Chico Xavier inédito · Autores diversos. — F. C. Xavier / E. C. Monteiro · Chico Xavier

Capítulo 3 de 21

Romaria da graça - A comunicação de Bittencourt Sampaio

A Revista Reformador, em seus cento e vinte anos de existência completados esse ano , guarda tesouros incalculáveis, hibernando até que um pesquisador indiscreto os traga novamente à luz do dia para serem admirados e reverenciados por outras gerações.

É o caso desta primeira viagem realizada por Chico Xavier ao Rio de Janeiro relatada por Manoel Quintão na sua coluna “Casos e Coisas”, de 1º de julho de 1936, subtítulo “Francisco Xavier no Rio”, e que reproduzimos aqui em parte. Ao final, o artigo traz duas poesias e uma comunicação em prosa psicografadas por Chico, nunca publicadas em livro, mas que merecem ser conhecidas pela geração atual. Primeiro contato Em 1929, ninguém conhecia no Rio de Janeiro o nome de Francisco Cândido Xavier. Talvez algum curioso o houvesse lido em páginas do Clarim, da Aurora ou mesmo do Reformador, mas, o certo é que, sem cunho de maior relevância, que permitisse fixá-lo ou defini-lo, doutrinária ou literariamente falando.

Eis senão quando, nosso confrade M. Quintão, recebeu do médium um punhado de originais e uma carta sugestivamente carinhosa e singela, na qual lhe pedia o signatário que examinasse a produção e dissesse de sua possível identificação autoral.

O confrade Quintão, em que pese sua modéstia e afrontando mesmo a dúvida e a contradita de muitos irmãos, que vivem agora a exaltar as joias do Parnaso de Além-Túmulo, não vacilou em lhe aceitar o teor da originalidade e a probidade moral daquele que as veiculava, sem o conhecer pessoalmente ou sequer às sabendas. Daí, de sua lealdade e franqueza, o pedido insistente daquele prefácio na obra maravilhosa, lá, com justiça, proclamada a mais extraordinária no gênero, até agora recebida.

Daí, também, a sua maior intimidade com o médium, mercê de frequente correspondência epistolar.

Lançado O Parnaso, foi ele criticado, discutido, ou rejeitado, ou aplaudido, tudo em linha de conta, como devia ser, e o prefaciador houve de ir à ribalta, várias vezes, para defender os autores, o médium, o seu ponto de vista. Desse modo fascinante, Humberto de Campos, que agora estarrece milhares de almas com suas crônicas do Outro Mundo, conseguiu que o companheiro viesse ele retificar, no proêmio do 2º, a crítica que ainda fizera na Terra, fizera à 1ª edição do livro. Só em março, contudo, pôde o nosso vice-presidente satisfazer o velho desejo de conhecer pessoalmente o médium. De que foi essa viagem, que ele denomina Romaria da graça, tantas foram as recebidas e que também pudera, mais prosaicamente, chamar-se Lavagem d’alma, pretende escrever ainda um memorandum, tanto que lhe sobrem lazeres.

De antemão, diga-se, porém, que esse contato pessoal mais não lhe valeu que a plena confirmação de quanto prejulgava e dizia do médium e do homem para que mais se evidencie aquela sutil ligação a que, de princípio, reportamo-nos como trabalho dos nossos Guias, sob a égide de Jesus, ligação que, diga-se de passagem, logo se estendera a outros obreiros da casa de Ismael… A visita Desde que foi a Pedro Leopoldo, o nosso companheiro obteve de Xavier a promessa de retribuição da sua visita, retribuição também solicitada em nome dos seus companheiros da Federação. Era uma questão de oportunidades apenas, mas havia também um escolho a vencer.

É que Francisco Xavier, espírita por excelência, tem pavor ao elogio e ao sensacionalismo. Mais ainda, sabe que tem de resguardar suas faculdades e poupar as energias físicas para não as malbaratar em tumultos e atropelos espetaculares, tanto quanto em consultas e perquirições, por certo explicáveis por humaníssimas, mas, por isso mesmo, desponderadas e inúteis, as mais das vezes. O escolho só foi remontado com a garantia de uma relativa discrição, que o resguardasse da curiosidade pública, sem, contudo privá-lo de conhecer uma boa parte, ao menos, da confraria carioca.

Enfim, no sábado, 6 de junho, à tarde, recebia Quintão um lacônico telegrama avisando-o da chegada do médium pelo noturno de domingo. Não havia tempo nem conveniência de prevenir os próprios companheiros, todos da Diretoria da Federação, ainda porque, em carta antecedente ao telegrama, o médium comunicava que vinha a serviço da Repartição em que mourejava e não podia perder tempo, dispondo apenas de três dias nesta capital. Só aqui dilatou o prazo para seis dias. Logo após o almoço, dirigindo-se à Agência Telegráfica no Meyer, ele mesmo se descuidou e o funcionário, ao confrontar os nomes do destinatário e signatário, bem como a estação do destino, disse: Oh! Eu o conheço muito de nome e de… retrato.

O Chico alarmou-se…

Meu Deus! Como vai ser agora?

Tranquilizado, tivemos então a dita de o acompanhar na satisfação de um velho sonho, que o atraía ao Rio de Janeiro — ver o mar. Levamo-lo simplesmente a Niterói, para namorar as areias do Icaraí e as águas plácidas do “Saco de São Francisco”. Um entardecer da Guanabara!

De regresso, uma vista d’olhos à feérica Cinelândia e casa, porque o hóspede viera de noturno, sem leito, e estava positivamente tresnoitado.

Na segunda-feira, fomo-nos ao desempenho do encargo.

Em uma das repartições a que houve de comparecer, encontrou um engenheiro, seu conhecido lá de Pedro Leopoldo. Haveria de visitá-lo, depois, bem como a outras pessoas, previamente designadas. E o tempo? Houve de organizar-se um programa de emergência, mesmo porque também cumpria mostrar-lhe algo da “cidade maravilhosa” como ele dizia. E o incógnito? Não havia tempo a perder: na terça-feira, fomos ao Pão de Açúcar. Cismativo, por vezes melancólico, ora espalhando o aveludado olhar pela massa azul do oceano largo, ora passeando-o pelo recorte das montanhas, explode a pergunta:

E o “Dedo de Deus? Onde está?”

Para nós, na consciência, para os outros, acolá…

Descemos. Ainda nessa noite, haveria de voltar a Niterói. Visita obrigatória, quase protocolar.

Na quarta-feira, visita a pessoa de suas relações. Indeclinável, também. Esse era o dia destinado à sua apresentação ao Grupo “Ismael”. Foi quando, sem o sabermos, em casa do hospedeiro discreto, lá nos subúrbios, estourou a bomba.

O repórter do Diário da Noite penetrava-lhe a casa com ares de Badoglio em Adis-Abeba, e Chico Xavier, colhido de surpresa, fugiu espavorido. Parlamentaram, sitiada a praça; não se renderiam sem impor condições. As condições eram: noticiar a partida do prisioneiro no dia imediato, não divulgar onde permanecia e quem o hospedava. Rapaz inteligente, cavalheiro, o simpático jornalista profano cumpriu a palavra empenhada, fez boa reportagem para o seu jornal, em que pesem omissões e cincas, como a de haver o médium declarado que Humberto de Campos lhe aparecera pela primeira vez, quando ele, médium, contava apenas sete anos de idade! Mas, que importa? O principal era o furo e o furo estava dado. À noite, no Grupo Ismael, estudando com os seus componentes, perfeitamente identificado com os métodos, que são os de seu grupo familiar. de Pedro Leopoldo, obteve sucessivamente três belos sonetos de Cruz e Souza, Auta de Souza e Hermes Fontes, bem como excelente página de prosa doutrinária, firmada por uma das entidades mais familiares desta Instituição, lídimo servo de Jesus, que se chamou Francisco Leite de Bittencourt Sampaio, o mimoso poeta de Flores Silvestres e Divina Epopeia. Essa produção damo-la em seguida a estas linhas. Na quinta-feira, em casa do nosso companheiro, onde já havia recebido espontaneamente, em duas frações e com o intervalo de uma noite, a mensagem intitulada “Casa de Ismael”, que o Diário e a Pátria transcreveram, fez ainda uma reunião íntima, na qual se identificou longa, minuciosa, veracíssima e, consoladoramente, uma filha do mesmo companheiro nosso. Essa comunicação, identificando por detalhes tão íntimos e tão peculiares a cada um dos membros da família, que o médium nem alguém pudera jamais conhecê-los, por aclará-los e justificá-los. Em tendo o ditado da saudosa comunicante, era como se ela ali estivesse, na sua linguagem viva, e todos choravam, inclusive o médium! Em despedidas Sexta-feira, Francisco Xavier passou o dia em companhia do confrade Manoel Cunha, a passeio e visitas a alguns confrades.

À noite, conforme combináramos, lá estava ele.

Na Federação O salão regurgitante de um milhar de assistentes, posto não tivesse havido convites, o presidente exordiou, antes da prece inicial, apresentando o médium e falando, em tese, da necessidade que há de ampararem os porta-vozes do Céu, com o mesmo carinho com que o agricultor diligente trata das fruteiras que lhe alimentam o corpo. Os médiuns genuínos eram as fruteiras que alimentam as almas. Que o médium Xavier, exausto de energias vitais, pensara em solicitar férias de repouso para o corpo, e Emmanuel, seu Guia, determinara-lhe que gozasse de férias mediúnicas.

Que a sua viagem ao Rio era consequente ao desempenho de um mandato burocrático; não vinha como espírita e muito menos como médium, mas como funcionário em atividades do seu cargo.

Daí as suas reservas e precauções tendentes a subtraí-lo às alavancas da curiosidade pública, dado o seu grande e justo renome. Que o soldado disciplinado preferia expor-se à censura imponderada dos mais inconsequentes a contrariar os desejos de Emmanuel e o seu próprio desejo. Que, finalmente, ele, Xavier, ali estava de motu-próprio para conhecer de visu a Casa de Ismael, de que muito lhe falam os do Plano espiritual, bem como aqueles que, do Plano material, fazem dela o seu abrigo de salvação. Feita a prece inicial, o médium começou por escrever aquele soneto Templo da Paz — já publicado pelos diários citados e por nós reproduzido — e tomou a seguir a magistral mensagem de Emmanuel, com que por não lhe retardarmos a divulgação oportuna e necessária, exornamos a primeira página do último número desta revista, sob a epígrafe: “Pela revivescência do Cristianismo”. Eram 21 horas. O presidente transmitiu ao auditório, comovido, o reconhecimento do médium e a sessão foi encerrada com uma prece de graças formulada pelo nosso irmão Luiz Barreto.

Havia em todos os semblantes um halo de alegria, alguns olhos também umedecidos de lágrimas.

Era a derradeira etapa vencida aqui, sob este teto, para que dela nos ticasse perene, doce, saudosa recordação.

Louvado seja Deus!

Até a volta No dia imediato, na gare Pedro II, recebeu o querido servo de Jesus, em nome da Federação e da família espírita carioca, abraços fraternos e votos de feliz regresso ao modesto quão invejável Templo-lar, também cadinho de virtudes.

A comunicação de Bittencourt Sampaio Completando esta resenha de uma visita que foi bem um amplo e reconfortante entrelaçamento de almas do outro e deste Plano e, mais, por lhe dar fecho que corresponde em realidade ao significado profundo que teve o evento noticiado, inserimos aqui, a seguir, a comunicação que acima fizemos referência e que ainda não foi divulgada, a qual Xavier recebeu de Bittencourt Sampaio no Grupo Ismael, bem como os três sonetos na mesma ocasião recebidos.

1 Meus amigos, Glória a Deus nas Alturas e paz na Terra aos homens de boa vontade. Meu coração se afoga subitamente no pranto, lembrando-me de que todos nós poderíamos nos encontrar no divino banquete.

2 O mundo, porém, atraiu grande parte dos nossos antigos companheiros com as seduções de seus efêmeros prazeres. Entretanto, os baluartes do templo de Ismael permanecem inabaláveis, edificados na rocha das grandes e consoladoras verdades do Evangelho de Jesus.

3 Minha voz, amigos, é hoje mais familiar e mais íntima. Substituindo, no momento, aquele cuja tarefa vem sendo penosamente cumprida, está o nosso irmão Xavier, para vos transmitir a minha palavra de companheiro e de amigo.

4 Não me dirijo à Imprensa para vos falar ao coração, muitas vezes despedaçado, ao longo do caminho pelas perfídias atrozes de todos aqueles que concentram as suas energias no ataque ao instituto do Bem, à palavra do Evangelho e ao estatuto da Verdade.

5 Mas, filhos, se o Espaço que vos é vizinho está cheio de organizações poderosas do mal, objetivando a destruição da nossa obra comum, há uma Esfera divina, de onde partem os alvitres valiosos, a inspiração providencial, para quantos aqui mourejam com o propósito de bem servirem à causa da Luz e da Verdade.

6 Não necessito alongar-me em considerações sobre a grande e sublime tarefa do Brasil, como orientador, no seio dos povos, da revivescência do Cristianismo, restabelecendo-lhe as verdades fecundas, 7 nem preciso encarecer a magnitude da obra do Evangelho, problemas esses de elevado interesse espiritual para as vossas coletividades e cuja solução já procurei indicar, trazendo-vos espontaneamente a minha palavra humilde de miserável servo de Jesus.

8 Agora, amigos, cabe-me solicitar a vossa atenção para a continuidade do nosso programa, traçado há mais de cinquenta anos.

9 A Federação não pode prescindir da célula primordial de seu organismo, representada pelo Santuário de Ismael onde cada um afina a sua mente para a tarefa do sacrifício e da abnegação em prol da causa da Verdade, nem pode desviar-se do seu roteiro, delineado dentro do Evangelho, com o objetivo da formação da mentalidade essencialmente cristã.

10 Todas as questões científicas, no seio da Doutrina, repetimo-lo, têm caráter secundário, servindo apenas de acessórios na expansão das realidades espiritualistas.

11 Na atualidade, mais do que tudo, necessita-se da formação dos espíritas, da disciplina cristã, da compreensão dos deveres individuais, ante as excelências da doutrina, a fim de que se possam atacar os grandes cometimentos.

12 Firmai-vos na orientação que vindes observando, sem embargo das ideologias ocas que vos espreitam no caminho das experiências penosas. Somente dentro das características morais e religiosas pode o Espiritismo cooperar na evolução da Humanidade.

13 As criaturas humanas se envenenaram com o excesso de investigações e de empreendimentos científicos, para os quais não prepararam seus corações e seus espíritos.

14 Derivativo lógico dessa ânsia mal dirigida de conhecer a verdade é o estado atual de confusionismo, em que se debatem todos os setores das atividades terrenas, no campo social e político.

15 Não que condenemos a curiosidade, porquanto ela representa os pródromos de todos os conhecimentos; mas é, acima de tudo, que se faz necessário o método e a legitimidade da compreensão individual e coletiva.

16 Preparai-vos, portanto, preparando simultaneamente os vossos irmãos em humanidade dentro do ensinamento cristão e, amanhã, compreendereis, se não puderes entender ainda hoje, a sublimidade da nossa tarefa comum e a grandeza dos seus objetivos.

17 Que Maria derrame sobre os vossos espíritos a sua bênção e que o Divino Mestre agasalhe sob o manto acolhedor da misericórdia todas as esperanças e anseios dos vossos corações.

I — Que pensa do Espiritismo?

II — Tem o Espiritismo influenciado no meio intelectual brasileiro?

III — Que consequências para a ciência, a arte e a literatura se podem deduzir dessa influência?