Depois da travessia · Autores diversos e Luiza Xavier · Chico Xavier

Capítulo 76 de 98

Afastamento do corpo - Luiza Xavier

1 Querida Lúcia, Jesus nos abençoe!

2 Dirigindo minhas notícias a você, quero explicar que deixei três filhos — você, Maria Alice e Luciano — Sérgio, Zé Geraldo, Caio, Luizinha, Julinho, Chiquitinho e Conceição por netos muito queridos, e três bisnetos, que são Sarita, Juliana e Mateus.

3 Preciso esclarecer que sou mãe e avó, e por isso amo a todos. Aqui, porém, diante da sua presença e do nosso Oscar, desejo anotar que a nossa convivência foi, para nós duas, uma ligação a vida inteira. Você sempre estava comigo e não conhecemos separação. E o nosso amor uma pela outra era e continua a ser tão grande que eu não queria deixar o corpo doente.

4 Meu apego não foi assim tão grande à existência terrestre, que me dera dificuldades suficientes para desejá-la com tanto ardor, mas sim, eu pedia a Deus mais vida no mundo para não nos separarmos! A ideia de que isso viesse a suceder me causava um medo terrível da morte e uma constante aversão pela ideia de largar o mundo e afastar-me de você. Compreendo que você se lembrará de nossos entendimentos.

5 A doença trazida pelo desgaste do corpo me impunha marcas dolorosas, que os medicamentos, por fim, não conseguiam anular. Tinha bastante experiência para ver o que estou dizendo nos olhos dos médicos, que se incumbiam de meu tratamento. Travei no íntimo uma longa batalha contra o fim de meus sofrimentos físicos.

6 A palavra desencarnação, que ouvia de tantos amigos, soava sempre mal aos meus ouvidos. Ansiava ficar ao seu lado, sentia que você falava dentro de mim e que eu morava em seu coração! Apartar-me de você seria o pior que me poderia acontecer.

7 Mas o tempo parece combinar medidas contra nós quando a moléstia é longa demais. Experimentava horas de aflição e mal-estar, nas quais observava o meu próprio corpo a pedir descanso e socorro. Minha vontade de continuar vivendo era forte demais para que eu não controlasse a minha própria situação.

8 Naquilo que dependesse de mim, expulsava a tendência da morte com a força de quem vigia constantemente contra poderoso inimigo. Chegava mesmo a conservar comigo a própria insônia, sem a menor disposição de aceitar um tranquilizante, para que o sono não pudesse me amolecer a resistência, permitindo que a morte me agarrasse por traição.

9 Filha querida, por que tudo isso? Eu mesma nunca soube responder… Se você saía para qualquer pequeno dever, sentia que estava sofrendo uma lesão inexplicável! Devia ver você, saber você alegre e tranquila para me acalmar…

10 O nosso Oscar sabe disso e sempre tolerou o meu apego excessivo na condição de um filho espiritual que me conhecia a limpeza de sentimentos. Não era o instinto da posse que me dominava, era a sustentação de minha própria vida que eu me empenhava em manter a todo custo. O combate interior crescia por dentro de mim quando minhas energias alcançavam os últimos degraus da resistência…

11 Na noite inesquecível de nossa separação, procurei guardar os meus olhos vigilantes, com receio do sono, que é uma espécie de ladrão de nossa vontade, mesmo porque começara a perceber que uma parte do meu coração estava paralisada, porque não conseguia deitar-me do lado em que isso me parecia estar acontecendo. Havia pedido em oração a Jesus para que não me deixasse perder o corpo, sem a sua presença. E fiz o que pude para que você não se afastasse de mim.

12 Lembro-me com clareza de tudo. A nossa estimada Palmira do Jair estava conosco e eu tomava a sua mão para beijá-la e falar da saudade que começava a sentir. Notei que o estômago estava muito vazio e falei com você que eu aceitaria algum caldo quente que me retirasse da sensação de fome. Você foi à cozinha e preparou o alimento leve que eu desejava. Palmira nos via com a bondade de sempre e chamava você por aduladeira, brincando com os nossos cuidados… Tomei o líquido quente que você me trouxe e ainda ofereci a você o resto para que nós duas fôssemos as únicas pessoas trocando os corações naquela hora. Em seguida, falei que você havia feito uma delícia e novamente tomei sua mão entre as minhas, exclamando: “Ô saudade! Que saudade!…”

13 Era a saudade de você que começou a me tomar a alma toda, quando vi minha mãe chegar em companhia de Madalena, irmã de Maria Anselma, n que trazia nas mãos um retrato de Jesus, que me pareceu gravado em pontos de luz. Acompanhando mamãe e Madalena, estava Cidália n e um grupo de crianças, que me encantava.

14 Acreditei que o alimento me induzia a um sono leve e entreguei-me ao respeito e à admiração pelo quadro que Madalena me mostrava. Não sabia se estava acordada ou sonhando…

13071985 Mamãe me recomendou: — “Luiza, levante-se para receber o retrato de Jesus das mãos de nossa amiga.” — “Não posso!”, respondi mais com o pensamento que com as palavras. “Não tenho forças!…” — “Pode sim”, acrescentou minha mãe: “Esforce-se e saia da cama!…”

15 Creio que os meus movimentos para atender foram apenas mentais. Compreendi que devia aceitar o pedido de mamãe mais por educação que por gosto próprio e depois de alguns momentos me vi fora do corpo desgastado e abatido… Expressei o meu júbilo e o meu agradecimento à nossa Madalena, a quem sempre venerei por uma serva de Deus, quando as crianças unidas cantaram um hino do qual não retirei a minha atenção, a fim de mostrar reconhecimento. Lembro-me de que havia um estribilho no cântico, que era repetido e dizia assim:

16 “Dos grandes lares do mundo O maior é o lar do bem.

Bendito seja o meu lar Nas luzes do grande Além.”