Coração e vida · Maria Dolores · Chico Xavier
Capítulo 21 de 38
Amor materno
1 Depois de zero hora. E a dama recordava O filho de quem fora venturosa escrava.
2 No bairro, era o silêncio a dominar nas ruas… Quantas horas da noite? Um tanto, além das duas…
3 E a senhora viúva, acostada no leito Lembrava o filho amado, o jovem belo e forte, Que o coração de mãe supusera perfeito, Cuja fuga de casa, Fora no pai amigo o motivo da morte.
4 Vinte anos de ausência!… — e ela refletia Em todo aquele tempo de agonia. O filho que criara, a beijos de ternura, De quem não descansava na procura, A quem nunca levara o mínimo desgosto, E a quem ela e o marido haviam dado tudo, Dinheiro, ostentação, brilho e facilidades, Buscando adivinhar-lhe todas as vontades, Recusara o trabalho e renegara o estudo… Por fim, todo inclinado à cocaína, Desertou porque o pai tão somente o internasse Num colégio distinto em que se lhe evitasse A droga deprimente…
5 Insone, calma e ativa, A memória se lhe aviva E inacessível a calmantes, Rememora a tragédia de anos antes. O moço nunca mais voltara ao lar. Ralada por extremo desconforto, Logo após, ela vira o companheiro morto De saudade e pesar.
Mudara-se de bairro e residência, Mas nada lhe alterara as lutas da existência. Vinte anos de pranto e de aflição Haviam feito dela Pobre mãe transformada em sentinela Da casa nobre e farta, à espera do rapaz, Que lhe arrasara a vida, a segurança e a paz, E que ela amava ainda…
6 Mas enquanto pensava, ouve um ruído leve. Escutou, escutou… Alguém de passo curto Estava em quarto próximo, Certamente na prática do furto. Ao choque, ela chamou, em altos brados, A colaboração dos empregados, Mas o assaltante se aproxima, A valer-se da sombra em todo o espaço estreito; Era um homem robusto a lhe cair por cima, Cravando-lhe um punhal no velho peito.
7 Ergue-se um dos vigias, Vem às pressas, De longe, liga a luz…
Eis que o quarto se fez de todo iluminado E o salteador não foge, Sente-se preso à mão que se lhe estende, Contempla a vítima que o fita, Num transporte de amor com ternura infinita… Reconhece o semblante maternal E a desfazer-se em pranto, Ajoelha-se e grita:
— “Mãe querida, Por que cheguei a tanto, A tanto crime e a tanto mal, A ponto de acabar com a sua própria vida?…”
8 A dama retirou a lâmina cravada — Doloroso empecilho — O sangue gotejou da ferida formada, E, em seguida, exclamou: — “Ah! meu filho, meu filho!… Que saudades de ti, quanta saudade, O tempo parecia a eternidade!…”
9 Entretanto, o vigia invadiu o aposento, Vendo um homem chorando e a dama em sofrimento, Quis gritar e reagir, austero e humano, Mas a senhora diz: — “Ouça, Germano, Meu filho regressou, venha reconhecê-lo… Na precipitação de meu antigo zelo, Feri-me por engano…
Caí sobre o punhal que eu trazia no seio, No entanto, estou feliz… Olhe!…Meu filho veio… Dê-lhe as chaves da casa, Tudo o que tenho é dele, a minha própria vida…” E conservando a mão sobre a parte ferida, Rogou ao servidor:
— “Chame o médico amigo, Transmita a ele tudo o que lhe digo E explique este acidente…
Meu filhinho chegou tão de repente Para fazer-me esta surpresa, Que caí no punhal em que eu mantinha Ou supunha manter minha própria defesa… Estou feliz, Germano, mas agora…” O servidor gritou: — “Ah! não morra, senhora!…” Entretanto, mais fraca e mais cansada, A dama ainda falou, muito pálida e triste: — “Germano, ajude agora ao meu rapaz Compreendo que estou chegando ao fim, Sê a ele fiel, Dê a ele o respeito, a estima e a bondade Que você sempre deu a mim…”
10 O filho ajoelhou-se, em pranto comovente, E clamava, ao beijá-la, ansiosamente, — “Mãe, perdoa-me e vive, mãe querida!… Entremostrando o anseio de falar, Ela, porém, lhe deu o último olhar, Deu-se, de todo, a isso, fez-se forte E descansou, por fim, dizendo, ao entregar-se à morte: — “Louvado seja Deus!… Deus te abençoe, meu filho!…” Maria Dolores