais do cérebro triunfante.

3 Agradeço à Ciência de alto nível, Cintilação do Gênio a servir-me de rastros, Que me conduz ao colo de outros astros No foguete de força quase incrível.

4 Agradeço o avião, o carro, o asfalto, O mundo todo em casa a circuito instantâneo, O átomo cativo, as usinas de urânio, O soro, a anestesia, o antígeno, o cobalto, As máquinas de espécie diferente, Desde o computador à enceradeira, Que estendem reconforto à Terra inteira, Impulsionando os povos para a frente.

5 Agradeço o autoestudo a que me elevas, Para que me conheça sem alarme, A fim de imunizar-me Contra o assalto das trevas.

6 Entretanto, Senhor, ao procurar-Te em prece Que o sentimento forma e a palavra não diz, Minha vida te busca e te deseja.

7 Guarda e inspira minh’alma, enfim, para que eu seja Plenamente feliz!

8 Nisso, o homem calou-se em pranto mudo.

E entendi, afinal, Que embora a inteligência brilhe em tudo E em quase tudo se engrandeça, embora, Eis que sem ti, Senhor, O coração da Terra sofre e chora Entre a fome de paz e a carência de amor.

O CRISTO MODERNO Irmão Saulo A modernidade do Cristo não está na figura de gravata e chapéu que tentaram sobrepor à sua imagem clássica. Está na interpretação nova do Cristo que surge das pesquisas históricas e da revelação espiritual que rompe o túmulo da letra. Sepultado na letra que mata, durante dois milênios, o Cristo ressuscita para o terceiro milênio no Espírito que vivifica, segundo a expressão paulina. É a nova ressurreição no terceiro dia, cada dia correspondendo a um milênio. O Cristo ressuscitado substitui o Cristo morto da tragédia grega da Paixão. Não mais o vemos pregado na cruz ou enterrado junto ao Calvário. O homem moderno sente o Cristo ao seu lado. Se todos ressuscitamos e continuamos atuantes na vida, por que motivo o Cristo, Nosso Senhor, continuaria morto? Essa tese é do apóstolo Paulo em sua 1ª Epístola aos Coríntios, mas só agora se impõe à consciência do mundo. Porque só agora o mundo está preparado para compreendê-la. Os mitos do passado se dissolvem à luz da razão esclarecida e a fé se renova ante as conquistas da Ciência, até agora acusada de inimiga da Fé.

Graças a isso Maria Dolores pôde ver, neste Natal, o homem moderno, junto à sua construção descomunal, dialogar solitário com o Cristo moderno que é o seu contemporâneo de todas as encarnações e reencarnações, no passado, no presente e no futuro. A figura clássica do Cristo sobrevive intacta ao longo da História, porque não é a figura de um homem do passado, mas o ideal humano que todos buscamos, o arquétipo divino que nasce do mito para a realidade vivencial de todos os tempos. O pranto mudo em que o homem se cala, nasce da fonte oculta das suas desilusões. De que valem as conquistas da Ciência e as construções descomunais, se a inteligência vitoriosa continua faminta de paz e amor? O reconhecimento dessa realidade áspera lembra o instante em que a vara de Moisés fez brotar a água do coração da rocha. Este é o Natal do reencontro. No fundo de si mesmo o homem moderno vê nascer o novo Cristo que, no entanto, é o companheiro de sempre a oferecer-lhe as diretrizes de paz e amor.