Conversa firme · Cornélio Pires · Chico Xavier
Capítulo 4 de 21
Penas depois da morte
1 Assunto difícil este, Meu caro Gino Salerno, Comentarmos de outra vida O que existe sobre o inferno.
2 Em tempos que já se foram, Eu também pensava assim: O inferno, depois da morte, Seria fogo sem fim.
3 Mais tarde, a luta crescendo, Olvidei o mundo antigo Mas nunca larguei de todo De certo medo a castigo.
4 Acreditava que a morte Depois de nossos fiascos, Colocasse à nossa frente, Algemas, troncos, carrascos…
5 Sofrimentos, em verdade, Não faltam no Mais Além: Impedimentos, prisões E adversários do bem.
6 Espíritos infelizes Inventam charcos e dores Criando painel imenso Das trevas exteriores.
7 No entanto, por mais abismos A que a pessoa se lança, A Lei de Deus determina Que a ninguém falte esperança.
8 Tal qual sabemos na Terra, Para além da sepultura, O que se tem no caminho É aquilo que se procura.
9 A culpa é desequilíbrio Sob impulsos insensatos, E a mente resguarda, ao vivo, A conta de nossos atos.
10 O inferno, por isto mesmo, Seja ele o mais atroz, É o conflito dos conflitos Que surgem dentro de nós.
11 Cada qual transporta em si — Do mais crente ao mais ateu, — O resultado infalível De tudo quanto escolheu.
12 Por simples anotações E ensinamentos gerais, Recordarei com você Vários casos infernais.
13 Você lembra a sovinice Do fazendeiro Adão Noce, Desencarnado, agarrou-se Aos sofri mentos da posse.
14 Querendo vingar o filho Enlouqueceu Dona França, Mas vive depois da morte Atarracada à vingança.
15 Morreu pisando nos outros, Nhô Lino do Lumaréu, Sem corpo, mora no barro Mas pensa que está no Céu.
16 Finou-se atracado à gula O nosso Antonino Lodi; Agora, enxerga a comida, Que tocá-la mas não pode.
17 Foi-se a tóxicos violentos, Juquita de Dona Altina; No Além, anda alucinado, Reclamando cocaína.
18 De tanto excesso em bebida Morreu Nhô Nico da Alfafa; Hoje, vê tudo o que encontra, Sob a forma de garrafa.
19 Morreu Nhô Juca, usurário No Roçado da Moenda; Mesmo assim, vive ligado Nas porteiras da fazenda.
20 Ódio e briga? Escute esta: Desencarnado, o João Fava Foi chamado a proteger O genro que detestava.
21 O assunto é isso, meu caro, Sem engano e sem talvez, Só se recolhe da morte A vida que a gente fez.
22 Céu, inferno e purgatório, Sejam daí ou daqui, Cada pessoa carrega O que buscou para si. Cornélio Pires