Coração e vida · Maria Dolores · Chico Xavier
Capítulo 26 de 38
A enfermeira do Além
1 Ela, a querida irmã desencarnada, Fizera-se enfermeira, Aliviava a dor, de estrada à estrada, Era uma espécie de bondade inteira, Socorrendo aos irmãos que a morte espalhava nas trevas…
2 Há trinta anos servia, Sem escolher lugar, trabalho ou dia.
3 Naquele imenso mar de sombra, o tempo parecia Uma chaga mental sem esperança De melhorar ou desaparecer…
4 Certa feita, contudo, a grande obreira alcança Uma estranha mulher, deitada numa furna; Embora não tivesse a morada carnal, Estava cega e só, deformada e ferida, Patenteando a dor que lhe marcara a vida. Ao ouvi-la gemer.
A irmã dos infelizes, Põe-se, em campo, a cumprir O que considerava por dever.
Impressionada, ao vê-la de mais perto, A missionária, indaga, a peito aberto: — Irmã, ouço-te o choro, há muitas horas, Por que tens tanto fel nas lágrimas que choras?
5 A pobre murmurou, pausadamente: — Ai de mim! o que sou e de onde venho? A memória não dá para lembrar… Sei mostrar simplesmente as misérias que eu tenho…
6 Há muitos anos, quantos já nem sei, Fui menina feliz num grande lar… Recordo muito mais as dores que causei… Minha mãe me queria Para exaltar a natureza, Num misto de elegância e de beleza, E falava que eu era uma rosa entre as rosas, Fosse para enfeitar as festas deleitosas Ou estender no mundo o aroma da alegria…
7 Minhas aspirações caíram, uma a uma, Minha mãe não me quis em profissão alguma, Vestia-me, orgulhosa, o corpo esbelto e fino, Dizia que brilhar traçava-me o destino…
8 Casei-me, tive um filho e, depois de dez anos, Troquei meu lar feliz por prazeres mundanos, Meu esposo rogava o meu regresso em vão. Meu filho fez-se logo um belo rapagão, Vendo-me as aventuras, certo dia, Ele, menino e moço, veio visitar-me, Condenou-me os costumes sem alarme, Falou e lamentou-se em voz severa, De conhecer por mãe a mulher má que eu era…
9 De cabeça alterada em cocaína, Revoltei-me, ataquei-o… Atrás de uma cortina Apanhei um revólver no meu quarto, Voltei à sala e apertei o gatilho, Num tiro certo, assassinei meu filho!… Depois de vê-lo morto, junto a mim, Voltei a arma contra o próprio peito E matei-me por fim!…
10 Em seguida, a uma pausa demorada, Contou a própria vida e deu o próprio nome… Na pavorosa mágoa que a consome A mulher prosseguia, consternada: — Nunca mais vi ninguém das pessoas que amei Para mim, tudo é noite e a noite me carrega Porque vivo sozinha, triste e cega Decerto obedecendo alguma lei Que não sei compreender nem explicar…
11 A enfermeira caiu em pranto ardente E indagou da mulher, amargamente: — E se encontrasses neste mar de trevas Nos furacões de dor a que te levas A mãe que te entregou à rebeldia, Teu coração que chora a perdoaria? — Nada tenho a perdoar — disse a pobre atada ao sofrimento — Minha mãe era um anjo em forma de mulher, Jamais a esquecerei, um momento sequer, Ela vivia, em tudo, a trabalhar por mim, Não teve qualquer culpa de meu fim… Se só me fez o bem, fui eu quem fiz o mal… Do amor que ela me deu Fiz todo um lamaçal…
Ninguém pode encontrar motivos de censura No carinho de alguma criatura Que nos dê uma lâmpada sublime, Se lhe usarmos a luz para fazer um crime…
12 A enfermeira abraçou-a a encharcar-se de pranto E quando a jovem triste e atormentada Perguntou-lhe entre aflita e altamente intrigada, Por que razão ela chorava tanto, A benfeitora apenas respondeu: — Deus louvado!… Encontrei o que procuro, Venceremos na Terra do futuro, Filha do coração, a tua mãe sou eu!… Maria Dolores