Cartas do Alto · Autores diversos · Chico Xavier

Capítulo 85 de 85

Como cantam os mortos…

O “Parnaso de Além-túmulo”, do Sr. Francisco Candido Xavier, cujos objetivos examinei em artigo anterior, merece trato mais grave e demorado. Escutando a voz dos mortos, devemos identificá-la, para evitar quaisquer possibilidades de impostura. Vejamos, pois, como canta, ou escreve, Augusto dos Anjos, pela boca ou pela pena do espírita de Pedro Leopoldo: “Louco, que emerges de apodrecimentos, Alma pobre, esquelético fantasma, Que gastaste a energia do teu plasma Em combates estéreis, famulentos…

Em teus dias inúteis foste apenas Um corvo ou sanguessuga de defuntos, Vendo somente a cárie dos conjuntos Entre as sombras das lágrimas terrenas, Vias os teus iguais, iguais aos odres Onde se guarda o fragmento imundo, De todo o esterco que apavora o mundo E as ruins exalações dos corpos podres.”

Casimiro de Abreu conserva, nas cordas da sua lira, feitas possivelmente com os restos dos seus nervos, a ingenuidade primitiva. E oferece-nos, nas rimas póstumas, a prova triste de que, mesmo além da vida, no seio mesmo da morte, as paixões não desaparecem. A saudade da pátria é conservada incólume, como se o morto não tivesse mudado de planeta mas, apenas de um país para outro. Ouçamos, para exemplo, o poeta das “Primaveras”, oitenta e dois anos depois de desencarnado: “Que terno sonho dourado Das minhas horas fagueiras No recanto das palmeiras Do meu querido Brasil!

A vida era um dia lindo Num vergel cheio de flores, Cheio de aroma e esplendores Sob um céu primaveril.”

(continua na 8ª página)

COMO CANTAM OS MORTOS…

(Continuação da 1ª página)

“Se a morte aniquila o corpo Não aniquila a lembrança:

Jamais se extingue a esperança Nunca se extingue o sonhar!

E à minha terra querida, Recortada de palmeiras Espero em horas fagueiras Um dia, poder voltar.”

Antero de Quental continua triste e trágico no outro mundo, e disposto, parece, a suicidar-se de novo, para reaparecer neste. “À Morte” é um dos seus sonetos característicos, exportados com endereço aos seus antigos admiradores e discípulos, por intermédio do “médium” mineiro: “Ó Morte, eu te adorei, como se foras O fim da sinuosa e negra estrada, Onde habitasse a eterna paz do Nada Sem agonias desconsoladoras.

“Eras tu a visão idolatrada Que sorria na dor das minhas horas, Visão de tristes faces cismadoras, Nos crepes do silêncio amortalhada.

“Busquei-te, eu que trazia a alma já morta, Escorraçada no padecimento, Batendo alucinado à tua porta; “E escancaraste a porta escura e fria, Por onde penetrei no Sofrimento, Numa senda mais triste e mais sombria.”

A notícia que Antero nos dá não é, evidentemente, das mais agradáveis. A outra existência, para ele, não tem sido melhor do que esta. Ou sucederá isso em virtude do gênero de morte que ele escolheu? O homem que se mata engana, ou tenta enganar a Deus. E o castigo que este lhe inflige, consiste, possivelmente, em faze-lo sofrer no outro mundo os mesmos tormentos que padecia neste. Em síntese: a morte, obtida pelo suicídio, não vale. Só é tomada em consideração aquela que Deus dá, isto é, que sobrevém naturalmente. D. Pedro II continua, mesmo depois de morto, a fazer maus versos. Há uma antiga tradição literária, segundo a qual os melhores sonetos do ex-Imperador eram feitos pelo Barão de Loreto. Admitida essa versão, a conclusão a tirar dos decassílabos que se vai ler é que os dois andam, agora, por lá, separados. Escutemos o velho monarca: “Magnânimo Senhor, que os orbes cria, Povoando o Universo ilimitado, Que dá pão ao faminto, ao desgraçado, E ao sofredor os raios da alegria; “Se, de novo, no mundo, desterrado, Necessitar viver inda algum dia, Que eu regresse ditoso ao solo amado Da generosa pátria que eu queria; “Se é mister retornar a um novo exílio, Seja o Brasil, lá onde eu desejara Ter vertido o meu pranto derradeiro.

“Que eu novamente viva sob o brilho Da mesma luz gloriosa que eu amara, Na alcandorada terra do Cruzeiro.”

Castro Alves continua condoreiro e utilizando as mesmas imagens em que era mestre, na Terra: “É a gota d’água caindo No arbusto que vai subindo Pleno de seiva e verdor; O fragmento do estrume Que se transforma em perfume Na corola de uma flor.

“É a dor que através dos anos, Dos algozes, dos tiranos, Anjos puríssimos faz; Transformando os Neros rudes Em arautos de virtudes, Em mensageiros de paz!”

E Junqueiro, sem mudar de tema ou de rima:

“Na silenciosa paz do cimo do Calvário Ainda se vê na Cruz o Cristo solitário.

“Vinte séculos de dor, de pranto e de agonia Represam-se no olhar do Filho de Maria.”

As poesias de Junqueiro continuam sendo, na outra vida, extensas em demasia. Ficam, por isso, aí, apenas duas parelhas, para amostra. O “Parnaso de Além-túmulo” merece, como se vê, a atenção dos estudiosos, que poderão dizer o que há nele, de sobrenatural ou de mistificação. No primeiro caso, o outro mundo deve ser insuportável, com os poetas que lá se acham. E pior será, ainda, se houver, também, por lá, declamadoras… [1] Transcrito do jornal Diário Carioca, edição de 12/07/1932, na grafia da época, [no livro impresso; aqui, no livro digital, tivemos que atualizar a ortografia para não prejudicar as traduções por inteligência artificial.] Imagens disponíveis em: http://memoria.bn.br/DocReader/093092_02/8000. Acesso em: 09 de julho de 2017. Informação enviada à Vinha de Luz Editora por Ivanir Severino da Silva, repassada de Otávio Alonso Freire Alves via e-mail. [No livro impresso, o Anexo B traz um fac-símile do jornal DIÁRIO CARIOCA 12 DE JULHO DE 1932.]