Coração e vida · Maria Dolores · Chico Xavier

Capítulo 32 de 38

Justiça

1 Este episódio aconteceu, há tempos, E está guardado na memória De quantos compartilham desta história.

2 Um condenado à morte pela forca Acusado de um crime, Sem proteção a que se arrime, Tudo aceitou sem reclamar.

3 A hora da execução chegara, enfim… Muita gente na praça se adensava No intuito de aplaudir A presença da morte, em estranho festim. Explodiam na tarde clara e quente Estas palavras de clamor:

— “Morte ao bandido!… Morte ao matador!…”

4 O prisioneiro chega e encontra o sacerdote Que o seguirá na cena derradeira… Em torno, a multidão Gritava rumorosa e galhofeira… Mas entre o padre e o réu se estabelece A conversa ligeira Que o povo crê, no fundo, condensar O amparo de um conselho e a bênção de uma prece Que o ministro de Deus promove com pesar. — “Filho — diz o pastor — sei que estais inocente, Posso agora dizer esta verdade, Questão de consciência e lealdade Que preciso estender a toda gente…”

5 — “Padre, como sabeis?”

— Interrogou ansioso o réu aflito — “Se estou no fim, segundo as nossas leis?”

6 O sacerdote amigo Aconchegou-se mais ao penitente E lhe falou, paternalmente:

— “Na semana passada, Ouvi a confissão inesperada Do homicida infeliz…

Ele morreu comigo, após contar-me Calculando as palavras, uma a uma, Que não tendes culpa alguma…

No derradeiro alento, Cansado de remorso e sofrimento, Pediu-me vos livrasse, ante as autoridades, Documentadamente, Porquanto, ele somente É o responsável pelo crime Que vos foi imputado injustamente, E devo executar-lhe as últimas vontades”.

7 No entanto, o sentenciado Estampando na face uma expressão de horror, Disse, em tom abafado:

— “Padre amigo, Nesse crime, não fui o matador; Quanto a isto, já sei, Mas deixai que se cumpra a exigência da lei”. E, fitando o pastor, de modo inesquecível Rematou, afinal:

— “A justiça é de Deus e o remorso é terrível… Recordai vosso irmão assassinado, Há quase cinco anos, Por entre espancamentos desumanos? O rapaz despojado Da fortuna de um banco que trazia? Aquele vosso irmão que amáveis tanto, Pelo qual vossa mãe morreu de saudade e de pranto, Cuja morte no mundo Permanece envolvida em mistério profundo?”

8 O sacerdote ouvira, trêmulo e assombrado Mas nada respondeu…

Após comprida pausa, disse o condenado: — “O assassino fui eu…

Não me livreis da forca a que me entrego, Já não aguento mais a culpa que carrego…”

9 Pálido, o sacerdote Exclamou, fatigado:

— “Para mim, já não sois o sentenciado, Sois também nosso irmão Mereceis nosso amor, Em nome do Senhor, Estais vós perdoado…”

10 Mas, nisso, a multidão Crendo haver terminado aquele entendimento, Que lembrava um diálogo discreto, Avançou sobre o preso, em tumulto completo… Não houve qualquer tempo Para maior explicação.

Aos gritos delirantes De “morte ao matador”

Sob a guarda robusta Que tomara feitio protetor, O infeliz a tremer, triste e descalço, Subiu ao cadafalso…

11 Alguns momentos mais, E o corpo entremostrando angústia indefinida, Balançava sem vida.

E, na turba, a gritar, perante a horrível cena, Entre vaias finais e assovios plebeus, O sacerdote em pranto, Sem que o povo lhe ouvisse a palavra serena, Murmurava, sozinho, em pequeno recanto: — “A justiça é de Deus… A justiça é de Deus…” Maria Dolores